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Brasília, domingo, 13 de janeiro de 2002
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| Pensar |
Entrevista / Paulo Roberto de Almeida
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OS PRIMEIROS ANOS DO SÉCULO 21 — O BRASIL NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS CONTEMPORÂNEAS - De Paulo Roberto de Almeida.
Editora Paz e Terra. Preço a ser definido. Mais informações
no site www.pralmeida.org.
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| FORMAÇÃO DA DIPLOMACIA ECONÔMICA NO BRASIL — AS RELAÇÕES ECONÔMICAS INTERNACIONAIS NO IMPÉRIO - De Paulo Roberto de Almeida.
Editora Senac São Paulo/ Fundação Alexandre Gusmão (Funag), 676 páginas. R$ 68,00. |
Há pelo menos uma década os temas comerciais e econômicos tomaram boa parte do espaço reservado às questões políticas e aos (não) alinhamentos ideológicos nas mentes de diplomatas e especialistas em relações internacionais no Brasil. Mas a produção intelectual não tem acompanhado tal mudança de prioridades na velocidade necessária. Até hoje não existia, por exemplo, nenhuma história abrangente da diplomacia econômica
no Brasil.
O sociólogo e diplomata Paulo Roberto de Almeida resolveu encarar a empreitada. Acaba de lançar Formação da Diplomacia Econômica no Brasil, cobrindo os anos do Império. Em outros dois volumes, pretende tratar o período republicano, do final do século 19 até os dias de hoje. Autor de vários livros nessa vertente, inclusive dois sobre o Mercosul, ele também lançará em fevereiro Os Primeiros Anos do Século 21 — O Brasil nas Relações Internacionais Contemporâneas.
CORREIO BRAZILIENSE — Existe hoje uma sólida bibliografia brasileira sobre diplomacia e relações internacionais?
PAULO ROBERTO DE ALMEIDA — O campo ainda apresenta lacunas importantes, mas nos últimos dez anos foram publicadas obras relevantes escritas por pesquisadores acadêmicos (historiadores e cientistas políticos) e pelos próprios diplomatas. Em ambos os grupos existe uma saudável orientação em fugir aos cânones da história diplomática tradicional, aquela preocupada apenas em relatar os eventos e fatos políticos, com base unicamente em documentos de chancelaria, e buscar uma abordagem analítica e interpretativa sobre os fatores econômicos e políticos explicativos do tipo de inserção internacional e regional praticada pelo Brasil.
CORREIO — Existe uma visão brasileira das relações internacionais ou continuamos a depender de versões européias e americanas?
ALMEIDA — Não se pode propriamente falar de uma escola ou de teorias brasileiras de relações internacionais, mas tampouco ocorre uma cópia indiscriminada da produção estrangeira. É certo que muitos cientistas políticos seguem padrões norte-americanos de metodologia e abordagem, e que historiadores tendem a seguir uma visão francesa das relações internacionais. Mas também é verdade que os pesquisadores brasileiros têm procurado seguir um enfoque original das relações internacionais do Brasil.
CORREIO — Quando fomos originais?
ALMEIDA — Vários pesquisadores acadêmicos, mas também os próprios diplomatas têm colocado o país no centro de um sistema próprio de relações exteriores, nos planos regional ou internacional, com grande ênfase nos problemas do desenvolvimento econômico. Esta é marca, por exemplo, de alguns economistas-historiadores, como Marcelo de Paiva Abreu, Winston Fritsch, ou o próprio ministro da Fazenda, Pedro Malan, que já produziu alguns textos importantes sobre o contexto internacional do desenvolvimento econômico brasileiro.
CORREIO — Seu livro supre uma lacuna importante sobre a história da diplomacia econômica no Brasil Império. Que outras lacunas existem?
