
BARBÁRIE
Maníaco confessa nove mortes
Além de três estupros e de cinco assassinatos, acusado admitiu ontem ter executado outras quatro vítimas no DF e em Goiás
Ary Filgueira
| Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press |
![]() |
| Na manhã de ontem, acompanhado de policiais do Centro Integrado de Operações de Segurança, Adaylton (C) foi até o local onde teria matado duas outras mulheres no Novo Gama |
Ary Filgueira/CB/D.A Press |
![]() |
| Marido de Evanilde, vítima do acusado, José Gonçalves da Silva acredita em crime encomendado |
A lista de crimes atribuídos a Adaylton Nascimento Neiva, 31 anos, não para de crescer. Ontem, ele confessou ter matado outras quatro mulheres: duas em Sobradinho e duas no Novo Gama (GO). Com a revelação, sobe para nove o número de assassinatos cometidos pelo maníaco. Além disso, ele foi condenado por três estupros cometidos no DF. A série de crimes começou em 2000 e poderia ter sido interrompida se a Justiça não tivesse concedido a progressão de regime ao acusado. O benefício foi garantido a Adaylton apesar de dois laudos(1) criminológicos do sistema penitenciário atestarem que ele apresentava alterações no comportamento e que necessitava de acompanhamento.
Uma das mulheres mortas em Sobradinho pode ser Denise Estácio Dias, 18 anos, moradora de Mestre D´Armas, em Planaltina. Denise está desaparecida desde 5 de julho de 2009. Na ocasião, saiu de casa para encontrar o namorado, Antônio Maxuel Nascimento Fagundes, 19, no Condomínio Nova Colina (Sobradinho). De lá, por volta das 19h, ela teria embarcado em um ônibus com destino à sua residência, afirmou Maxuel em depoimento à polícia. Porém ela não chegou lá, segundo a irmã Daiane, 22. Denise, segundo o criminoso, pode ser uma mulher que assassinou na Fercal.
O que liga o desaparecimento da jovem ao maníaco é o fato de a ossada da outra vítima que ele assumiu ter matado em Sobradinho ter sido encontrada na Quadra 18 da cidade, perto de uma estação de tratamento de esgoto da Companhia de Saneamento do Distrito Federal (Caesb). Fontes da polícia disseram ao Correio que o nome dela é Margareth. “Ainda é muito cedo para se confirmar que ela tenha sido morta pelas mãos de Adaylton, pois estivemos com ele hoje (ontem) e percebemos que ele estava meio confuso nas respostas`, contou um policial. “Uma hora ele fala em três vítimas. Outra, diz que foram duas. Uma delas tem o perfil muito próximo das vítimas que ele fez no Novo Gama. Ela ainda está desaparecida e vamos estabelecer elementos para ver se conseguimos vinculá-la ao crime`, afirmou o delegado-chefe adjunto da 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho I), Rogério de Oliveira.
Até agora, a única confirmação que a polícia afirma ter é de que Evanilde dos Santos Ribeiro, 41 anos, foi realmente morta pelo assassino em série. Mas o motivo é contestado pela família. O suspeito afirmou ter assassinado a comerciante por uma dívida de droga. “Nunca vimos esse cara antes”, afirma o marido dela, José Gonçalves da Silva, 49. “A polícia disse que testemunhas viram minha esposa entrando num Opala preto momentos antes de desaparecer. No dia, ela teria saído para cobrar uma dívida de 1,2 mil de um casal que consumiu bebidas em meu bar e não pagou”, afirma. “A polícia teria, inclusive, pedido a prisão deles, que estão desaparecidos”, destaca José Gonçalves, com o retrato da mulher na mão. “Tudo indica que esse casal contratou ele (Adaylton) para matar a minha mulher.”
Nova varredura
Na manhã de ontem, Adaylton conduziu os policiais do Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops) do Novo Gama à mata onde teria executado duas jovens em 10 de dezembro do ano passado. O local, que fica entre os bairros El Dourado e América do Sul, é o mesmo onde, 11 dias depois, ele tirou a vida de Alessandra Alves Rodrigues, 14 anos. A ossada da estudante estava a menos de dois quilômetros do lugar em que ele supostamente executou as duas moças. Hoje, o Corpo de Bombeiros e a polícia farão uma varredura para tentar encontrar os restos mortais das possíveis vítimas. No entanto, a equipe deve encontrar dificuldades, já que na data provável do crime o Córrego Crispim estava cheio. Os agentes não descartam a possibilidade de a correnteza ter levado os corpos até Corumbá (GO), a 30km, seguindo o leito do rio.
O maníaco revelou que uma das mulheres era garota de programa e fazia ponto nas proximidades de um posto de gasolina na entrada do Novo Gama. Ele admitiu ter usado uma moto roubada na 405 Sul para transportar a prostituta até o matagal. Depois de fumar vários cigarros de maconha com crack, por volta das 10h, ele estrangulou a moça. “Ele conta que a esganou com tanta força que seus dedos perfuraram o pescoço da vítima”, disse o chefe do Ciops, Fabiano Medeiros.
