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11 de novembro de 2001
Pensar
Três palavras vazias e o 11 de setembro

O uso indevido de certos pronomes esconde a violência dos atos e as armadilhas dos discursos proferidos pela ala à direita do espectro político
Idelber Avelar
Especial para o Correio



Why us

Na véspera dos atentados do último 11 de setembro, em aula de introdução à cultura latino-americana, dada em uma universidade de elite dos Estados Unidos (EUA) e dedicada ao vigésimo-oitavo aniversário de outro atentado sangrento — contra o governo legitimamente eleito no Chile — uma jovem estudante de graduação postula a seguinte pergunta, ao ser informada da participação norte-americana na desestabilização e no ataque ao governo da Unidade Popular:
— Mas nós sabíamos que Pinochet ia matar, torturar?
Ao professor, ocorre a única resposta que lhe parece possível no momento:
— Bem, depende de quem você inclui quando diz ‘‘nós’’. Nixon e Kissinger seguramente o sabiam. A elite militar responsável pelos centros de treinamento de torturadores, como a Escola das Américas, na Geórgia, seguramente também sabia. A elite política, incluindo a do Partido Democrata, não creio que fosse tão ingênua. É provavelmente certo que a maioria da população norte-americana não soubesse, nem tivesse informação suficiente para suspeitar de nada. Também é certo que muitos continuam ignorando.
A pergunta da estudante, claro, não manifestava senão a anomalia própria ao uso do pronome da primeira pessoa do plural no inglês falado nos EUA. Desde a primeira infância, e mais violentamente a partir da entrada da criança no sistema escolar (bastante cedo, nos EUA, para a maioria das famílias), se aprende que ao significante ‘‘América’’ (palavra em si mesma, claro, já usada metonimicamente para designar EUA) só corresponde o pronome ‘‘nós’’, ainda que se esteja falando de uma operação militar, corrupção no governo, uma lei repressiva, um ato de brutalidade policial.
What we did in Vietnam was horrible... (‘‘o que fizemos no Vietnã foi horrível’’) há pouquíssimos norte-americanos, por mais progressistas politicamente, que não se refiram à guerra do Vietnã com esta articulação pronominal: criticando a invasão, mas incluindo-se dentro dela, identificando-se com o invasor.
A instabilidade deste ‘‘nós’’ (sua natureza imaginária) foi brutalmente exposta pelos atentados contra Nova York e Washington: Como podem nos odiar a ponto de fazer isto? O que é que fizemos a eles? Como isto pode ocorrer no nosso país? Como podemos nós — América — ser objeto de tanto ódio? Responder a estas perguntas sem traçar o eixo pronominal que as sustenta seria, na prática, justificar a violência terrorista e insultar a memória dos assassinados do último dia 11 de setembro. A isso se dedicou a classe política, militar e midiática dos EUA, arrastando com facilidade a maioria da população. Eles nos odeiam porque nós temos liberdade, eleições, igualdade entre os sexos, direito de expressão, direito de enriquecer etc. Eles nos odeiam porque temos tudo isto.
Quando se dá conta que seu uso de pronomes desencadeou uma onda irrefreável de violência contra cidadãos norte-americanos de ascendência árabe, esta mesma classe trata de organizá-la, controlá-la, capitalizá-la para seus objetivos políticos, ao mesmo tempo em que trata de prevenir o efeito que, parece, é o desejado pelo extremismo islâmico, a polarização entre Ocidente e Islã. Tal como a violência de Sadam Hussein, Osama Bin Laden, Milosevic, das mesmas milícias ‘‘cristãs brancas’’ dos EUA — violência, em sua origem, estimulada e financiada pelo mesmo governo norte-americano —, esta violência racista também escapa ao controle da classe político-empresarial-midiática dominante. Depois da breve coincidência de interesses (contra a revolução iraniana, contra a União Soviética, contra negros, pobres, imigrantes), a violência passa a tomar forma satânica, se converte em inexplicável. Como podem dirigi-la contra nós? Como podem invadir nosso aliado petroleiro? Como podem explodir uma bomba em nossa Oklahoma?
Ao responder a pergunta acerca deste ‘‘nós’’ sem romper a metonímia que sustenta o uso do pronome, o progressismo anglo-falante cai na armadilha discursiva da direita. Quando recorda ao público norte-americano que nós (a entidade imaginária América) explodimos bombas contra civis no Sudão, Iraque, Líbia, apoiamos e financiamos o genocídio israelense contra os palestinos, sustentamos política, econômica e militarmente toda sorte de assassinos e torturadores em todo o mundo, fica muito mais fácil para este público abraçar o belicismo da direita do que desmontar a solidez e inocência de seu ‘‘nós’’, especialmente em um contexto em que tal belicismo os ajuda a reconstruir — imaginariamente — esse ‘‘nós’’ semidestruído. Por isso, a crise que sofre este pronome não garante, para nada, nenhum efeito saudável, senão todo o contrário: a hegemonia discursiva nas conversações acerca do 11 de setembro já ganhou, nos EUA pelo menos, a direita belicista, racista e xenófoba. Ao reforçar e ao mesmo tempo mascarar a redução metonímica sobre a qual se sustenta o ‘‘nós’’ norte-americano, ela logrou que qualquer reflexão sobre as responsabilidades da política externa ianque na proliferação do terrorismo kamikaze, seja percebida, ainda entre círculos progressistas e antibélicos, em suposto insulto às vítimas do 11 de setembro. Ela ganha esta batalha quando lança, é claro, o verdadeiro insulto contra as vítimas, ou seja a conversão de sua memória em detonador da produção de incontáveis outros cadáveres inocentes, no Afeganistão e outras latitudes.


