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11 de novembro de 2001
Pensar
Entrevista / Alberto Manguel
Nahima Maciel
Da equipe do Correio


LENDO IMAGENS
Ensaio do escritor canadense Alberto Manguel. Companhia das Letras, 358 páginas. Tradução de Rubens Figueiredo, Rosaura Eichemberg e Cláudia Strauch. R$ 42,00.



Dono de uma biblioteca com 30 mil volumes, o escritor argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel mudou-se para um presbitério na França. ‘‘Fazia tempo que não podia tê-los todos juntos’’, diz, referindo-se ao livros, que trata como filhos e netos.
  Autor do ensaio Uma História da Leitura, denso volume sobre a formação do leitor, ele também escreveu No Bosque do Espelho — Ensaios sobre a Palavra e o Mundo. Romance, só há um na lista do escritor. É Stevenson sob as Palmeiras, um dos volumes da coleção Literatura ou Morte, lançado pela Companhia das Letras no ano passado.
  Manguel é mesmo um homem de ensaios. Este ano, voltou ao gênero com Lendo Imagens. As 358 páginas preenchidas pelo autor formam um precioso passeio pela história da arte e análise da imagem. Tomou todos os cuidados para não tecer teorias e ficar longe delas ao analisar pinturas, arquitetura, fotografia, escultura e arte abstrata.
  Ver arte com emoção talvez seja um dos motivos que o deixou mal com os teóricos de arte. Manguel escreve como público que contempla, nunca como acadêmico. Veja abaixo trechos da entrevista concedida ao Pensar.


Entrevista

CORREIO BRAZILIENSE — Qual a motivação de Lendo Imagens?
Alberto MANGUEL
— Queria saber quem eu era, o que eu fazia. Tentava responder à pergunta, não de Montaigne, ‘‘Que sei?’’, mas à mais antiga, de Sócrates, ‘‘Quem sou?’’. E como me defino como leitor. Mas percebi que leitura não quer necessariamente dizer leitura de palavras, dos sistemas de conhecimento e signos que inventamos. Somos, de alguma maneira, criaturas a serem decifradas. Viemos ao mundo com uma espécie de pulsão de unir tudo que nos envolve em textos, mensagens, vozes. Entre essas coisas que nos rodeiam estão as imagens, e as imagens criadas pelo homem. E eu quis saber se havia um sistema de leitura dessas imagens e como respondemos a essa pulsão de decifrar.

CORREIO — Como aconteceu a seleção das obras descritas no livro?
MANGUEL
— Foi aleatória. Queria, claro, imagens que fossem diferentes umas das outras. Imagens clássicas como as de Picasso, menos conhecidas como as de Marianna Gartner. Foram imagens que me interessaram num certo momento, ou das quais já tinha uma leitura que me parecia interessante. Quis começar com uma imagem que não se deixava ler, por isso usei Joan Mitchell, mas poderia ser outro pintor abstrato. Quis também falar de Aleijadinho, porque é um gênio ainda pouco conhecido, a não ser no Brasil.

CORREIO — Está começando, museus da Europa e Estados Unidos estão recebendo mostras de barroco, e Aleijadinho figura entre outras imagens...
MANGUEL
— Já era tempo. Se ele fosse italiano ou alemão, há tempos as crianças na escola falariam dele. Então me deu prazer falar disso. Aliás, é uma das imagens à qual a crítica estrangeira respondeu mais favoravelmente.

CORREIO — Como revelar a história dessas imagens sem teorizar sobre elas?
MANGUEL
— Acredito que o impulso primordial é se deixar tomar pela emoção. A crítica contemporânea, sobretudo a desenvolvida no fim do século 20, quis que nos afastássemos das emoções quando falamos em obra de arte. Aliás, é muito divertido ver que a crítica de arte profissional da América do Norte, Canadá e Inglaterra ficou revoltada com meu livro. Disseram, ‘‘ele não tem teoria e se deixa guiar pela emoção’’. Eu estou totalmente de acordo, mas eles não aprovam. Acho muito importante reter essa parte essencial no diálogo entre quem olha e a obra, que é a emoção. É a ligação mais importante e não deve ser esquecida. Mas a crítica contemporânea quer que esqueçamos, que falemos friamente de uma obra de maneira a dar valor a tudo. É assim que chegamos a uma imensa pobreza de imaginação que existe na arte de hoje.

