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11 de novembro de 2001
Pensar
Volta ao choque de civilizações

Em 1993, um assessor do governo norte-americano advertia que o Ocidente (ou seja, os Estados Unidos) deveria preparar-se militarmente para enfrentar civilizações como o Islã e o confucionismo que, unidas, ameaçariam o coração do mundo ocidental
Tariq Ali
Le Monde Diplomatique - www.diplo.com.br


Da caixa de Pandora do império norte-americano, ainda escancarada, escapam os monstros e os medos que se alastram em um mundo que ainda não está completamente sob o controle dos Estados Unidos. Desde 11 de setembro um deles pula de um estúdio de televisão para outro denunciando a ameaça desses bárbaros para ‘‘a nossa civilização capitalista mundial’’.   Foi em 1993 que Samuel P. Huntington, um ex-especialista em operações de contra-insurreição do governo Lyndon Johnson no Vietnã, depois diretor do Instituto de Estudos Estratégicos de Harvard, publicou o seu, hoje célebre, The Clash of Civilizations (1) (O Choque das Civilizações), concebido como um panfleto contra um rival teórico do Departamento de Estado: Francis Fukuyama e sua tese do ‘‘fim da história’’. Para Samuel P. Huntington, a derrota da União Soviética punha um ponto final em todas as disputas ideológicas, mas não na história. A cultura, e não a política, ou a economia, dominaria o mundo.   Ele enumerava oito culturas: ocidental, confucionista, japonesa, islâmica, hindu, eslava-ortodoxa, latino-americana e, talvez, africana (ele não tinha certeza de que a África fosse, de fato, civilizada). Cada uma delas encarnava diferentes sistemas de valores simbolizados, cada um, por uma religião que ‘‘talvez fosse a força central que motiva e mobiliza os povos’’. O principal divisor de águas passava entre ‘‘o Ocidente e o resto’’, pois somente o Ocidente valoriza ‘‘o individualismo, o liberalismo, a constituição, os direitos humanos, a igualdade, a liberdade, as leis, a democracia, os mercados livres’’. Por isso, o Ocidente (ou seja, os Estados Unidos) devem se preparar militarmente para enfrentar essas civilizações rivais, especialmente as mais perigosas: o Islã e o confucionismo — isto é, o petróleo e as exportações chinesas — que, unidas, ameaçariam o coração da civilização. E o autor concluía com uma observação sinistra: ‘‘O mundo não é uno. As civilizações unem e dividem a humanidade... Os povos identificam-se com o sangue e a fé, pelos quais combatem e morrem.’’ Osama Bin Laden poderia assinar sem qualquer problema essa declaração.   Simplista, porém ‘‘politicamente correta’’, esta análise forneceu subsídios aos estrategistas políticos e ideólogos de Washington e de outros países. O Islã foi considerado a principal ameaça, pois o Irã, o Iraque e a Arábia Saudita produzem a maior parte do petróleo do mundo. Nessa época, a República Islâmica do Irã existia há catorze anos e combatia o ‘‘Grande Satã’’; a guerra do Golfo e suas conseqüências haviam golpeado o poder do Iraque; a Arábia Saudita, contudo, permanecia um porto seguro, com sua monarquia defendida por tropas norte-americanas. A ‘‘civilização ocidental’’, apoiada, na ocasião, por duas outras — a confucionista e a eslava-ortodoxa — organizava a morte lenta de dezenas de milhares de crianças iraquianas, privadas de alimentos e medicamentos devido às sanções impostas pelas Nações Unidas.