America'new war

Beth A. Keiser/AP

Este é o título sob o qual a CNN chegou a organizar todas as suas reportagens acerca da destruição em Nova York e Washington, assim como seus efeitos. Me lembro de que antes de que me chamasse a atenção o belicismo odioso implícito no título, em seu conteúdo lexical, me fixei no papel do substantivo na manutenção da continuidade metonímica mentirosa do ‘‘nós’’. O papel fundamental que cumpre o belicismo nos EUA, neste momento, é a reconstituição imaginária do ‘‘nós’’. Em uma guerra — muito especialmente as guerras em que os EUA estão envolvidos — sempre há um us (nós) e um them (eles). O us se recompõe imaginariamente ao redor do belicismo — o belicismo que confere ao país um sentido de identidade —, mas segue a caça a um them explícito. As guerras são declaradas pelos Estados, e nenhum Estado assumiu a autoria do atentado do 11 de setembro. Não há provas de que alguém soubesse de sua realização. Contra quem nós vamos declarar guerra? O substantivo ‘‘guerra’’ vem preencher o vazio do pronome ‘‘nós’’, mas no processo demonstra seu próprio vazio. Como assinalou o escritor afegão Tamim Ansary, se o que se quer com uma guerra é destruir o Afeganistão, os EUA chegaram demasiado tarde. Os soviéticos já o fizeram. Bombardear suas estradas? Feito. Destruir seus hospitais e escolas? Demasiado tarde. Produzir milhões de viúvas, inválidos, órfãos? Well, sorry to tell you, the Soviets beat you to it... (‘‘bem, desculpem dizer, mas os soviéticos fizeram melhor’’)(1) No momento em que fica minimamente claro o caráter de uma ‘‘guerra’’ na qual o único inimigo localizável é uma extensão de terra semidestruída, povoada por milhões de seres humanos vivendo na miséria, se passa a falar de uma nova guerra, uma guerra diferente, com outro tipo de inimigo. Até agora os EUA, incluindo toda a sua imprensa ‘‘livre’’, vem usando o termo collateral damage (efeito colateral, como o dos remédios) para designar a todos os civis mortos em outros países como resultado de um ataque ‘‘justo’’, um bombardeio ‘‘nosso’’ (como os mísseis lançados contra a população sudanesa). No entanto, no caso desta guerra o número, pelo que parece, era bastante inacreditável até mesmo para o manipulável e ingênuo público médio norte-americano. Em uma guerra contra o Afeganistão, só haveria collateral damage, eufemismo para ‘‘só mataríamos inocentes miseráveis’’. Este é o momento em que se começa a falar de uma nova guerra, curiosa guerra na qual não há inimigo localizável, curiosa guerra diante da qual todo o American military might — a grandiosidade militar americana — se mostra impotente.
  Para costurar o vazio já implícito no pronome ‘‘nós’’ e no substantivo ‘‘guerra’’, o discurso político-midiático dominante nos EUA recorre ao adjetivo ‘‘nova’’: trata-se de uma nova guerra, na qual o que importa é a inteligência humana (human intelligence, curiosa expressão com a qual o inglês norte-americano médio designa a infiltração e sabotagem de qualquer grupo político estrangeiro ou doméstico do qual se suspeite de antagonismo aos interesses de seu país, operação freqüentemente executada pela CIA, mas não necessariamente somente por ela). E aqui se lança outro insulto à memória dos mortos do 11 de setembro: à pergunta acerca de como foi possível que nós não prevêssemos o que ia acontecer, a ‘‘imprensa livre’’ norte-americana responde: porque limitamos o poder da CIA, porque ‘‘nossa’’ democracia o impediu de atuar, porque as forças norte-americanas de inteligência tinham suas mãos atadas por leis que proíbem a contratação de terroristas pela CIA. Como se esta, alguma vez em sua vida, houvesse contratado outro tipo de gente.


