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13 de janeiro de 2002
Pensar
Retrocesso anunciado

Backlash, de Susan Faludi, mantém-se atual porque há um movimento no Brasil contra as conquistas das mulheres na sociedade. A imprensa é uma das principais culpadas desse antifeminismo que prega a volta ao comando do fogão
Carla Rodrigues
Do no.com.br




Backlash — O Contra-ataque na Guerra Não Declarada Contra as Mulheres De Susan Faludi. Tradução de Mario Fondelli. Rocco, 460 páginas. Coleção Gênero Plural. R$ 55,00.

Backlash — O Contra-ataque na Guerra Não Declarada Contra as Mulheres, de Susan Faludi, chegou ao Brasil com 10 anos de atraso. Lançado nos Estados Unidos em 1991, quando provocou grande polêmica, Backlash acaba de desembarcar por aqui, lançado pela Rocco. O longo atraso, que poderia ser um ponto fraco para os leitores em português, acabou se transformando no forte da edição: o movimento de contra-ataque aos avanços das mulheres na sociedade, identificado por Faludi a partir da segunda metade da década de 80 nos EUA, também se atrasou para chegar ao Brasil, o que acabou por tornar o livro absolutamente atual.
  Não é preciso concordar com as teorias conspiratórias de Faludi para reconhecer a pertinência de suas críticas. São observações ácidas, que vão direto ao ponto. A fragilidade do seu trabalho, no entanto, está em enxergar em tudo — é extraordinário o número de exemplos levantados na pesquisa — um grande e muito bem arquitetado complô contra as conquistas femininas na sociedade.
  Não por acaso, seu olhar arguto se volta principalmente para a imprensa. Por trás do que poderiam parecer ingênuas reportagens sobre novos comportamentos, Faludi localiza o que há de pior no movimento antifeminista: a idéia de que a emancipação trouxe infelicidade e de que as mulheres já obtiveram todas as conquistas que o feminismo reivindicava. Podem, portanto, parar de reclamar. O feminismo estaria acabando por falta de novas bandeiras. Se ainda não acabou, deveria acabar logo, porque está prejudicando os homens, que estão perdidos, desempregados e sofrendo as conseqüências indesejáveis dos avanços das mulheres. Tudo culpa delas, claro.
  Estas e outras bobagens, ditas ou publicadas isoladamente, podem parecer só um apanhado de besteiras que, como tantas, assolam a imprensa de vez em quando. Faludi enxerga uma guerra, orquestrada principalmente pela direita americana. Na grande trama dos conservadores, identificada pela autora, aparecem exemplos muito facilmente localizados na imprensa local.
  Trabalho da pesquisadora Miriam Goldberg, ‘‘A crise da masculinidade na mídia’’ mostra como, subitamente interessados em discutir o papel dos homens na sociedade, os jornais encontraram para o assunto o mesmo enfoque que a autora de Backlash já tinha identificado na imprensa americana: pobres homens, ainda não sabem como conviver com a mulher que conquistou seu lugar na sociedade. São reportagens com títulos sugestivos, como ‘‘Homens ficam inseguros diante de mulheres ativas’’, ‘‘Ausência do pai cria confusão nos filhos’’, e ‘‘Incertezas do fim do século causam deterioração física e psíquica no homem moderno’’. São exemplos recolhidos por Miriam entre 1998 e 2000. Na pesquisa de Faludi, a imprensa americana já tinha adotado esta tática de guerra desde 1986, quando a New York Times Magazine anunciou na capa: ‘‘O movimento feminista acabou’’.
  Foi uma espécie de senha para o começo de uma longa cantilena: mulheres solteiras que trabalham não conseguirão ter filhos, mulheres casadas que trabalham estão estressadas e infelizes, mulheres casadas, que trabalham e que, pasmem, ainda assim estão satisfeitas, estão sujeitas a doenças cardíacas. Mulheres estão trocando o movimento feminista pelo MVF (movimento de volta ao fogão).
  Poderia ser apenas uma brincadeira, mas o MVF esteve estampado na capa da revista Domingo (suplemento semanal do Jornal do Brasil) em janeiro de 2001. Anunciava: ‘‘Fraldas, mamadeiras, espanadores, pias, tanques, fogões: eis o novo paraíso’’. Os depoimentos fazem coro com os que Faludi já tinha encontrado nos jornais americanos: as mulheres estão exaustas, a família deve vir em primeiro lugar, e a educação dos filhos é um projeto mais importante do que a carreira profissional. Nem uma linha sobre a falta de perspectivas profissionais das mulheres, que são minoria em cargos de chefia, ainda ganham menos do que os homens — embora tenham maior índice de escolaridade e ocupem as mesmas funções —, ou sobre a falta de uma política de creches adequada à nova realidade do mercado de trabalho, com exigências e horários cada vez mais flexíveis.
  Se os exemplos locais fossem assim como o da reportagem da Domingo, apenas dispersos em reportagens isoladas, ainda poderiam ser contestados. Mas tudo aquilo que Faludi identificou como Backlash está reunido numa só edição especial da revista Veja, inteiramente dedicada a mulheres. À venda nas bancas desde o início de dezembro, e disponível na Internet (apenas para assinantes do Uol), a Veja Especial Mulher tem, além da já tradicional reportagem sobre as mulheres que preferiram voltar para casa (‘‘A volta ao lar’’), pauta inteiramente dedicada ao tema de Faludi. É perfeita demonstração de como a imprensa, ao supor que reflete um fenômeno social, frauda um tipo de comportamento que não existe. Ou que, pelo menos, não é de compreensão fácil pela ‘‘sociologia de redação’’.
  Em Veja, no capítulo ‘‘Família’’, a reportagem aconselha: ‘‘Estudos recentes mostram que se deve lutar pela manutenção do casamento a todo custo. Separação, só em último caso’’, texto que vem acompanhado de teste de satisfação no casamento no qual apenas um dos resultados sugere que ‘‘talvez valha a pena tentar um novo relacionamento’’. Nas outras quatro respostas, uma espécie de palavra de ordem: ‘‘adaptem-se’’. A revista aborda também um dos temas preferidos de Faludi — a solidão da mulher emancipada.
‘‘Vida sem par — há um número crescente de mulheres que vivem sós. Não por opção. Por não encontrarem parceiros.’’
  Foi por uma reportagem como esta que Faludi decidiu escrever Backlash. O ano era 1986 e a capa da revista americana Newsweek avisava: ‘‘É mais fácil uma mulher de 40 anos com curso superior ser baleada por um terrorista do que casar’’. O tempo passou e ser atacada por um terrorista nos EUA ficou bem mais fácil, é verdade. Mas a lenga-lenga antifeminista não está só em Veja — embora a edição especial tenha o ‘‘mérito’’ de reunir num só exemplar histórias semelhantes às que estão no livro. Espalha-se célere em reportagens, programas de TV, livros de auto-ajuda e estudos ‘‘científicos’’. Estes, aliás, são alvo da artilharia pesada de Faludi: muito do que a imprensa americana veiculou contra o feminismo e que Backlash denunciou estava amplamente apoiado em pesquisas:

