Lauro Rutkowski
Da equipe do Correio
| Jorge Cardoso/30.10.01 |
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| Pires, dono da delicatessen Papa Fina, aumentou a oferta de produtos nacionais: ‘‘O brinde de fim de ano vai ser com champanha nacional’’ |
A ceia e os presentes de Natal dos brasileiros virão embrulhadas em papel verde-amarelo. Com a valorização de 30,14% do dólar frente ao real acumulada neste ano, champanhas e vinhos franceses, frutas cristalizadas gregas ou turcas, bonecas, games e carrinhos importados voltaram a ser coisa de rico. Sorte da indústria nacional, que, com a alta dos preços dos produtos estrangeiros, recupera parte do espaço perdido nos últimos anos para os produtos importados. Melhor ainda para o governo, que precisa de saldos positivos na balança comercial para reduzir o rombo nas contas externas e acaba de lançar uma campanha publicitária pendindo aos brasileiros que valorizem o produto nacional. ‘‘Seja amigo oculto da economia brasileira. Compre produtos brasileiros no Natal’’, diz um dos slogans da campanha Natal Verde e Amarelo.
O pedido do governo pode até sensibilizar a população, mas nesse Natal a queda no consumo de importados será determinada mesmo pela escalada da moeda americana diante do real. Os números das indústrias de bebidas e de brinquedos mostram os efeitos da pressão no câmbio sobre o comportamento do consumidor. ‘‘O nosso crescimento tem sido proporcional à queda das vendas dos importados’’, diz Danilo Cavagni, diretor da União Brasileira dos Vitivinicultores (Uvibra). Em 1998, quando um dólar valia pouco mais de um real, o Brasil produziu 3,2 milhões de garrafas de champanha e importou 1,3 milhão. Neste ano, com o dólar valendo mais de dois reais, o volume de importações ficará em 700 mil garrafas, 85,7% a menos do que em 1998. A produção nacional deve chegar a 5,8 milhões de garrafas, uma quantidade 81% superior a de 1988.
Queda no contrabando
Na indústria de brinquedos, a alta do dólar também promete um feliz Natal um próspero Ano-Novo. Desde a abertura do mercado brasileiro, em 1995, os fabricantes nacionais enfrentam a concorrência terrível dos brinquedos de baixo custo produzidos na Ásia. Nas épocas de euforia consumista, como Dia das Crianças e Natal, os empresários amargavam quedas nas vendas, enquanto importadores riam à toa. ‘‘A valorização artificial do real prejudicou a indústria nacional. Ainda bem que o governo se deu conta disso em 1999’’, comemora Carlos Tilkian, presidente da Estrela.
Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Brinquedo apontam um crescimento de 15% nas vendas no último Dia das Crianças. Para o Natal, a perspectiva é de que o movimento cresça 20% em relação ao ano passado. Em 2001, o faturamento deve chegar a R$ 921 milhões — uma evolução de 8% na comparação com 2002. De 1996 a 2001, as importações de brinquedo caíram 58%: despencaram de R$ 95,2 milhões para R$ 60 milhões.
A alta do dólar também está ajudando a combater o contrabando, inimigo mortal dos fabricantes de brinquedos e bebidas. De acordo com dados do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais (Unafisco), houve uma queda de 50% nas importações brasileiras do Paraguai. Em tempos normais, o Brasil compra entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões por mês, o equivalente a um movimento anual acima de US$ 2 bilhões. De setembro para cá, este volume caiu 50%. Segundo o presidente do Unafisco, Paulo Gil Introíni, a crise econômica também ajudou. ‘‘Se a economia vivesse um momento de expansão, o comércio ilegal não teria recuado, mesmo com alta do dólar’’, avalia.
Consumidor retraído
As vendas de importados só não serão piores neste ano porque grandes redes de varejo ainda não repassaram toda a alta do dólar aos estoques de produtos estrangeiros. Isso porque os comerciantes conseguem descontos consideráveis nas compras em grande quantidade e apertam a margem de lucro, porque viram que o consumidor não está disposto a pagar muito caro só para ter o prazer de comprar um importado. ‘‘Quem comprava três garrafas de uísque de uma só vez está comprando uma’’, analisa Alfredo Alasmar, dono da Casa Ouro, loja que há 21 anos trabalha exclusivamente com importados. Com a alta do dólar, uma garrafa de champanha francesa Möet Chandon, que custava R$ 112,50 no Natal passado, sai agora por R$ 125. A garrafa de vinho Comte De Sansac Bordeaux subiu de R$ 23,50 para R$ 28,50.
Acostumado ao vaivém das cotações da moeda americana, Alasmar não pretende abrir as portas da Casa Ouro para os nacionais. ‘‘O nosso diferencial é ser referência em importados. Se quero continuar assim, sou obrigado a reduzir o lucro’’, diz.
Na delicatessen Papa Fina, a invasão nacional está ocorrendo desde a desvalorização do real de janeiro de 1999. Nos primeiros meses de funcionamento, em 1998, a loja vendia apenas 10% de produtos nacionais. De dois anos e meio para cá, esta participação subiu para 60%. Até os hábitos do dono, um apaixonado por vinhos franceses, mudaram. ‘‘O brinde de fim de ano vai ser com champanha nacional’’, assegura Gilvan Pires. Ele nota que a crise também atingiu os presentes. ‘‘Algumas empresas que davam cestas de R$ 1 mil. Hoje dão só uma garrafa de uísque.’’
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