CORREIO — O homem leu imagens antes de ler palavras. Teríamos desaprendido essa leitura primária?
MANGUEL
— Houve certamente um momento no início da civilização em que imagens e palavras eram talvez a mesma coisa. Onde havia uma simbiose entre primeiro o objeto e a maneira de nomear esse objeto por imagens ou palavras, o símbolo e o objeto, e o objeto e o deus. Tudo era misturado. Não dizíamos ‘‘vemos o trovão’’. Dizíamos ‘‘é o trovão’’. Essa simbiose entre uma imagem, uma palavra e o ponto de referência entre essa imagem e a palavra era o mesmo. Acredito que a poesia, claro, sempre volta a isso, porque a essência da poesia é a metáfora, e a metáfora, justamente, é uma maneira de dizer que as coisas mais diversas devem ter seus pontos comuns entre suas aparências, suas significações. Mas aqui já estamos ficando muito teóricos e complicados, e quero me afastar desse discurso.

CORREIO — Com a profusão de imagens às quais somos submetidos todos os dias, acabamos por fazer leituras superficiais do mundo visual?
MANGUEL
— Claro. Sempre estivemos rodeados de imagens. A Idade Média é uma civilização de imagens, a Renascença é uma civilização de imagens. Mas hoje o problema é que as imagens que nos rodeiam são imagens criadas para que não as leiamos. São imagens de propaganda, de publicidade ou políticas, criadas para que vejamos apenas a superfície, para que não possamos entrar. Porque se entramos numa imagem publicitária, se aprofundamos, a destruímos. O problema é que perdemos largamente os vocabulários ancestrais que nos permitiam ler imagens mais profundamente. Nos submetemos a essas imagens superficiais. Existem várias teorias contemporâneas que dizem que essas imagens publicitárias são tão válidas quanto um quadro de Leonardo (Da Vinci) ou uma escultura de Aleijadinho. Não é verdade, estão mentindo. Você nunca terá uma epifania em frente a uma publicidade de Coca-Cola.

CORREIO — Há um momento no livro em que o senhor conta que, na Renascença, as pessoas que não sabiam ler podiam olhar um quadro e ler nele uma história. Hoje, se vemos um quadro, por exemplo, sobre a Renascença e não temos uma informação prévia sobre isso, a compreensão se perde. Qual a distância entre essa leitura antiga e atual?
MANGUEL
— Voltemos à Renascença. Alguém via as esculturas e pinturas que existiam numa cidade como Florença, para tomar um exemplo clássico. Se ele não fosse instruído, se não tivesse um conhecimento intelectual, ainda assim essa pessoa podia dizer ‘‘esta é Afrodite, isso é o Cristo, isso conta a história da Ressurreição’’, porque eram coisas que contávamos, tinham os sermões nas igrejas e o vocabulário popular era rico de todos esses vocabulários de história ancestral. Agora não temos mais isso, não temos nenhum conhecimento disso. Na Renascença não havia guardiães da arte. Existiam as igrejas, os aristocratas, os que podiam pagar e encomendar arte, certamente haviam as hierarquias e controles, mas ninguém te impedia de ver uma estátua na rua, de admirar um quadro numa igreja. Isso era aberto a todos. Hoje, isso não está aberto a todo mundo. Os curadores dos museus preparam textos que dizem ser ‘‘guias’’ para o público. Mas, na maioria das vezes, são catecismos, textos dogmáticos nos quais dizem ‘‘você deve achar isso interessante’’. Consideram que apenas o fato de ter uma idéia, como por exemplo na arte conceitual, é suficientemente válido para colocá-la em prática. As bienais de São Paulo ou Veneza são, para a maioria, lugares de encontro atrozes, porque eles não estão nem aí para o público, para a relação da arte e da sociedade.


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