Rosualdo Rodrigues
Da equipe do Correio
Seis anos depois de HIStory, álbum dividido entre regravações de sucessos e músicas inéditas, Michael Jackson está de volta à parada fonográfica. Qualquer expectativa em torno de Invincible, o novo disco, é frustrada diante de uma seqüência de 16 canções que em nada contribuem para a carreira do cantor, muito menos para a história da música pop. Autor de discos antológicos como Off the Wall (1979) e Thriller (1983), Jackson hoje em dia está superado pelos próprios seguidores — a irmã Janet, por exemplo, mostra no disco mais recente, All For You, que sabe manipular com muito mais criatividade as mesmas fórmulas que servem de matéria-prima para Invincible.
Os números são prova definitiva de que, musicalmente, Michael Jackson não consegue chamar a mesma atenção de antes. Thriller foi o álbum mais vendido da história da indústria fonográfica — 55 milhões de cópias; HIStory chegou a 2,1 milhões e as expectativas, segundo o diretor de paradas da revista Billboard, Geoff Mayfield, são de que Invincible venda cerca de 300 mil cópias na primeira semana após o lançamento — o disco saiu na terça-feira passada. Pouco, se comparado com All For You, de Janet — 605 mil cópias na primeira semana —, ou quase nada quando confrontado com No Strings Attached, do grupo juvenil ’N Sync — 2,4 milhões nos sete primeiros dias pós-lançamento, no ano passado.
Não há como negar que os escândalos na vida íntima do cantor-compositor ganharam proporção tal que deixaram a música em segundo plano na curiosidade do público e da mídia — não necessariamente nessa ordem. A controversa trajetória pessoal de Michael tem oferecido subsídios respeitáveis tanto para revistas e jornais em busca de matérias sensacionalistas quanto para teóricos interessados em entender fenômenos da comunicação de massa. Mais que um astro pop, Michael Jackson tornou-se um enigma a ser decifrado.
Os primeiros reflexos do impacto que fama e dinheiro causaram na vida íntima de Michael puderam ser vistos no próprio físico do cantor. O processo de afilamento de seus traços negros e clareamento da pele — que ele por muito tempo teimou em alegar ser vitiligo, sem se dar conta do ridículo de tais afirmações — é o mais óbvio sinal da postura equivocada que o músico adotou ao ouvir o incessante tilintar da caixa registradora e as apaixonadas declarações de amor de uma legião de fãs que crescia dia a dia ao redor do planeta. Tal qual o personagem de Leonardo Di Caprio na proa do Titanic, no cinema, Jackson talvez se sentisse ‘‘o rei do mundo’’, ou pelo menos de seu mundo, uma terra encantada, em que ele seria capaz de realizar todos os desejos.
Ao que parece, ignorava que o mundo que criou era sustentado por um outro — o real, onde o dinheiro é gerado e fãs têm ânsia de compartilhar a intimidade dos ídolos. E Michael não disfarçou o pavor que esse mundo de mortais lhe provocava: durante certo tempo, usou nas raras aparições públicas uma máscara que o protegia de qualquer ‘‘veneno’’ que pudesse vir desses estranhos seres que andam de ônibus ou metrô diariamente, comem, dormem, dão expediente e vão ao cinema nos fins de semana. Certamente esqueceram de avisá-lo que quem vende a alma ao diabo deve estar pronto para dar a contrapartida.
Michael e Madonna
Os rumos que a carreira de Michael Jackson tomaram podem ser comparados com o desenrolar da história de outro ícone da música pop surgido nos anos 80. Em 1984, quando Madonna apareceu cantando Like a Virgin e virou febre entre adolescentes que usavam os mesmos frufrus e crucifixos que ela havia incorporado ao visual, Michael já era um astro — cinco anos antes, o ex-integrante do Jackson Five havia se lançado em carreira solo com Off the Wall, que atingiu os 30 milhões de unidades vendidas. Era o ‘‘rei do pop.’’
Despudoradamente, a garota de Detroit ocupou o que seria a versão feminina de Michael nesse reinado em que tudo corre o risco de tornar-se passado de uma hora para outra. Politicamente incorreta, assumiu que era uma ‘‘garota material’’, afrontou o puritanismo ao trazer para primeiro plano temas relativos ao sexo, beijou na boca um Jesus Cristo negro, no clipe Like a Prayer... Enfim, tinha atitude. Mas, sobretudo, Madonna soube estabelecer relação cínica e debochada com a mídia: capitalizando cada bochicho que se formava em torno de sua figura, protagonizava escândalos estudados. Até hoje, aos 42 anos e mãe de dois filhos, ela se expõe e se resguarda de acordo com as próprias conveniências. Mesmo sendo uma estrela de grande porte — e que como tal construiu seu casulo —, mostra-se conectada com os comportamentos e tendências musicais do ‘‘mundo real’’.
Sem o mesmo jogo de cintura para se equilibrar entre as regras do show business e a criação artística, Michael tomou caminhos estranhos. Tornou-se aos olhos do público cada vez menos humano. Nem mesmo o casamento com a ex-enfermeira Debbie Rowe, mãe de seus dois filhos, conseguiu livrá-lo da imagem de um ser mais próximo de personagem de ficção científica. E a freqüência com que ocupou, nos últimos anos, as páginas da imprensa sensacionalista — uma dessas vezes, sob acusação de molestar sexualmente um menor — colaborou ainda mais para minar a popularidade do artista.
Não é por acaso, portanto, que seu novo disco leva o título de Invincible (‘‘invencível’’) e começa com uma música chamada Unbreakable (‘‘inquebrável’’), em que canta de forma desafiadora: ‘‘Não importa o que você faça, eu ainda estarei aqui/ Através de suas mentiras e jogos tolos/ Eu permaneço o mesmo, eu sou inquebrável.’’ Canções como essa, somadas ao fato de que ele tem aparecido em público para divulgar o disco e voltou a fazer show nos Estados Unidos — mês passado no Madison Square Garden, em Nova York — depois de 11 anos sem se apresentar no país, mostram que, aos 43 anos, Michael parece disposto a provar que não é um ser de outro mundo. Como se este fosse o primeiro passo para se reaproximar do público.
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INVINCIBLE
Novo disco do cantor Michael Jackson. Dezesseis faixas, produzidas por Michael Jackson em parcerias com Rodney Jerkins, Dr. Freeze, Teddy Riley, Andre Harris, Babyface e R. Kelly. Lançamento Sony. Preço médio: R$ 76,00. Ao mesmo tempo, a Sony está relançando os discos Off the Wall (1979), Thriller (1983), Bad (1987) e Dangerous (1992), em edições especiais, com remasterização supervisionada pelo próprio Michael e por seu engenheiro de som, Bruce Swedien.
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