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Brasília, domingo,
11 de novembro de 2001
Pensar
Conto
O perito
Luciano Vieira Machado
É licenciado em Letras pela Universidade de Brasília e tradutor


  Dona Selva riu muito quando o novo redator começou a cantarolar ‘‘e quantas águas rolaram, quantos homens me amaram...’’
  — Por que o riso?
  — É assim que você canta? Já ouvi cantar quantas mulheres me amaram. Ainda mais se é um homem que está cantando...
  — Vai ver que esse seu cantor não se garante, Dona Selva.
  A conversa se dava na Divisão de Reclamações Internacionais. A sala era enorme e todo mundo trabalhava junto.
  O novo redator ainda estava se acostumando. Ainda não escrevia outrossim, mas já tratava todas as mulheres de qualquer idade de dona, e todos os homens de senhor. Senhor Silva, Dona Selva, Dona Marta, Dona Ana.
  Os funcionários tinham quinze minutos de tolerância: podiam entrar entre oito e oito e quinze. Mas não podiam abusar. No final do mês o chefe informava a cada um: Senhor Almeida, o senhor chegou quatro minutos atrasado esse mês, um minuto e meio no dia 4, meio minuto no...
  Dona Ana, vinte e dois anos, era a única que se divertia e divertia os outros. Cada dia saía com um amigo novo, nenhum do Departamento. Ela usava cabelo comprido, feito testemunha de Jeová, e talvez até fosse.
  Um fato novo foi anunciado: a Divisão ia receber um perito. O caso era sério, porque o chefe e o subchefe agora andavam pra cima e pra baixo pela sala confabulando, tentando imaginar um lugar onde instalar o perito.
  O Perito não podia ficar junto com todo mundo, sua sala teria ar-condicionado. O seu trabalho não podia ser feito no calor abafado do Departamento.
  Finalmente achou-se um bom lugar para o Perito. Construiu-se um tabique no fundo, onde o salão se alargava, e o Perito teria o triplo do espaço de cada funcionário e o dobro do espaço do chefe.
  Havia uma grande expectativa em torno do Perito. Soube-se que ele teria uma assistente, e uma assistente dali mesmo, do próprio departamento.
  A chegada de um enorme buquê de flores distraiu um pouco daqueles preparativos. O buquê era endereçado a Dona Ana e provocou comentários.
  — Muito bonito, muito distinto [Dona Nilza].
  — É... no começo é assim mesmo. Depois... [Senhor Almeida].
  — Pelo tamanho desse buquê, precisou juntar uns cinco namorados da Dona Ana... [Dona Selva]
  Dona Inês foi designada para ser a assistente do perito.
  E um dia o Perito chegou. Era alto, loiro, de cara comprida e impenetrável. Ele fez questão de apertar a mão de todo mundo.
  Toda manhã o Perito atravessava todo o salão sob os olhares de admiração dos funcionários e ficava trancado na sala com ar-condicionado, junto com a Assistente.
  O Perito fazia análises grafológicas para reconhecer a autenticidade de assinaturas e vistoriava malas postais que se supunha terem sofrido violação. Com base no laudo alguém podia ser demitido, preso ou inocentado. Daí derivava a importância do cargo.
  Por causa do ar-condicionado, o redator um dia teve acesso à exclusiva sala do Perito.
  O calor e o abafamento estavam insuportáveis e o redator começou a passar mal.
  — A sala do Perito! — lembraram. O próprio w
w chefe procurou o Perito e ele abriu a sala. O redator ficou instalado numa poltrona confortável e os outros voltaram aos seus postos.
  Passada a tontura, incomodava-o apenas o frio da sala do Perito.
  O redator podia sair mas resolveu ficar mais um pouco, olhos fechados, para ouvir a animada discussão entre o Perito e a Assistente.
  O Perito falava de igual para igual com a Dona Inês. O redator admirou a vocação democrática do Perito.
  — Eu acho que a letra do recibo é a do próprio carteiro!
  — Acho que não. Não tá vendo como ela é menorzinha que a dele?
  — Isso por causa da caneta escrita fina. Olhe como o A dele é igual ao do outro, não tem perninha...
  O redator cochilou um pouco e quando acordou já se tratava de outro caso:
  — ... vai ver que a mala raspou em algum parafuso na viagem.
  — Sei não... tá me parecendo mais que o corte foi feito à faca. Vou ver se arrumo uma faca pra fazer um teste.
  O zumbido do ar-condicionado, o mal-estar, o embalo da conversa, a assinatura, a faca, o consultório, o médico alto, loiro, de cara comprida e impenetrável...
  — O que o senhor sente?
  — Tontura, fraqueza, mal-estar...
  O médico ausculta o paciente com uma faca e dá o diagnóstico.
  — O senhor está com desdobramento de segunda bulha.
  O redator tenta gritar mas tudo o que consegue é voltar sobressaltado à sala do perito. Dói-lhe a cabeça, o sonho faz aflorar a lembrança do primeiro dia em que foi ao médico por iniciativa própria. A dor de cabeça estava beirando o insuportável.
  — O senhor está com cefaléia.
  Bom, a dor ainda é a mesma, mas pelo menos tenho um w
diagnóstico. Mas que doença era aquela? Não quis incomodar o médico com sua ignorância de leigo e guardou-se de fazer perguntas.
  Em casa procurou no dicionário o significado do termo e ficou muito feliz quando o encontrou.
  CEFALÉIA, s.f. (Med.) V. cefalalgia.
  CEFALALGIA, s.f. (Med.) o mesmo que cefaléia.
  O segundo dicionário consultado foi tão esclarecedor quanto o primeiro, mas um terceiro informou francamente que cefaléia era dor de cabeça.
  O ‘‘desdobramento de segunda bulha’’ parecia ser mais grave.
  BULHA, s.f. Barulho, estrondo,
motim.
(Bulha cardíaca. Med.
1. O ruído normal do coração.)

  O ruído normal do coração... Ora, o ruído normal do coração é TUM TUM, TUM TUM, TUM TUM... A segunda bulha só pode ser o segundo TUM.
  No final das contas, o mistério se revelou tão pouco misterioso que o fez rir. O fato é que seu coração ao invés de fazer o TUM TUM normal, desdobrava a segunda bulha criando um outro compasso: TUM TU-RUM, TUM TU-RUM...
  Aqueles sonhos e entressonhos distraíram o redator, que afinal saiu da sala do perito sem saber o resultado das graves investigações.
  Mas ao abrir a porta ele sentiu um pouco o sabor da glória quando todos os olhares se voltaram para ele, o único, além da Assistente, que tivera acesso à exclusiva sala do Perito.


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