Na tarde do mesmo dia, ele também usou os dedos para atacar uma viciada em drogas. Para atrair a moça, convidou-a para fumar maconha no matagal. Ele nega ter abusado sexualmente das vítimas, mas os agentes do Ciops do Novo Gama (GO), responsáveis pela prisão do maior maníaco da história da região, não acreditam na versão.
1 - Progressão
O primeiro laudo criminológico, de 9 de dezembro de 2003, assinado pelos psicólogos Guilherme de Carvalho e Alessandra Sauka, é desfavorável à concessão do benefício da progressão de regime. O segundo, feito também por Alessandra e por Maria de Nazaré Xavier, em 10 de setembro de 2004, posiciona-se a favor da concessão, desde que ele recebesse acompanhametno psicológico. O terceiro laudo, de 4 de setembro de 2008, ressalta o comportamento normal de Adaylton e recomenda a liberação ao regime semiaberto.
Quando o prenderam, eu já imaginava que ele tinha feito outras vítimas. Não tenho raiva dele, nem quero que nada de ruim aconteça. A única coisa que eu peço à Justiça é que o deixem preso”
Alexandre Rodrigues Macedo, pai de Alessandra Alves Rodrigues, morta pelo maníaco
Sem comunicação
Naira Trindade
Adaylton estava livre quando fez suas últimas nove vítimas. Entre o período em que esteve em liberdade provisória e uma fuga do regime semiaberto, ele abusou de três mulheres e matou outras seis. Mesmo condenado em duas unidades da federação, a um total de 41 anos e 10 meses, ganhou o direito de regime e voltou às ruas por bom comportamento. Apesar de um laudo contrário à concessão do benefício, um segundo previu a progressão desde que ele fosse monitorado. Uma terceira avaliação julgou que o acusado teria se reabilitado e estava apto ao regime semiaberto. Assim, ele foi autorizado a exercer trabalho externo, mas voltar todos os dias para dormir na prisão. Durante quase um ano e meio, ele cumpriu a determinação, mas, em setembro do ano passado, Adaylton saiu para trabalhar e não retornou à Papuda.
Especialista em crimes violentos, Ilana Casoy se dedica, há dez anos, a estudar o perfil de assassinos em série. “O criminoso em série é um andarilho. Mas como pegá-lo se não existe um banco de provas? Não há sequer uma central com as informações dos presos”, destaca. No Brasil, não existe uma rede que centralize os dados dos detentos. “Lamentavelmente, os setores não trocam informações”, complementa a especialista em psicologia jurídica Maria Adelaide de Freitas Caires.
Um dos exames que permitiram a progressão de regime a Adaylton Neiva condicionou o benefício ao monitoramento médico. “Geralmente, eles mandam a pessoa ser acompanhada por especialistas, mas o Estado não oferece condições para isso”, constata Adelaide. “O que precisa ser repensado é o sistema. Hoje, o diretor emite um parecer e o juiz concede o privilégio com base nos dados e na percepção de outro”. Até 2003, os exames de progressão de pena eram obrigatórios. “O sistema carcerário estava abarrotado e o conselho penitenciário segurava a maior parte dos indivíduos, causando um inchaço”, recorda.
Perfil de desequilíbrio constante
A ossada de Alessandra Alves Rodrigues, 14 anos, a última vítima do maníaco do Novo Gama, segue hoje para o Instituto Médico Legal (IML) de Goiânia. O objetivo é usar a estrutura da unidade da capital do Goiás para identificar a vítima. Ontem, o pai dela, Alexandre Rodrigues Macedo, 40, tirou sangue para ajudar na confrontação dos exames feitos nos restos mortais da garota. Enquanto as investigações prosseguem, a família da jovem permanece sem entender como um homem considerado perigoso para o convívio social estava fora da cadeia. “Quando o prenderam, eu já imaginava que ele tinha feito outras vítimas e tenho certeza que se apertarem, vão surgir mais. Não tenho raiva dele, nem quero que nada de ruim aconteça à integridade dele. A única coisa que eu peço à Justiça é que o deixem preso, pois se soltarem, ele vai matar de novo. É um sujeito que tem que ficar em tratamento constante”, acredita o pai de Alessandra.
Ameaças
Depois de passar 210 dias detido por ter matado a companheira, grávida de cinco meses, e sua enteada, em 2000, Adaylton tentou matar o delegado responsável por sua prisão na época. Ele foi até o Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops) e chegou a armar uma tocaia para o policial, mas desistiu do plano. “Ele chegou a mexer no carro do delegado da época. A ideia era matá-lo. Percebo que ele é uma pessoa completamente desequilibrada, que delira muito”, ressaltou o delegado Fabiano Medeiros, chefe do Centro Integrado de Operações de Segurança do Novo Gama. (SA)







