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11 de novembro de 2001
Pensar
O romance bonsai de Don Delillo

Sempre se espera do escritor um livro-síntese da cultura norte-americana, mas ele apareceu desta vez com um livro curto — nem por isso menos denso
Gustavo Weber
no.com.br


A ARTISTA DO CORPO
Novo romance de Don DeLillo. Companhia das Letras. Número de páginas e preço não definidos. Lançamento este mês.

O novo livro do escritor norte-americano Don DeLillo pegou a crítica literária dos Estados Unidos de surpresa. Afinal, esperava-se dele mais um grande romance, em busca do utópico great american novel — o grande romance americano —, como haviam sido seus livros anteriores. Submundo, o último deles, por exemplo, cobre 50 anos de história norte-americana, abordando temas tão diversos como a bomba atômica e os campeonatos de beisebol, além do detalhe de ter mais de 800 páginas. Já o recém-lançado A Artista do Corpo (Companhia das Letras) tem pouco mais de cem páginas e não trata de nenhum grande tema histórico ou social: narra ‘‘apenas’’ as conseqüências da perda de uma pessoa amada. Além do tamanho e do assunto, o escritor trouxe novidades no estilo, o que deve ter dado um nó na cabeça dos fãs de seus ‘‘romanções’’. Público e crítica chegaram a se desentender quanto à classificação da obra: romance, novela, ficção poética, novela ensaio, conto de fadas pós-moderno? Classificação à parte, A Artista do Corpo é uma pequena e profunda história, um tanto diferente, mas não tão diferente a ponto de nos distrair da beleza das palavras de DeLillo.
  A dificuldade da crítica em não conseguir classificar o livro é compreensível. DeLillo escreveu sua história de acordo com a estrutura de um romance comum, mas deu um toque especial: encolheu o livro. Como? Bem, é certo que ele manteve os elementos principais de um romance, como protagonistas bem desenvolvidos e cenas detalhadas e cuidadosamente descritas, compondo o ambiente. Mas ele os reduziu ao máximo: os protagonistas não passam de três; as cenas são reduzidas a pouquíssimos ambientes — uma casa, seus arredores, não muito mais que isso. Não é um conto, pois não possui aquela reviravolta, o turning point característico do conto, nem a tensão crescente de uma história curta. É um romance mesmo. Mas um ‘‘romance bonsai’’, miniaturizado. Só pelo tamanho, A Artista do Corpo já começa quebrando tabus.
  O enredo, apesar de simples, não fica atrás. Possui cinco partes bem distintas, cada uma com estilo e ritmo próprios, alternando partes mais leves e mais densas, cortando a narrativa sempre que necessário para ganhar tempo e espaço — curiosamente, dois assuntos trabalhados na história.
  Na primeira parte do livro, Lauren Hartke, body artist (a ‘‘artista do corpo’’ do título), está passando alguns meses com seu marido, o cineasta Rey Robles, em uma casa de praia. Na verdade, a primeira parte resume-se a uma única cena, o último café da manhã dos dois juntos nessa casa. A descrição da cena é carregada com o estilo que fez DeLillo famoso em seus outros romances, contrabalançando o cuidado nos detalhes do cotidiano do casal e o automatismo do momento. Uma única cena para resumir toda a relação do casal, e elaborada com uma simplicidade desconcertante. Na parte dois, Rey viaja da casa de praia até o apartamento de sua ex-mulher em Nova York, onde se mata com um tiro na cabeça. O fato é apresentado na forma de um obituário de jornal.
  A terceira parte é o cerne da história. Após o enterro, Lauren volta à casa de praia e encontra figura enigmática, nomeada por ela de Sr. Tuttle, que tem o dom de repetir diálogos inteiros transcorridos entre ela e Rey. Ela passa vários dias tentando reviver Rey por meio das frases aleatórias do misterioso amigo, enquanto prepara o corpo para sua nova performance. Com o tempo, começa a não conseguir dissociar a lembrança de Rey da presença do Sr. Tuttle. Logo em seguida, o Sr. Tuttle desaparece tão misteriosamente quanto quando surgiu.