  • A ‘‘falta de homens’’ está ameaçando as possibilidades de casamento.
  • Mulheres divorciadas enfrentam ‘‘desastrosa’’ queda no status econômico.
  • ‘‘Epidemia de infertilidade’’ acomete mulheres profissionais que adiaram a gravidez para construir uma carreira.
  • Solteiras e executivas têm sofrido ‘‘profunda depressão emocional’’ e ‘‘esgotamento nervoso’’.

    Estas e outras fraudes Backlash já anunciava em 1991. Por aqui, ainda sopravam ventos progressistas. Em 1994, Veja também dedicou à mulher uma edição especial. Sob o título ‘‘A grande mudança no Brasil’’, a revista reconhecia os avanços da mulher na sociedade, no mercado de trabalho, na família, e mostrava como ‘‘a brasileira ocupa espaços e finca pé na vida’’.
      O que Backlash mostra é que, além de adotar o retrocesso antifeminista, aqui também se importou como respeitável o que já é considerado lixo lá fora. Por isso, o mérito de Backlash não é só o de apontar as ameaças à emancipação feminina. Os alertas de Faludi chegam para mostrar que retrocessos não intimidam só as mulheres, mas toda a sociedade.

    Downloada Crise da Masculinidade na Mídia, de Miriam Goldberg
    http://saturno.no.com.br/notitia/leitura/miriam.pdf

    Sites relacionados
    Artigo de Susan Faludi http://gos.sbc.edu/f/faludi.html
    Glossário sobre backlash http://www.backlash.com/master/def.html
    Resenha de Backlash publicada em columbia journalism Review http://www.cjr.org/year/92/1/books-myths.asp


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