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11 de novembro de 2001
Receitas de um pediatra
A sociabilização da criança em creches e escolinhas

Cartas para o dr. Márcio Lisbôa devem ser enviadas para Correio Braziliense — Redação — SIG Quadra 2, Lote 340, Brasília, DF. CEP: 70.610-901 dr.lisboa@bol.com.br Com apenas um assunto. É preciso mandar nome, endereço e telefone para contato.
Dr. Márcio Lisbôa

  Uso a palavra escolinha em seu sentido genérico, para denominar as escolas maternais, os jardins de infância e as pré-escolas, que cuidam de crianças com menos de 5 anos.
  A partir dos 3 anos, a criança necessita de outras formas de sociabilização, fora da família. Precisa conviver com outras pessoas, principalmente com crianças que tenham mais ou menos a sua idade, seja em parquinhos, creches ou escolinhas. Conviver com crianças do outro sexo, com diferentes cor da pele, dos cabelos e dos olhos, altas ou baixas, fisionomias e vestimentas diversas e, principalmente, aprender que cada uma delas tem uma maneira própria de ser. Aprenderá que todas têm pais, avós, tios, amigos; que têm religiões diferentes; que umas vão a igrejas, outras a cultos ou a sinagogas.
  Em sua vivência em casa, a criança já aprendeu muita coisa, como a reconhecer quase tudo que é certo ou errado. Já tem seus próprios valores e está pronta para começar a enfrentar uma nova etapa da vida — o aprendizado da convivência harmônica em grupos, em que cada membro tem suas peculiaridades, sentimentos e valores, e que uma sobrevivência alegre e feliz vai depender de entendimentos, concessões, manejo das frustrações.
  Nas escolas, as crianças aprenderão regras de moralidade, convenções sociais, atitudes e formas de se relacionar com os professores e as outras crianças. A integração de cada criança no grupo exige o trabalho de alguém que tenha conhecimentos. O pré-escolar tem uma tendência a brincar ao lado dos outros, isolado — sua atitude é egocêntrica. Colocado num grupo, que não tenha um bom supervisor, pode ser vítima dos ‘‘valentões’’, dos desajustados, dos malcriados, e se sentir intimidado ou até virar um agressor.
  O poder educativo do grupo reside em uma convivência que vai ensiná-la a controlar seus instintos, dar e receber, exigir e conceder, combater e acatar, conhecer as qualidades e defeitos nas relações humanas, a necessidade da disciplina, de obedecer as regras do grupo, a importância dos limites, do respeito aos direitos dos outros e da necessidade de lutar pelos próprios direitos.
  A competição leva ao desejo de se tornar cada vez melhor. Cabe ao supervisor transformar esse grupo em equipe, feita de integração com o propósito de realizar alguma coisa. A equipe se encarregará de transformar o ‘‘eu’’ em ‘‘nós’’.
  As escolinhas — os jardins de infância, escolas maternais, pré-escolas — são instituições típicas de educação pela recreação. Sua principal finalidade é conseguir a conformação da personalidade infantil de acordo com os padrões culturais do meio em que vive. As escolinhas ajudam as crianças a se libertarem da tutela dos pais e dos adultos, contribuindo para sua autonomia e auto-suficiência; a viverem em grupo; a amar o próximo; a lutarem pelos seus direitos e a respeitarem os dos outros; a serem disciplinadas; a serem responsáveis, cuidando de si mesmas, de suas roupas, livros, objetos, de aprenderem bons hábitos higiênicos, como lavarem as mãos após ir ao banheiro; a se expressarem e a desenvolverem aptidões, por meio das brincadeiras, jogos, pintura, modelagem, música, dança; a aprenderem regras de convivência; a ficarem melhor preparadas para entrar no primário. Todas essas aquisições costumam ser mais facilmente conseguidas nas escolinhas do que em casa, pois as crianças se identificando uma com as outras se educam reciprocamente e o grupo impõe suas leis.
  Nas escolinhas deve-se tentar reproduzir o clima do lar, onde existe atenção, carinho, segurança, liberdade, independência, recompensas, elogios, disciplina, respeito aos limites e à individualidade de cada criança. Bem administradas e possuindo pessoal qualificado, elas constituem instituições ideais para o desenvolvimento integral da personalidade das crianças.


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