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11 de novembro de 2001
Dicas de Português
Perdoai-lhes, Senhor
Por Dad Squarisi
dad@correioweb.com.br


  Foi o julgamento do ano. Os quatro rapazes acusados de atear fogo ao índio Galdino estavam no banco dos réus. Ao depor, contaram pormenores do crime.
No fim, pediram perdão aos parentes do pataxó: — Não perdôo satanás, disse a mãe do falecido. A resposta provocou diz-que-diz. Alguns lembraram o Senhor. ‘‘Perdoar é o grande negócio de Deus’’. Outros trouxeram à tona velho ditado árabe: ‘‘Se o Todo-Poderoso não perdoasse aos pecadores, o céu ficava vazio’’.
  A grande controvérsia recaiu na regência do verbo perdoar. Qual a dele? Perdoa-se alguém?
Ou perdoa-se a alguém? Dúvida. Dúvida. Dúvida.
  E daí? Na fala vale tudo. Mas, na norma culta, a coisa muda de figura. O português moderno tem preferências. Ele se derrete de amores por objeto direto de coisa e indireto de pessoa. Tradução: complemento pessoa? Use perdoar a. Complemnto coisa? Perdoar simplesmente.
  Exemplos não faltam:
Deus perdoa os pecados. Deus perdoa aos pecadores.
Deve-se perdoar qualquer falha aos poetas e aos sonhadores. Perdoem-lhes os abusos. Perdoai-lhes, Senhor.Eles não sabem o que fazem.Que assim seja! Afinal, a carne é fraca, as facilidades muitas, as tentações grandes, a Justiça
cega-surda-lerda.


Recado

‘‘Traduções são como mulheres. As bonitas não são fiéis.
E as fiéis não são bonitas.’’
Bernard Shaw


Ser simples é...

Deixar o manter pra lá. Em vez de ‘manter conversação’, ‘converse’. Em lugar de ‘manter encontro’, encontre-se. Ou tenha encontro.


Xô, vício

Roberto Neves vive com dor de ouvido. Compra que compra remédio pra otite. Mas os medicamentos estão pela hora da morte. E o dinheiro encurtou. ‘‘O problema’’, diz ele, ‘‘não é da alçada do otorrino. Pertence ao universo da prosódia. Muita gente pronuncia o à como se fossem dois aa (vou a a praia). Pode estar certo. Mas maltrata os tímpanos’’.
  São manhas da escola antiga. No ditado, os professores pronunciavam dois aa para os alunos se darem conta da crase. Era um truque. Virou vício. Corra dele. Xô!


Último grito

Primeiro foi o Afeganistão. Logo depois, O Clone. Com eles, as roupas das muçulmanas caíram na boca do povo. A burca foi uma delas. É a veste que cobre o corpo da cabeça aos pés. Para a mulher não ficar ceguinha, há um visorzinho mágico. Com ele, a protegida vê sem ser vista.


Promessa

Ele é igualzinho a eu quando criança? Igualzinho a mim quando criança? A dúvida tirou o sono do Carlos Leão. A causa é simples. Ele desconhece a promessa do pronome eu. O retinho jurou de pés juntos que jamais aparecerecia antecedido de preposição. Quando a, ante, após, perante e tantas surgem, ocorre uma metamorfose. O eu toma a forma mim: Ele é igualzinho a mim quando criança. Falou perante mim. Nada existe entre mim, ti e ele. Disse a mim que sairia mais cedo.


Chiquérrimo

O igual tem a marca do elitista. O plural do diminutivo é pra lá de sofisticado. Para chegar a ele, exige três etapas. A primeira: põe a palavra primitiva no plural (iguais). A segunda: esconde o s (iguai). A última: acrescenta o sufixo -zinhos (iguaizinhos).
  A regra vale para as palavras que fazem o diminutivo com o acréscimo do zinho: mulherzinha (mulherezinhas), colherzinha (colherzinhas), caracolzinho (caracoizinhos), papel (papeizinhos), coração (coraçõezinhos).


Leitor pergunta

  É um mistério. Cárcere e prisão são sinônimos, mas carcereiro e prisioneiro não. Por quê? Já perguntei a milhares de pessoas. A resposta: não há explicação. Será?
Heleno Capistrano de Souza, lugar incerto

  O sufixo -eiro dá idéia de ocupação, ofício, profissão (barbeiro, copeiro, carpinteiro, biscateiro). Carcereiro obedece à regra. É o guarda de cárcere. Prisioneiro tomou outro rumo. É o encarcerado. Por quê? Talvez, quando surgiu, se considerasse prisioneiro uma profissão. Será? É um mistério.
  Chamem o Sherlock Holmes.


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