Dalila Góes e Sheila Raposo
Da equipe do Correio
| Fotos: Ronaldo de Oliveira |
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A dança com véus é a que exige mais leveza nos movimentos das dançarinas do ventre
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Badulaques Os acessórios são fundamentais para compor o visual das dançarinas. Pulseiras, colares, contas coloridas, brincos, tiaras e tecidos leves e coloridos são os ornamentos mais utilizados na dança do ventre |
Cada capítulo da novela O Clone dura em média 40 minutos, fora os comerciais. São de três a quatro blocos, com pelo menos meio minuto de odaliscas marroquinas que insistem no rebolado para captar audiência e, quem sabe, gente para as academias de dança. A propaganda subliminar é eficiente e martela a cabeça do desprotegido telespectador: faça a dança do ventre, olhe como eles são felizes, como elas dançam, eu vou hipnotizar você, aprenda a dança do ventre...
Sem perceber, Khaled (aquele da melô da Feiticeira) está no CD Player, e seus pés, mais ou menos firmes, na ‘‘tenda’’ das dançarinas árabes. Pelos próximos 50 minutos, a professora será a Jade e o espelho que cerca a sala de aula, uma maldição que estampa na sua testa, alternadamente, palavras como miiiico ou aê, acertou uma, minha filha!
O primeiro refresco das iniciantes: não precisa da roupa clássica, cheia de bugigangas, para freqüentar a aula de dança do ventre; saias indianas, de hippies e até cangas de praia substituem, e bem, os quilos de panos e penduricalhos que juntos chegam a custar R$ 300. O segundo alívio: só e somente a professora, além, é claro, de duas ou mais exibidas (humpft!) entendem do rebolado. O resto, aquilo que você acha que é dança do ventre, mas não é, se chama dança da bundinha, ou da garrafinha, ou da motinha, ou tum tum tum de boate.
Na academia, de frente para o espelho, o reflexo é cruel. Começa com um simples aquecimento, igualzinho a qualquer outra aula de ginástica. Quando toca a coletânea do Belly Dance (o primeiro lugar no gosto das professoras de iniciação à dança árabe), a impressão é que as pernas e os quadris, das outras mulheres, estão descolados do resto do corpo. Mas as suas pernas e os seus quadris, que são o que interessa, continuam obedecendo ao molde feito por Deus.
Conselho da professora Paula Bitencourt: junte as duas mãos próximas ao peito, como se fosse rezar. É a primeira tentativa de deixar o tronco imóvel, enquanto o quadril faz um movimento que lembra um apressado fechar de porta do carro com o popô. Rapidinho, outro movimento. É a vez de fazer um oito, para frente e para trás. Quem vê a diferença do que é dentro ou fora? A professora.
Joga o quadril para o lado, dá uma tremidinha...
A tremidinha é a parte mais esperada das alunas, ou mais apreciada pelos homens. Como a maioria dos passos da dança do ventre, da cintura para cima é tudo duro, estático. Do umbigo para baixo, a coisa treme. Movimento praticamente impossível para as iniciantes. Outro ponto alto são os movimentos O Clone, não que se chamem assim, mas é aquilo que se vê na novela de segunda à sábado, traduzido como a motivação para o crescimento de 40% de alunos nas aulas de danças árabes.
Ingrediente 1: espelho grande, que mostre imagem de corpo inteiro. A pose: um braço acima da cabeça, outro na altura dos ombros. Na ponta do pé, jogue um pedaço do quadril para cima. O movimento: comece devagar com o quadril, suba e desça como se estive flutuando. Tudo isso sem tirar os pés do chão. Num estágio mais avançado, é possível mexer os braços alternadamente, girar, jogar a cabeça e sorrir, como se nada estivesse acontecendo. Liiinnnda!
Se você passar do primeiro mês, ganhará um Lucas, um Said ou o tio Ali de presente. Palavra de professoras. Por mim, não garanto nada. Mas se você investiu no traje típico e desistiu depois dos primeiros 50 minutos de aula, lembre-se de que o ano apenas começou e com ele, a temporada de festas à fantasia.
Quanto mais brilho, melhor
A loja é pequena. Não tem letreiro luminoso, não cheira a incenso, não faz pose de esotérica. Mas não é desconhecida. Pelo menos, não entre dançarinas e professoras de dança do ventre do Distrito Federal. Todas já foram lá. Ou sabem de sua existência.
Não é para menos. Os armários e vitrines são cheios de badulaques de todas as cores e tamanhos. Véus transparentes, lenços enfeitados com moedas e contas coloridas, braceletes, CDs com músicas típicas, colares, cintos e bustiês bordados... Há de tudo. Há, principalmente, a fala mansa e costurada em leve sotaque sírio de Abdulbari Nasser, dono da loja. Quem entra só para ver, acaba levando alguma coisinha. Nem que seja apenas um par de brincos.
A loja de Nasser, também professor do Instituto de Cultura Árabe, é a única especializada no gênero em todo o DF. Além de vender, faz por encomenda. Há várias outras que vendem acessórios para quem pratica a dança do ventre. Mas não na mesma quantidade e variedade. E basta algumas horas entre os brilhos e cores da Zanúbia (nome da loja, em homenagem a uma antiga rainha síria) para perceber que ela é mesmo bambambam no assunto. O vaivém de mulheres é constante.
Primeiro entrou Sofia Nantes, estudante de 26 anos. Com três meses de aula, ela fez uma apresentação memorável para o marido. Agora, está louca para ter a roupa completa, mais uma bengala e uma espada. Não sairá por menos de R$ 400, tudo (só a espada custa R$ 200). Cliente antiga — e vizinha do dono da loja — Sofia sabe que terá uma ajudazinha para realizar o sonho...
Depois de Sofia vieram Íris e Luciana Guerra, professoras. Olharam tudo, perguntaram preços, mas não estavam às compras. Foram fazer negócio: pedir o patrocínio da loja para um curso intensivo. Conseguiram. A Zanúbia, aliás, é uma vitrine não só de roupas e acessórios, mas de eventos. Tudo o que está rolando na cidade é divulgado na loja. Panfletos e cartazes estão lá para comprovar.
O professor Nasser ainda recebeu a visita de Maria Carina de Oliveira, 20 anos, e Valéria Paes Lima, 21. Alunas recém-iniciadas no mundo das mil e uma noites, as duas passaram pela loja para comprar um lencinho simples, com algumas contas chacoalhantes. A idéia é dar um toque especial às aulas — nenhuma delas pensa em se apresentar. ‘‘Para quem não pretende fazer carreira como dançarina, é um hobby caro’’, atesta Íris, referindo-se ao preço das roupas e acessórios.
Agradecimentos: academias Dalmo Ribeiro e Scala e loja Zanúbia
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