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11 de novembro de 2001
Consumo
EFEITOS DA CRISE
A vez do produto nacional

A valorização do dólar diante do real aumenta os preços dos importados e ajuda a indústria brasileira a recuperar o espaço perdido para os estrangeiros. Fabricantes de bebidas e de brinquedos comemoram o aumento das encomendas de fim de ano
Lauro Rutkowski
Da equipe do Correio


Jorge Cardoso/30.10.01
Pires, dono da delicatessen Papa Fina, aumentou a oferta de produtos nacionais: ‘‘O brinde de fim de ano vai ser com champanha nacional’’

A ceia e os presentes de Natal dos brasileiros virão embrulhadas em papel verde-amarelo. Com a valorização de 30,14% do dólar frente ao real acumulada neste ano, champanhas e vinhos franceses, frutas cristalizadas gregas ou turcas, bonecas, games e carrinhos importados voltaram a ser coisa de rico. Sorte da indústria nacional, que, com a alta dos preços dos produtos estrangeiros, recupera parte do espaço perdido nos últimos anos para os produtos importados. Melhor ainda para o governo, que precisa de saldos positivos na balança comercial para reduzir o rombo nas contas externas e acaba de lançar uma campanha publicitária pendindo aos brasileiros que valorizem o produto nacional. ‘‘Seja amigo oculto da economia brasileira. Compre produtos brasileiros no Natal’’, diz um dos slogans da campanha Natal Verde e Amarelo.
  O pedido do governo pode até sensibilizar a população, mas nesse Natal a queda no consumo de importados será determinada mesmo pela escalada da moeda americana diante do real. Os números das indústrias de bebidas e de brinquedos mostram os efeitos da pressão no câmbio sobre o comportamento do consumidor. ‘‘O nosso crescimento tem sido proporcional à queda das vendas dos importados’’, diz Danilo Cavagni, diretor da União Brasileira dos Vitivinicultores (Uvibra). Em 1998, quando um dólar valia pouco mais de um real, o Brasil produziu 3,2 milhões de garrafas de champanha e importou 1,3 milhão. Neste ano, com o dólar valendo mais de dois reais, o volume de importações ficará em 700 mil garrafas, 85,7% a menos do que em 1998. A produção nacional deve chegar a 5,8 milhões de garrafas, uma quantidade 81% superior a de 1988.
  
Queda no contrabando
Na indústria de brinquedos, a alta do dólar também promete um feliz Natal um próspero Ano-Novo. Desde a abertura do mercado brasileiro, em 1995, os fabricantes nacionais enfrentam a concorrência terrível dos brinquedos de baixo custo produzidos na Ásia. Nas épocas de euforia consumista, como Dia das Crianças e Natal, os empresários amargavam quedas nas vendas, enquanto importadores riam à toa. ‘‘A valorização artificial do real prejudicou a indústria nacional. Ainda bem que o governo se deu conta disso em 1999’’, comemora Carlos Tilkian, presidente da Estrela.
  Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Brinquedo apontam um crescimento de 15% nas vendas no último Dia das Crianças. Para o Natal, a perspectiva é de que o movimento cresça 20% em relação ao ano passado. Em 2001, o faturamento deve chegar a R$ 921 milhões — uma evolução de 8% na comparação com 2002. De 1996 a 2001, as importações de brinquedo caíram 58%: despencaram de R$ 95,2 milhões para R$ 60 milhões.
  A alta do dólar também está ajudando a combater o contrabando, inimigo mortal dos fabricantes de brinquedos e bebidas. De acordo com dados do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais (Unafisco), houve uma queda de 50% nas importações brasileiras do Paraguai. Em tempos normais, o Brasil compra entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões por mês, o equivalente a um movimento anual acima de US$ 2 bilhões. De setembro para cá, este volume caiu 50%. Segundo o presidente do Unafisco, Paulo Gil Introíni, a crise econômica também ajudou. ‘‘Se a economia vivesse um momento de expansão, o comércio ilegal não teria recuado, mesmo com alta do dólar’’, avalia.
  
