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Brasília, quinta-feira, 24 de janeiro de 2002
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brincadeira perigosa Fio com cerol degola criança
No Gama, menino de 4 anos morre depois de ter a garganta cortada por linha de pipa reforçada com mistura de pó de vidro e cola. Em Samambaia, um garoto de 6 anos levou choque de 3.800 Volts quando tentava retirar brinquedo de poste
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Roberto Fonseca e Sheila Messerschmidt
Da equipe do Correio
| Álbum de família |
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| Matheus: menino tímido, que preferia seus bonecos à pipa |
O perigo corta o ar do Distrito Federal na forma de pipas. O colorido que a diversão espalha no céu disfarça o risco. Mas o velho brinquedo de crianças e adultos se torna armadilha e arma letal. Às 17h40 de terça-feira, um garoto ficou gravemente ferido ao levar um choque e cair de um prédio em construção, em Samambaia. O menino, de 6 anos, tentava retirar sua pipa presa a uma rede da alta tensão. Menos de uma hora depois, uma criança de 4 anos morreu, no Gama, degolada pela corda de uma pipa que estava com cerol — cobertura de pó de vidro.
— Titio, cortaram meu pescoço.
Assim que sentiu o ferimento, o menino Matheus Henrique Rodrigues Aben-Athar, 4 anos, pediu ajuda ao tio que estava no pátio de sua casa. Wanderley Rodrigues Costa, 46 anos, correu ao encontro do sobrinho e tentou estancar o sangue que escorria de seu pescoço. Era uma das raras vezes que Matheus estava brincando na rua, em frente à casa onde morava com a mãe, na quadra 1 do Setor Leste. Geralmente, temendo a violência da área, sua mãe pedia que Matheus brincasse dentro do pátio.
O menino estava sentado em sua bicicleta, parado e com as mãos sobre o guidom, quando a correria começou. Muitas crianças ocupavam o asfalto da rua quando uma pipa começou a cair, depois de ter seu fio cortado pelo cerol que estava em outra pipa. Os empinadores brincavam na quadra ao lado. Alguém ainda gritou ‘‘olha a pipa!’’, tentando alertar para o fio com cerol que era puxado pelo dono do brinquedo. Quem estava na outra ponta do fio não foi visto pela criançada.
Matheus não se mexeu e o fio passou como uma faca pelo lado esquerdo de seu pescoço. O cerol cortou a pele e rompeu a veia jugular, principal vaso que conduz sangue venoso (sem oxigênio) da cabeça para o coração. É uma veia de calibre grosso. Uma hemorragia na jugular, dependendo da profundidade do corte e da quantidade de sangue perdido, pode causar a morte de uma pessoa em 4 minutos. Numa criança, a morte pode chegar ainda mais rápido, pela menor quantidade de sangue no organismo.
Sem tempo
Outro tio de Matheus, Valdeci Rodrigues Costa, que também correu para socorrer o menino, cortou a mão ao retirar um pedaço do fio que estava preso ao pescoço do sobrinho. ‘‘Se fez isso em mim, imagina no pescoço de uma criança’’, lamentou ele.
Com o carro de um vizinho, tentando estancar o sangue do ferimento, os tios levaram Matheus para a Emergência do Hospital Regional do Gama. A assessoria de imprensa do hospital informou que ele chegou sem vida. A equipe médica ainda tentou reanimar o menino, no balão de oxigênio, mas não teve sucesso.
Matheus era filho único, tido como tímido e comportado pelos amiguinhos. Pelas pipas, não tinha interesse algum; preferia bonecos e sua bicicleta. Ele freqüentava o Jardim de Infância Pequeno Príncipe, no Setor Leste do Gama. O menino foi enterrado ontem, no Cemitério do Gama, às 17h.
A manicure Jane Cristina Ferreira Lima, 29 anos, é vizinha e amiga de Deusimar Rodrigues da Silva, mãe de Matheus. Seu filho, Henrique, também com 4 anos, estava ao lado do menino ferido pelo cerol no momento do acidente. ‘‘Eu já tinha medo de deixar meu filho sozinho brincando. Agora, ele não vai pra rua nem comigo. Está muito perigoso com essas pipas por aí’’, comentou Cristina.