ALMEIDA — Faltaria agora cobrir a fase republicana, o que estou empenhado em fazer, com dois novos volumes. Mas também faltam estudos minuciosos sobre a história financeira internacional do Brasil, por exemplo, ou a de suas relações com os organismos financeiros internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, algo que tentei suprir num dos capítulos de meu livro O Brasil e o Multilateralismo Econômico (Editora Livraria do Advogado, 1999). Marcelo de Paiva Abreu já escreveu algo sobre o Brasil e o GATT (hoje OMC), mas ainda falta uma história de nossa participação nesse importante foro do sistema multilateral de comércio.
CORREIO — Que conseqüências a ausência destes estudos traz para a formação de diplomatas e especialistas em relações internacionais?
ALMEIDA — Os diplomatas são certamente mais afeitos à leitura tradicional de história diplomática do que aos problemas de nossa inserção econômica internacional, sobretudo comercial e financeira. Os efeitos são preocupantes pois as novas gerações entram na carreira sem uma visão dos grandes debates internacionais sobre desenvolvimento, comércio, finanças, propriedade intelectual, entre outros temas, que moldaram a ação de uma geração anterior de diplomatas. Uma boa contribuição nesse sentido foram as memórias do Roberto Campos, mas esses temas estão dispersos no livro e não recebem o tratamento sistemático que deveriam receber numa análise de cunho classicamente acadêmico.
CORREIO — Muito se tem falado na falta de quadros no Brasil para enfrentar as negociações multilaterais que se desenham para o futuro próximo — OMC, Alca, União Européia etc. O que pode ser feito, em sua opinião, para suprir essa lacuna?
ALMEIDA — Sem falar da própria expansão dos servidores diplomáticos e de outros órgãos públicos, como os analistas de comércio exterior, do MDIC, por exemplo. As insuficiências existem também no seio das empresas brasileiras, que não estão ainda suficientemente ‘‘globalizadas’’ para contratar especialistas em relações internacionais, que possam colocá-las no novo ambiente competitivo do comércio internacional. Penso por exemplo nos conflitos comerciais, que exigem advogados comerciais com conhecimento das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) ou do Mercosul, para atuar nos órgãos de solução de controvérsias, terreno no qual o Brasil é notoriamente carente de um número razoável de quadros. Em outros campos do direito internacional igualmente, muitas vezes nossos interesses são defendidos por escritórios estrangeiros de advogados, à falta de especialistas em número suficiente, ou de escritórios brasileiros possuindo representações no exterior.
CORREIO — Por que existem tais carências?
ALMEIDA — Uma certa responsabilidade incumbe aqui à academia, isto é, aos muitos cursos de relações internacionais já existentes no Brasil. Muitas vezes os professores se preocupam em demasia, ou de modo excessivamente acadêmico, com questões conceituais ou teóricas de relações internacionais, quando o que precisamos, na maior parte dos casos, são de peritos em comércio internacional, ou de especialistas práticos em integração regional e nas questões do Mercosul.
CORREIO — A política externa do Brasil já deixou de ser assunto apenas de diplomatas e o país está deixando de ser uma sociedade voltada para dentro e com pouco interesse em questões internacionais. Que sinais relevantes apontariam tal mudança?
ALMEIDA — Os processos de globalização e de regionalização em curso na última década certamente contribuíram para abrir o Brasil ao cenário internacional, mas muito mais importantes foram questões concretas como o conflito Embraer-Bombardier, as restrições à carne brasileira em virtude de acusações indevidas e infundadas por causa da doença da ‘‘vaca louca’’, as crises financeiras dos anos 90, incluindo o da Argentina, ou o debate em torno da Alca em nosso hemisfério, que seguramente trouxeram importantes questões internacionais para o cotidiano de milhões de brasileiros. Mais e mais nosso país vai ter de conviver com (e compreender) esse tipo de problema de comércio internacional. Estou certo, por exemplo, que nas próximas eleições presidenciais os temas de comércio internacional, com as negociações da Alca e da OMC, assim como os problemas financeiros internacionais — como câmbio, ajuda do FMI, capitais estrangeiros — estarão no centro dos debates entre os principais candidatos.( Marcos Savini)
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