Consumidor retraído
As vendas de importados só não serão piores neste ano porque grandes redes de varejo ainda não repassaram toda a alta do dólar aos estoques de produtos estrangeiros. Isso porque os comerciantes conseguem descontos consideráveis nas compras em grande quantidade e apertam a margem de lucro, porque viram que o consumidor não está disposto a pagar muito caro só para ter o prazer de comprar um importado. ‘‘Quem comprava três garrafas de uísque de uma só vez está comprando uma’’, analisa Alfredo Alasmar, dono da Casa Ouro, loja que há 21 anos trabalha exclusivamente com importados. Com a alta do dólar, uma garrafa de champanha francesa Möet Chandon, que custava R$ 112,50 no Natal passado, sai agora por R$ 125. A garrafa de vinho Comte De Sansac Bordeaux subiu de R$ 23,50 para R$ 28,50.
  Acostumado ao vaivém das cotações da moeda americana, Alasmar não pretende abrir as portas da Casa Ouro para os nacionais. ‘‘O nosso diferencial é ser referência em importados. Se quero continuar assim, sou obrigado a reduzir o lucro’’, diz.
  Na delicatessen Papa Fina, a invasão nacional está ocorrendo desde a desvalorização do real de janeiro de 1999. Nos primeiros meses de funcionamento, em 1998, a loja vendia apenas 10% de produtos nacionais. De dois anos e meio para cá, esta participação subiu para 60%. Até os hábitos do dono, um apaixonado por vinhos franceses, mudaram. ‘‘O brinde de fim de ano vai ser com champanha nacional’’, assegura Gilvan Pires. Ele nota que a crise também atingiu os presentes. ‘‘Algumas empresas que davam cestas de R$ 1 mil. Hoje dão só uma garrafa de uísque.’’


Estrangeiros em baixa

Entre janeiro e outubro de 2001, o Brasil importou 4% menos em relação ao mesmo período do ano passado, especialmente petróleo, naftas e automóveis. Pela primeira vez no governo Fernando Henrique, há perspectiva de saldo positivo na balança comercial


Aperto nos lucros

  Para quem tem esperanças de que a queda de 5,93% do dólar neste mês chegue rapidamente às prateleiras, os comerciantes tem uma má notícia. As importações são negócios feitos com muita antecedência. Portanto, só daqui a dois ou três meses, o consumidor vai sentir a diferença de preço dos produtos estrangeiros no bolso. Mesmo assim, os donos de supermercados tentam reduzir o impacto da alta do dólar registrada até o final de outubro negociando com fornecedores a compra de grandes quantidades em troca de maiores descontos.
  Na rede Pão de Açúcar, os 1.500 itens importados permanecerão nas prateleiras, mesmo porque não há como substituir alguns deles, como o azeite de oliva, por exemplo. Os vinhos representam um terço do total dos importados oferecidos. Para não perder os clientes que curtem um importado, o supermercado repassou apenas metade da alta do dólar de 2001 aos preços e abriu mão de parte do lucro que estas mercadorias poderiam proporcionar.
  O vice-presidente da Associação dos Supermercados do Distrito Federal, Mário Habka, afirma que a queda-de-braço com fornecedores é difícil. ‘‘Como o dólar ficou acima de R$ 2,70 não há como segurar preços por muito tempo’’. Ele diz que de 1999 para cá reduziu pela metade o número de itens importados. Os cortes continuam. Uma pesquisa da Associação Brasileira de Supermercados comprova a tendência: das 50 empresas consultadas, 80% afirmaram que vão reduzir entre 15% e 40% a compra de bebidas, azeites, óleos e queijos, bacalhau e frutas natalinas.

Mais aumentos
Habka está neste time, mas não pretende deixar completamente órfãos os adeptos de geléias francesas, massas italianas, azeitonas argentinas e azeite de oliva português. E faz um alerta ao consumidor: o grande impacto da valorização do real ainda está por vir. ‘‘As compras para o fim de ano são feitas com antecedências de meses. Quem teve sorte conseguiu comprar com um dólar mais em conta e terá oportunidade de vender por um preço mais razoável’’, assegura.
  A desvalorização do real também atingiu de forma devastadora os vendedores de carros importados. ‘‘Os importadores só estão vendendo à custa de margem de lucro. As montadoras nacionais não tem motivo algum para se queixar de concorrência dos importados com este dólar na alturas’’, diz Luiz Carlos Mello, diretor da Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Automóveis. As importações de veículos caíram 20,4% de janeiro a outubro deste ano em relação a igual período do ano passado.


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