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O peru e o rádio
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Chega de terrorismo, Osama, antraz, talibãs e outros bichos. Por um momento, esqueçamos os perigos que nos ameaçam por Ceca e Meca, sem trocadilho...
E olhe que até agora, nenhum doido jogou dinheiro vivo ou bem falsificado — chega-se praticamente à perfeição — sobre cidades escolhidas a dedo.
Já pensou trilhões de dólares desabando em cima de Nova York, Londres, Tóquio e, por que não, São Paulo e Brasília? Caos na economia mundial, mercados de pernas para o ar. Terrorismo limpo, sem o horror de vírus, bactérias e assassinatos em massa. Mas xô para eles todos!
Prefiro esquecer a paranóia geral. Recorro ao humor do amigo José Oliveira, lendária figura de Sergipe, e recordar uma estorinha contada por ele e passada, in illo tempore, na sua cidade natal, Itabaiana. Desopilemo-nos.
Junho de 1938. A seleção brasileira de futebol fazia bonito na Copa do Mundo que se realizava na França. Na estréia, venceu a Polônia por 6 x 5, depois derrotou a Tchecoslováquia por 1 x 0, classificando-se para a semifinal, naquela tarde contra a Itália.
Em Itabaiana os rádios, ainda caros, eram contados nos dedos, só para gente rica. Seu Torquato, próspero comerciante, tinha um muito bonito e se orgulhava de dar aos amigos e fregueses as últimas notícias do Brasil e do mundo. Na época, jornais e revistas chegavam àquela lonjura com atraso de uma semana.
Sua satisfação era ainda maior, pois a seleção de Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Romeu e outros craques brilhava na Europa. Ele não podia conter a ansiedade que sentia pelo jogão de logo mais.
Às dez horas, um indivíduo chegou a sua casa carregando um peru. Foi atendido pela esposa do comerciante:
— Dona Zefinha, seu Torquato mandou este peru e disse para a senhora mandar o rádio.
— Oh, que peru bonito, deve ser para o aniversário dele semana que vem. Mas para que ele quer o rádio, não está bom?
— Sei não, parece que é para limpar as válvulas.
Dona Zefinha chamou a empregada, deu as instruções sobre o peru, desligou da parede o rádio e recomendou ao portador todo cuidado no transporte.
Quando seu Torquato chegou para almoçar, Dona Zefinha, como de hábito, foi esperá-lo à porta. Ajudou-o a tirar o paletó e folgar a gravata. Sentaram-se à mesa e ela:
— Gostei do peru. É pro seu aniversário?
— Que peru?
— Você não mandou um peru?
— Eu não!
— E não mandou buscar o rádio?
— Eu não! Você entregou?
— Entreguei... Ai meu Deus!
Seu Torquato virou fera. Às pressas, vestiu o paletó, nem se lembrou de apertar o laço da gravata. Saiu fuzilando a mulher com o olhar e lamentando as agruras da vida. Diante da cena, Dona Zefinha correu ao oratório, foi pedir aos santos de sua devoção que tudo fosse resolvido.
Por volta das três da tarde chegou outro indivíduo, amigo do ladrão. Informou a Dona Zefinha que haviam prendido o ladrão do rádio, que estavam todos na delegacia e que seu Torquato mandava buscar o peru. A justa senhora colocou as mãos na cabeça, deu um grito de satisfação e ordenou à empregada que entregasse ao rapaz o maldito peru.
— Deus é grande... A justiça sempre vence. Leve este desgraçado e diga ao delegado para dar uma boa surra no moleque safado que jogou contra mim meu santo marido.
Passou a esperar, ansiosa, pela chegada de seu Torquato na expectativa de que, com a retomada do rádio, receberia palavras de carinho e conforto pelo contratempo.
Quando ele voltou, sem esperar que ela o ajudasse a tirar o paletó, foi direto para o quarto enquanto a mulher dizia:
— Graças a Deus, hein?
— Graças a Deus por quê?
— Não pegaram o ladrão do rádio?
— Não sei disso não...
— Mas você não mandou buscar o peru?
— Eu não! Você entregou?
— Entreguei. Minha Virgem Maria!
— Eta mulher burra! E agora? Nem rádio, nem peru e nem Copa do Mundo! Sabe de uma coisa? Vou dormir com o quarto trancado por dentro para que você não me entregue a quem aparecer...
(Pano rápido)
‘‘Nos momentos complicados é fundamental manter a presença de espírito, embora o ideal mesmo seja conseguir a ausência de corpo’’ (Millôr Fernandes).
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