ARRISCADO, MAS LEGAL
Derivado da palavra cera, o cerol não é uma arma. Mas pode acabar se tornando uma. De acordo com o cirurgião-geral Antônio Geraldo de Ávila, médico do Hospital de Base (HBDF) e Hospital das Forças Armadas (HFA), a substância feita com vidro, em muitos casos, funciona como uma lâmina. Pode cortar e atingir as camadas mais profundas da pele. Utilizado para deixar a linha da pipa mais resistente e cortante, o cerol, apesar de perigoso, não é ilegal. Dois projetos de lei tramitam na Câmara dos Deputados para torná-lo crime, mas estão parados na Comissão de Constituição de Justiça. ‘‘O cerol é como uma faca de cozinha. Existe para um fim que não é ilícito (cortar o fio da pipa adversária), mas pode ser a arma de um crime, se ferir ou matar alguém’’, esclarece o delegado-chefe substituto da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), Rário Temporim.
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Tio pede campanha
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| Sérgio Amaral |
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| Wanderley e Waldecy, tios de Matheus, não se conformam |
Desolado, Wanderley Rodrigues Costa, o tio que socorreu Matheus, pedia ontem uma campanha e fiscalização contra o uso do cerol em pipas. Para ele, o artifício tornou um brinquedo ingênuo uma arma capaz de ferir até adultos, quanto mais crianças, que geralmente não têm noção do perigo. ‘‘E são os mais velhos que usam o cerol, pessoas que deveriam saber a tragédia que podem causar’’, lamentou ele.
A morte de Matheus é investigada pela Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA). Duas testemunhas identificaram o dono da pipa como um adolescente que mora próximo ao local do acidente. Conforme Rário Temporim, delegado-chefe em exercício da DCA, o adolescente não tinha sido localizado até o início da noite. O ato infracional cometido por ele equivale no direito penal ao homicídio culposo (quando não há intenção de matar).
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memória Três PMs morreram em 1997
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Um dos acidentes mais graves da história da Polícia Militar teve como causa uma linha com cerol. Três PMs morreram durante um vôo de treinamento sobre a Candangolândia no dia 21 de fevereiro de 1997. De acordo com o laudo do Instituto de Criminalística, da Polícia Civil, partículas de vidro cortaram a corda em que estavam presos os militares. Eles morreram instantaneamente.
‘‘O caso gerou uma discussão enorme e ficou comprovado que a velocidade do impacto do helicóptero com a linha acabou provocando o corte da corda’’, lembra André Luís Peres, presidente da Associação Brasiliense de Peritos Criminais.
Em janeiro do mesmo ano, o operário José Florêncio Filho, 33 anos, dirigia uma motocicleta quando foi atingido por uma linha com cerol no pescoço. Ele caiu sentado e morreu pouco depois com um profundo corte, que atingiu a veia jugular. Ninguém prestou socorro. O acidente aconteceu em Sorocaba (SP).
Dois anos depois, em 3 de janeiro de 1999, o motoqueiro Carlos Alberto Fernandes, de 24 anos, ficou dez dias internado no Hospital Regional de Ceilândia. Chegou a correr o risco de não voltar a falar, devido a ferimentos na traquéia e na veia jugular, provocados por uma pipa com cerol. O acidente aconteceu quando ele dava carona a um amigo, em Ceilândia.
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Resgate arriscado
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| Fotos: Sérgio Amaral |
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Marcos levou o choque ao tentar resgatar pipa de poste perto de casa, caiu e está em estado grave
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| No Setor P-Sul, em Ceilândia, menino exibe lata com cerol |
A linha com cerol não é o único risco derivado da brincadeira de empinar pipas. Um fio de alta tensão no caminho do brinquedo também representa perigo. Na tarde de terça-feira, a diversão de Marcos Vinícius Barbosa Lima, 6 anos, poderia ter sido tranqüila, não houvesse um prédio em construção, sem condições de segurança, na QR 402, conjunto 2, em Samambaia. Por volta das 17h40 de terça-feira, o garoto imaginou poder subir até a terceira laje do edifício e retirar dos fios, com a ajuda de um vergalhão de ferro, o brinquedo preso. Não conseguiu.
Ao encostar em sua pipa o ferro — sobra da estrutura da construção —, Marcos recebeu uma descarga elétrica de 3.800 Volts. A rede é de alta tensão e deu um choque no garoto 17 vezes maior que a voltagem da rede que chega pelas tomadas de luz nas casas do Distrito Federal. O choque provocou um clarão e queda momentânea de energia em algumas casas próximas, segundo os moradores.
Marcos caiu de uma altura de 7 metros, de costas sobre restos de cimento, ainda dentro do terreno do prédio em construção. Erivan Galdino da Silva, um vizinho, socorreu o menino e levou-o para o Hospital Regional de Ceilândia. De lá, Marcos foi encaminhado para atendimento no Hospital de Base do DF (HBDF).