Eles, os fundamentalistas

Dadas as demandas de uma guerra que necessita de um ‘‘eles’’, a imagem do inimigo que construiu o poder econômico-midiático norte-americano, não foi muito coerente: os autores dos atentados foram, a uma vez, covardes e auto-sacrificantes, bárbaros e perigosamente inteligentes. Como podem depreciar tanto suas vidas a ponto de cometer um ato tão covarde? Como podem ser tão atrasados a ponto de nos odiar, e ao mesmo tempo ter acesso à tecnologia e à inteligência que permite burlar nossos serviços de vigilância? Tecnobárbaros, kamikaze-covardes: se já não bastasse nossa dificuldade em definir quem nós somos depois do 11 de setembro, por que eles têm de insistir em ser tão difíceis de entender?
  O teórico esloveno Slavoj Zizek, em um texto sobre os ataques a Nova York e a Washington, assinala que a América realizou sua fantasia. A imagem onipresente, em Hollywood e no imaginário médio norte-americano, do alienígena interplanetário, invasor, comunista, ou simplesmente árabe, cobrou atualidade e destruiu o sul da capital do planeta, além de uma seção do edifício militar mais célebre do mundo. Nos situamos, segundo Zizek no intervalo em que o Real mais cru se deixa entrever, antes de qualquer simbolização, como na pequena fissura temporal entre o momento do corte na mão e o momento em que vemos o sangue e sentimos a dor. Falta ver, dizia Zizek, se os norte-americanos darão o passo fundamental que deve ser dado: arriscar-se a atravessar a tela fantasmática que os separa do Mundo Afora, aceitar sua chegada ao Mundo Real, e fazer seu já bastante tardio movimento do ‘‘uma coisa assim não deveria acontecer aqui!’’ a ‘‘uma coisa assim não deveria acontecer em nenhuma parte!’’. As ‘‘férias da história’’ de que desfrutava a América eram uma falsidade: a paz da América era sustentada pelas catástrofes que aconteciam em outras partes. Aqui reside a verdadeira lição dos bombardeios: a única forma de assegurar que não aconteçam aqui é impedir que aconteçam em qualquer outra parte (2).
  Para restaurar a continuidade falsa, mentirosa, de um ‘‘nós’’ que assim reafirma sua solidez ao se opor a eles, os fundamentalistas, os terroristas , o governo norte-americano prepara a instalação de um tipo de estado que só poderia ser caracterizado como fascista, se este termo não fosse bastante frágil: racismo e xenofobia sancionados oficialmente como instrumentos de governo, seis milhões de cidadãos de ascendência árabe literalmente enjaulados em suas casas, vítimas de toda sorte de crimes odiosos, militarização dos mínimos aspectos da vida cotidiana, chamados a ‘‘bombardear o Afeganistão de volta à idade da pedra’’ , repressão inaudita na fronteira com o México, lançamento de centenas de cidadãos estrangeiros ao cárcere sem nenhuma acusação. Dado o poder militar, econômico e político do estado que realiza esta operação, toda sorte de conseqüências planetárias se deixam entrever, desde o submisso, subserviente convite do governo radical-frepasista (3) da Argentina para que os EUA utilizem seu ‘‘espaço aéreo e força militar’’ na ‘‘guerra’’ contra o ‘‘terrorismo’’, a magnificação do massacre israelense contra os palestinos, até a militarização brutal e racial das fronteiras européias, ao mesmo tempo em que a guerra contra o terrorismo produz milhões de mortos, inválidos, órfãos e viúvas no ‘‘Terceiro Mundo’’.
  Se não estão conosco, do nosso lado e sob nossa liderança, então estão contra nós: haverá frase mais odiosamente típica do fundamentalismo do que esta? A coalizão da direita que atualmente governa os EUA se vê obrigada, no entanto, a recorrer a ela, à fórmula mais fundamentalista possível, já que seu ‘‘nós’’ é vazio, só existe no imaginário (ainda que este imaginário seja quase universal entre a população norte-americana), sua ‘‘guerra’’ não é guerra porque foi declarada antes de que se soubesse quem é o inimigo, e os ‘‘terroristas’’ que a iniciaram só fazem multiplicar-se a cada ato de arrogante demonstração de poder militar. O insulto definitivo à memória dos mortos do 11 de setembro seria a instalação de uma ordem mundial em que se desse carta branca aos exércitos norte-americano, inglês, israelense, que atuaram em nome desses mortos, e deram as suas famílias a vingança inútil de produzir outros tantos cadáveres, já indesignáveis, ainda nos tecnocontos-de-fadas, como ‘‘efeito colateral’’.

1. Tamin Ansary, ‘‘A Must Read from an Afghan native’’. Texto divulgado por e-mail

2. Slavoj Zizek, ‘‘Welcome to the Desert of the Real’’. Texto publicado na Internet. Tradução para o português: ‘‘Bem-vindos ao Deserto do Real’’, Folha de S. Paulo, caderno mais!, 23 de setembro de 2001

3. N.E.: O governo radical-frepasista consiste na aliança de um partido, a União Cívica Radical, com uma frente formada por vários pequenos partidos, a Frepaso, sigla que quer dizer Frente País Solidário. É a aliança que elegeu Fernando de la Rúa na Argentina


Idelber Avelar é brasileiro, professor de literatura latino-americana na Universidade de Tulane, em Nova Orleans

Tradução Noéli Nobre



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