Fabricio Rocha
Da equipe do Correio
Dos chatos e monótonos fóruns de debates sobre programação da Internet saiu uma notícia de impacto no mundo da informática. O finlandês Linus Torvalds, criador do sistema operacional Linux, a maior ameaça ao Windows da Microsoft na atualidade, resolveu nomear alguém para tomar conta da versão 2.4. Torvalds e seu parceiro na empresa, Alan Cox, andam muito ocupados com seus empregos e famílias. Os dois sempre cuidavam pessoalmente das atualizações do Linux.
A dupla resolveu escolher, naqueles fóruns de programadores, um participante ativo, que sempre propunha soluções além de reclamações. Também era necessário saber ouvir as opiniões dos outros programadores. Um brasileiro, quase um menino, vai assumir a posição de mantenedor do kernel, o responsável por lançar as atualizações do cérebro do sistema.
O paranaense Marcelo Tosatti, de 18 anos, trabalha há quatro na Conectiva de Curitiba, maior distribuidora de Linux na América Latina — o que lhe valeu a indicação, segundo as palavras de Alan Cox: ‘‘Ele é inteligente, esperto, e como está trabalhando para uma distribuidora, tem conhecimento sobre as questões de qualidade’’.
Cabeludo, como vários dos integrantes mais ativos do chamado ‘‘software livre’’ (leia ao lado), e tímido, Marcelo foi transformado em estrela do mundo do software num clique. O brasileiro encara com tranqüilidade sua nova responsabilidade. ‘‘Não é muito diferente do que eu já vinha fazendo. Ou melhor: é um pouco. Mas não muito’’.
Coração do micro O kernel (ou núcleo) é a parte principal de qualquer sistema operacional, como o Linux, o Windows e o Mac OS. Gerencia as funções vitais: distribuição da memória do micro entre os programas, a ordem e o tempo de execução de cada um deles, a comunicação entre um programa e outro, etc.
Ao contrário do Windows, que só pode ser modificado pela Microsoft, o Linux recebe correções e melhorias todo dia, de programadores do mundo inteiro. Aí entra Marcelo. Ele deverá juntar todas essas adaptações feitas ao kernel 2.4 de tempos em tempos e lançar uma versão atualizada.
Marcelo não sabe se continuará sendo o mantenedor na próxima versão do Linux, a 2.6, e a versão 2.5 — apenas para desenvolvimento — será lançada em um mês pelo próprio Linus. Mas acha que a responsabilidade mundial como ‘‘número três’’ do Linux não vai mudar sua vida. Tosatti começou a trabalhar na Conectiva quando a empresa ainda estava começando a chamar a atenção. ‘‘Mandei uma carta, perguntando se eles não queriam alguém que soubesse fazer algumas coisas em Linux, e fui chamado’’, lembra.
O gratuito Linux não é tão difícil de usar, mas ainda tem que melhorar em alguns detalhes. ‘‘Eu pessoalmente acho que é bom investir no usuário doméstico. Mas as distribuidoras Linux são mais atraídas pelo mercado corporativo (grandes empresas), que dá mais lucro’’, admite. ‘‘E o mercado corporativo é mais preocupado com velocidade e segurança do que com facilidade de usar’’.
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