O garoto sofreu queimaduras no abdome, na mão esquerda, punho direito e nos pés. Na tarde de ontem, ele fez exames no Hospital Regional da Asa Norte (HRAN) para saber a gravidade das lesões. Provavelmente, ele passará por cirurgias plásticas para se recuperar das queimaduras. No HBDF, foi submetido a uma tomografia, que indicou a presença de uma hemorragia na cabeça. Marcos ficará em observação nas próximas 48 horas para uma avaliação de seu quadro clínico.
Transtorno
A mãe de Marcos, Edilair Barbosa, permaneceu desde a tarde do acidente, na terça-feira, até o meio-dia de ontem ao lado do filho. Quando retornou para casa, não conseguia esconder o transtorno. Limitou-se a dizer que Marcos era um menino ativo e que estava chocada com resultado da brincadeira. Edilair trabalha em um restaurante em Samambaia e tem outras duas filhas.
Três técnicos da Companhia Energética de Brasília (CEB) estiveram na manhã de ontem no prédio em construção de onde Marcos caiu. A CEB também informou que a distância do prédio à rede de energia elétrica supera os dois metros exigidos por lei. Os moradores acham que o prédio está perto demais da rua, por onde passa a rede de energia elétrica.
Até o final da tarde de ontem, os agentes da 26ªDelegacia de Polícia (Samambaia) ainda não haviam iniciado as investigações do caso. Segundo informaram os policiais de plantão, os depoimentos devem começar hoje. O Instituto de Criminalística já realizou perícia no prédio em construção.
O acidente com Marcos serviu de alerta para amigos e vizinhos do garoto. ‘‘Poderia ter sido com o filho de qualquer uma de nós’’, comentou Cleusani Costa Lopes, esposa do homem que socorreu Marcos. Os moradores dos conjuntos 1 e 2 da QR 402 reclamam que, há alguns meses, o segurança que vigiava a obra não aparece. O local é cercado apenas por um muro de madeirite com um metro e meio de altura. Até as 21h de ontem, nenhum representante da Moda Engenharia — responsável pela obra — foi localizado pelo Correio.
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Disputa que pode matar
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A aplicação do cerol passou a ser prática comum entre os empinadores de pipa. Ele deixa a linha mais resistente e é usado nos combates aéreos travados pela meninada. A mistura de pó de vidro e cola passada no fio serve para cortar a linha da pipa do ‘‘adversário’’. Ao ter o fio cortado, a pipa cai e é disputada por crianças que acompanham o ‘‘duelo’’ — também chamado de cruza, pois os fios das pipas se cruzam no ar. No ar, vence quem tiver a melhor linha (as mais grossas) e o cerol mais cortante.
No Setor P Sul, em Ceilândia, o pequeno espaço que há para se empinar pipas tornou perigosa a disputa. ‘‘Geralmente quem usa cerol vem no fim da tarde’’, revela um garoto de 12 anos. Vasilhas com vidro amassado são facilmente encontradas próximas a árvores. Ali mesmo a perigosa mistura é preparada.
O militar reformado Valmir Ribeiro, 64 anos, morador do P Sul, se diz um especialista em pipas. Ele conta que já participou de concursos, vencidos por ele com pipas de mais de dois metros. Valmir confessa já ter usado cerol em suas pipas na juventude, mas hoje reprova o artifício. ‘‘Antigamente os espaços para se soltar pipa eram mais amplos. Hoje, você está soltando aqui e ali já tem alguém correndo, uma moto passando. Um perigo’’, alerta.
Há alguns anos, motoqueiros e ciclistas se tornaram as principais vítimas do perigoso brinquedo. O corte é ainda mais profundo quando a vítima está em movimento. Alguns motoqueiros chegam a instalar antenas na parte dianteira das motos para acusar a presença do fio com cerol na rua quando passarem.
CUIDADO, GAROTADA
Não solte pipas em dias de chuva, principalmente se houver relâmpagos.
Evite brincar perto de antenas, fios telefônicos ou cabos elétricos. Procure locais abertos como praças e parques.
Tente soltar pipa sem rabiola, como as arraias. Na maioria dos casos, a pipa prende no fio por causa da rabiola.
Não empine pipa em cima de lajes e telhados.
Jamais utilize linha metálica, como fio de cobre de bobinas ou cerol (mistura de cola com caco de vidro). Também não faça pipas com papel laminado. O risco de choque elétrico é grande.
Tome cuidado com ruas e lugares movimentados, principalmente quando andar para trás. Pode ter algum buraco ou pista.
Atenção especial com as motociclistas e ciclistas — a linha pode ser perigosa para eles. Fique atento para que a linha não entre na frente deles.
Se a pipa enroscar em fios, não tente tirá-la. É melhor fazer outra. Nunca use canos, vergalhões ou bambus.
Ao correr atrás das pipas, muito cuidado com o trânsito.
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