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Brasília, domingo, 11 de novembro de 2001
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| Pensar |
Livre pensar O dossiê K
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Aldir Blanc
no.com.br
A Al-bânia é um país pródigo em muslins e muftis — aqueles floquinhos que a garotada cabeça põe no iogurte. Havia também grandes mulahs, mas o povo comeu a última na semana passada, junto com os cachorros amestrados e os anões do Gran Circo Hodja. A população de lá vive em pânico. Depois da faxineira Milosevic, é possível que um míssil americano, ligeiramente desviado do alvo original, a cidade de Kandahar, no Afê (como diz a garotada cabeça), acabe com a Al-bânia. Ela é pequenininha.
A Al-bânia vegeta de regime em regime, como os velhos boêmios viviam de cigarro em cigarro. O mais severo deles foi o neo-para-semi-ultra comunismo conservador-reformista de Enver Hodja — uma espécie de dieta com suco de jiló geladinho, só que sem jiló (e a frigidaire de 1950 pifou). O último remanescente do finado regime al-banês está lotado no conselho de medicina do Rio, mas não foi encontrado por nossa reportagem. Parece que houve uma ligeira confusão durante assédio sexual no almoxarifado.
Bom, mãos à obra. Dossiê H, do franco (Vive la France!) albanês Ismail Kadaré é um grande livro. Minha primeira edição, também lançada pela Companhia das Letras, é de 1990, tradução de Hildegard Feist. A tradução atual é de Bernardo Joffily. Deve ter havido algum problema com essa língua indomável.
Eu já escrevi que o Kadaré sempre acerta quando conta coisas a respeito de seu país, superando o complexo de Kafka que, periodicamente, o assalta, levando-o a construir pirâmides, castelos, minaretes, enquanto se metamorfoseia (êpa!) em barata que tomou com um processo e/ou chinelo totalitários no lombo.
Em Dossiê H, dois estudiosos irlandeses, fascinados pela Questão Homérica, partem atrás dos lendários rapsodos das montanhas albanesas. Querem descobrir se a ‘‘verdadeira oficina da epopéia’’ ainda funciona. Kadaré, com mão de mestre, desvia o foco de seus heróis acadêmicos e ilumina a mediocridade provinciana da cidade escolhida como ponto de partida. O destaque é o bovarismo balcânico e galináceo da digníssima esposa do subprefeito, uma — como direi mudernamente? — ah, cachorra emergente que se chamava Mukadez, mas que, sob os efeitos nefastos do laissez-faire californiano, resolveu trocar seu nomezinho um tanto clone para o satânico e sonoro Daisy.
O grotesco dos nativos — comerciantes ‘‘do ramo do sabão’’, delatores, puxa-sacos, bandidos atolados, eremitas entre o fanatismo e a vigarice, religiosos aproveitadores, paranóicos profissionais — é atenuado pelo contraponto das anotações de Willy Norton. Através dele, Kadaré medita sobre Homero, tradição, poesia oral, esquecimento. De leve, entre a ironia e o lirismo.
O último capítulo é um achado, ao contrário da solução pós-qualquer-coisa-aí de A Pirâmide. Pedreira e topada andam juntas.
E a Bovary dos Bálcãs, acaba no Irajá, ralando para tornar-se socialite à frente de um próspero negócio que fornece quentinhas para manicômios e presídios? Não, não. Sobre ela, uma gracinha, Kadaré se debruça, tira os pesados óculos de intelectual no exílio, passa rímel e blush, e dá uma piscadela faceira pras leitoras.
Tive que me conter para não botar na materinha o título sensacionalista-marrom: ‘‘O Enigma de Kadaré: Ismail ou Daisy’’.
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Festival de poesia
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O 7º Festival Internacional de Poesia e Arte de La Habana, promovido pela União de Escritores e Artistas de Cuba, acontece ano que vem, entre 5 e 11 de fevereiro, e coincide com a Feira Internacional do Livro, dedicada à França. O objetivo é reunir poetas e discutir os temas próximos, embora, como está dito no convite para o festival, ‘‘os pressupostos materiais sejam modestos’’. O tema será a modernidade e a tradição da poesia. E ainda: os escritores e sua contribuição na salvaguarda do planeta. Entre os homenageados, o poeta Nicolás Guillén. Quem desejar mais informações pode acessar o e-mail promocion@uneac.co.cu
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Biblioteca de Alexandria
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No século 3 a.C., o escritor e bibliotecário grego Calímaco de Cirene organizou um catálogo de todos os livros da Biblioteca de Alexandria, o que resultou em 120 volumes, os pinakês, para dar conta de mais de um milhão de rolos de papiro existentes no acervo. Guardadas as diferenças, não há quem dê conta, hoje, de todo o acervo existente na internet. Mas há quem tente. Fala-se em 9 milhões de sites e mais de 5 bilhões de páginas. Mas há vários que disponibilizam bibliotecas, acervos completos, como o The Internet Classics Archive (http://classics.mit.edu), ou o Projeto Gutenberg (http://promo.net/pg). O Projeto Perseus também é bom (www.perseus.tufts.edu/). Curiosamente, por mais que proliferem esses sites, a Biblioteca de Alexandria foi recentemente reinaugurada no Egito. Para guardar o velho e bom
livro de papel.
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Dicas
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Os poloneses têm um modo muito peculiar de tratar os cartazes de cinema. Verdadeiras obras de arte. Boa parte delas pode ser encontrada num site sobre a arte gráfica polonesa, em www.theartofposter.com
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Prêmio Goncourt
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É curioso o título vencedor do prêmio Goncourt deste ano: Rouge Brésil (‘‘Brasil vermelho’’). O livro de Jean-Christophe Rufin foi publicado pela editora Gallimard, e conta a história da conquista do Brasil pelos franceses no século 16, um dos episódios mais desconhecidos da Renascença. O livro é narrado a partir da ótica de duas crianças, Just e Colombe, que são embarcados à força na expedição de Villegagnon — entre 1555 e 1570 — para servirem de intérpretes junto às tribos indígenas. Teve de tudo na disputa do Goncourt, inclusive uma retirada do presidente da Academia Francesa, François Nourissier, da votação, já que ele defendia outro livro, o de Michel Houellebecq, autor de Plateforme. Só por ter ganho, a Gallimard coloca no mercado mais 250 mil exemplares do livro de Rufin.
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Entrevista / Alberto Manguel Três palavras vazias e o 11 de setembro Volta ao choque de civilizações A esfinge O romance bonsai de Don Delillo O perito
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