Marcos Savini
Da equipe do Correio
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| PEQUENA MOENDA DE CANA PORTÁTIL resultou das andanças de Debret pelas lojas do Largo da Carioca |
Rio de Janeiro, Cidade Mestiça — Nascimento da Imagem de uma Nação é dessas publicações tão necessárias que a gente se pergunta por que não havia acontecido até agora. Ela reproduz 70 das 149 aquarelas e comentários realizados pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e compilados por ele próprio em Viagem Pitoresca ao Brasil, que de 1834 a 1839 teve 200 cópias lançadas em Paris para um público ávido por imagens do Novo Mundo trazidas por expedições de naturalistas e artistas animados pelo espírito do Iluminismo.
As 70 aquarelas reunidas em Rio de Janeiro, Cidade Mestiça são as que Debret pintou em primeira mão, focando o cotidiano urbano de um Brasil que experimentava a transição de mera colônia, rústica e atrasada, a centro do império da família real portuguesa, que aqui chegara em 1808 fugindo das tropas de Napoleão. Debret também retratou indígenas e paisagens do interior do país, mas quase todas a partir de relatos, e não por meio da observação direta. Por isso, suas aquarelas do Rio de Janeiro são consideradas as mais interessantes do ponto de vista da crônica documental.
A edição de brasileira, originalmente publicada pelas edições Chandeigne de Paris, é caprichada, com impressão em papel vergé das reproduções das aquarelas. As imagens vem acompanhadas dos comentários feitos pelo próprio Debret. Sua intenção, na época, era a de saciar a curiosidade de seus compatriotas franceses pelas paisagens e costumes das populações mestiças das distantes terras americanas.
Hoje, as aquarelas de Debret são um acervo precioso para que os brasileiros redescubram e se espantem com seu próprio país, com sua herança escravocrata, mestiça, sensual. Fica a pergunta: por que não havia até hoje uma publicação competente e acessível dessas imagens? O livro agora lançado pela Companhia das Letras tem outra grande qualidade, que é a dos ótimos textos de apresentação e contextualização histórica, assinados por Patrick Straumann, organizador da edição; pelos historiadores Luiz Felipe de Alencastro e Serge Gruzinski, e pelo romancista guineense Tierno Monénembo.
Jean-Baptiste Debret chegou ao Brasil em 1816, na missão francesa de Joachim Lebreton, o ex-diretor da Academia de Belas-Artes da França revolucionária. Depois da queda de Napoleão e do retorno dos Bourbon e do ‘‘antigo regime’’, ambos haviam caído em desgraça. Debret, ainda mais amargurado por uma separação e pela morte de seu filho, viu-se compelido a optar por duas propostas vindas de países longínquos.
A primeira, feita pelo czar Alexandre I, seria para São Petesburgo, na Rússia. A segunda, para o Rio de Janeiro, acompanhando Lebreton (então exilado na Bélgica) na missão de artistas franceses que iriam fundar a Academia Real de Ciências, Artes e Ofícios patrocinada pela monarquia lusitana recém-instalada no Brasil.
A idéia da missão francesa foi dada ao príncipe-regente dom João VI pelo naturalista alemão Alexander von Humboldt, que fora um discípulo de José Bonifácio de Andrada e Silva na escola de minas de Freiburg. Os portugueses do Rio de Janeiro espantavam-se com a presença de revolucionários franceses a serviço da família real portuguesa que Napoleão expulsara da ex-metrópole.
Debret e seus colegas, por sua vez, retratavam, com vistas a um público europeu, uma sociedade de castas, onde escravos e senhores conviviam entre um misto de intimidade e sadismo — hábitos tão distante dos ideais iluministas e românticos de igualdade e liberdade. O Rio de Janeiro tornou-se fonte inesgotável de imagens sensacionais, nas quais era possível combinar uma estética do exotismo com um olhar acurado sobre as misérias humanas da sociedade brasileira de então. Não por menos suas aquarelas são comparadas pelo historiador Serge Gruzinski ao ‘‘miserabilismo’’ comercial das imagens fotográficas de um Sebastião Salgado.
Os tempos eram propícios às grandes expedições científicas e artísticas. O Brasil, ao lado do México, era um dos destinos preferidos de pintores e naturalistas. O texto de Gruzinski, aliás, é um instrutivo resumo desse movimento de sábios atraídos para as Américas em pleno Iluminismo europeu. Pena que as referências e as comparações realizadas pelo historiador não sejam acompanhadas pelas aquarelas de outros retratistas do Novo Mundo, como o foram Franz Post, Johann Moritz Rugendas, Hasn Staden, Christoph Weiditz ou Edouard Pingret.
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