  Essa parte difere bastante dos trabalhos anteriores de DeLillo. O escritor transborda todos seus questionamentos relacionados ao luto da protagonista, tocando em assuntos como o tempo, o corpo e seus limites, a dor de uma perda, e mesmo o papel da linguagem em tudo isso. As questões nunca são colocadas de forma direta, pelo contrário, são sugeridas tanto na relação entre Lauren e Sr. Tuttle quanto no transcorrer da história. Aqui vemos o escritor que surpreendeu a crítica, utilizando sua conhecida capacidade poética — normalmente utilizada para descrever o cotidiano das pessoas, como no início do livro — para introduzir ao leitor temas extremamente delicados. Além disso, encaixa de forma perfeita a poesia incompreensível das palavras do Sr. Tuttle — em frases enigmáticas como ‘‘o nome do luar é luar’’ — com a melancolia e a decadência existencial de Lauren.
  Na quarta parte, Lauren apresenta sua performance. Novamente, o autor transmite o fato por meio de uma notícia de jornal. É quando descobrimos o que vem a ser seu trabalho. ‘‘Hartke é uma body artist que tenta livrar-se do corpo (...) o trabalho de Hartke não é exibicionista nem masoquista. Ela representa, sempre se tornando outra ou explorando alguma identidade básica.’’
  Na última parte, Lauren retorna à casa de praia. Voltamos ao DeLillo metafísico e um tanto etéreo, que relembra as questões levantadas pela protagonista e apresenta o estágio final de sua desconstrução: ‘‘Eu sou a Lauren. Mas cada vez menos’’.
  Para evitar o turning point típico de um conto e a tensão subseqüente a ele, DeLillo pega os dois únicos fatos da história com peso para isso — o suicídio e a performance — e os transmite indiretamente. Afinal, nada mais frio e neutro que uma nota de jornal. Feito o anti-clímax, o escritor fica livre para desenvolver a narrativa sem tensões ou reviravoltas, podendo entrar fundo nas questões de sua protagonista.
  A principal delas, o tempo, está diretamente ligada ao misterioso amigo de Lauren, Sr. Tuttle. Quem seria ele, um autista, um fantasma, fruto de sua imaginação? Lauren não questiona, apenas aceita sua existência. Rapidamente, percebe a diferença na noção de tempo da estranha figura: ‘‘O tempo é a única narrativa que importa. Ele prolonga os eventos e graças a ele a gente sofre e depois se levanta e vê a morte acontecer e depois se levanta. Mas com ele não é assim’’.
  Mas enquanto reconhece a relação indissociável entre vida e cronologia, Lauren abdica de seu próprio tempo. Passa horas a fio assistindo a uma página na internet com imagens de uma estrada na Finlândia. Passa semanas ouvindo as reproduções atemporais dos diálogos entre Rey e ela reproduzidos na voz do Sr. Tuttle.
  DeLillo usa inúmeras referências internas e metáforas dentro da própria trama. É interessante, por exemplo, a relação entre a progressiva extinção do tempo na vida de Lauren e a preparação que faz para a performance, branqueando o cabelo, removendo marcas do corpo, enfim, apagando a verdadeira Lauren. Durante todo o livro, é impossível não querer encontrar as sutis correlações e referências dentro do enredo.
  Mais importante que isso, porém, é a incrível capacidade do autor em nos passar os efeitos da morte sobre nossas vidas, nosso corpo e a realidade. A Artista do Corpo pode ser de leitura leve e fluente, mas requer um leitor atento e disposto a dar a DeLillo espaço para apresentar suas metáforas e a inventividade de sua palavra escrita. Afinal, com seu pequeno ‘‘romance bonsai’’, o escritor conseguiu tanto renovar-se quanto renovar a busca do tão questionado great american novel. E todos saímos ganhando.


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