Apoio às forças reacionárias
Essas teses exigem duas respostas fundamentais. A primeira é que o Islã, há mais de mil anos, nunca foi monolítico. As diferenças entre muçulmanos senegaleses, chineses, indonésios, árabes e asiáticos do sul são bem maiores do que as que os distinguem de não-muçulmanos da mesma nacionalidade. Nos últimos cem anos, o mundo muçulmano conheceu guerras e revoluções, como todas as outras sociedades. O conflito de setenta anos entre os Estados Unidos e a União Soviética afetou todas as ‘‘civilizações’’. Os partidos comunistas cresceram e ganharam apoio das massas, não só na Alemanha luterana, mas na China confucionista e na Indonésia muçulmana. Ao longo das décadas de 1920 e 1930 o apelo cosmopolita do marxismo e o desafio populista de Mussolini e Hitler dividiram intelectuais árabes e europeus. O liberalismo, tido como ideologia do império britânico, era menos popular. Atualmente, os fundamentalistas podem ser considerados uma versão muçulmana da Frente Nacional francesa ou dos neo-fascistas do governo italiano. Um dos ideólogos ocidentais mais apreciados por alguns pensadores que alimentam o Islã radical é Alexis Carrel, racista e pétainista (2), caro aos seguidores de Le Pen.   O segundo ponto: depois da 2ª Guerra Mundial, os Estados Unidos apoiaram os elementos mais reacionários, usando-os como obstáculo ao comunismo e ao nacionalismo progressista. Muitas vezes recrutaram seus aliados entre radicais fundamentalistas: os Irmãos Muçulmanos, contra Nasser, no Egito; o Sarekat-i-islam, contra Sukarno, na Indonésia; o Jamaat-I-Islam, contra Bhutto, no Paquistão; e, mais tarde, no Afeganistão, Osama Bin Laden e outros contra o laico comunista Najibullah, escorraçado de seu refúgio pelo talibã, antes de ser morto e seu cadáver pendurado em Cabul, com o pênis e os testículos enfiados na boca. Nenhum líder ocidental manifestou qualquer discordância.   As únicas exceções foram Bagdá e Teerã. Não havia condições, na década de 1960, para a criação de um grupo político confessional no Iraque. O Partido Comunista era a força mais popular, mas sua vitória era inaceitável. Os Estados Unidos apoiaram, então, a ala mafiosa do partido Baath, incitando-a a dizimar os comunistas e, depois, os sindicatos de operários ligados ao petróleo. Saddam Hussein encarregou-se do trabalho e obteve, como recompensa, armas e acordos comerciais — até seu fatal erro de avaliação, em agosto de 1991, no Kuait. No Irã, o Ocidente apoiava o Xá de segunda geração, que se comportava como um déspota: desrespeitava os direitos de seu povo e aniquilou, através da tortura e do exílio, o partido Tudeh (comunista). Os religiosos ocuparam o vazio político e dirigiram a revolta popular que derrubou a monarquia.   No Oriente Médio, o Ocidente apoiou sua estratégia sobre dois pilares. O primeiro foi a Arábia Saudita, criada na década de 1930 pelo gigante norte-americano de petróleo Aramco, que precisava de um Estado local para defender seus interesses. Na época, a tribo dos Al-Saud acabava de sair vitoriosa de uma sangrenta guerra civil entre as tribos que habitavam Hedjaz. Triunfava, dessa forma, uma tendência especialmente virulenta e ultra-puritana no Islã: o wahhabismo, que deriva do nome de Ibn Abdul Wahhab, um fanático religioso que pregava as vantagens de uma jihad (guerra santa) permanente contra os modernizadores islâmicos e os infiéis, e que se impôs graças a uma aliança, em 1744, com Mohamed Ibn Saud, que desejava explorar a fé fervorosa para facilitar as conquistas militares. O wahhabismo, atual religião do Estado Saudita, domina toda a estrutura social e difunde-se, graças aos petrodólares, financiando o fundamentalismo em todo o mundo muçulmano, inclusive nas escolas religiosas do Paquistão, onde nasceu o talibã.

A raiz da crise atual
O segundo pilar: Israel, o intermediário mais confiável dos Estados Unidos na região. As relações entre muçulmanos e judeus foram, em outros tempos, relativamente harmoniosas. Na Espanha muçulmana, os judeus eram protegidos pelos governantes muçulmanos. Saladino agiu da mesma forma no Oriente Médio, quando retomou Jerusalém, em posse dos Cruzados, e trouxe muçulmanos e judeus de volta à cidade. Depois da vitória da Reconquista católica na Espanha, os judeus receberam asilo e refúgio no Império Otomano. Foi a nakba (catástrofe) de 1948 que demarcou a verdadeira ruptura entre judeus e árabes. Os dirigentes sionistas, com um sentimento latente de culpa em relação aos palestinos expulsos, tornaram-se mais agressivos, mais arrogantes e mais fanáticos e desempenharam alegremente seu papel em 1956 (guerra do Suez), em 1967 (guerra dos Seis Dias), em 1982 (guerra do Líbano) e no presente momento.   O medo de desestabilizar seu principal braço militar na região tornou o Ocidente totalmente incapaz de garantir a criação de um Estado Palestino viável e independente. Este fracasso levou ao descontentamento do mundo árabe-muçulmano, especialmente no Egito e na Arábia Saudita, de onde se diz serem originários alguns dos terroristas responsáveis pela tragédia de 11 de setembro. Ou seja, a raiz da crise atual está na estratégia e na política econômica do Ocidente — a dos ‘‘dois pesos e duas medidas’’ que as inspiram. Uma nova guerra só poderia provocar um trasbordamento das águas do ressentimento.

1.Publicado em francês, Le Choc des Civilisations, ed. Odile Jacob, Paris, 1997. Em português, O Choque das Civilizações, ed. Objetiva, Rio de Janeiro, 1997.

2.N.T.: O termo pétainiste designa, em francês, os colaboracionistas com o invasor alemão, seguidores do marechal Pétain.


Tariq Ali é escritor paquistanês naturalizado britânico, autor dos livros The Stone Woman (ed. Verso Books, Londres, 2000) e Introducing Trotsky and Marxism (ed. Totem Books, Londres, 2000). Tradução Teresa Van Acker


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