André Augusto Castro
Da equipe do Correio
No filme Vivendo e Aprendendo (This Year’s Love, 1999), o personagem de Dougray Scott, Cameron, é um pintor que não lava os cabelos. O hobby dele é procurar anúncios de mulheres em anúncios de jornais, na tentativa de descobrir com qual delas teria maiores possibilidades de conseguir sexo. A situação parece distante no frio bairro de Camden Town, em Londres (Inglaterra). Mas, na verdade, não é bem assim.
Basta ler a seção de recados nos Caderno de Classificados do Correio para encontrar anúncios de pessoas que procuram companhia. As opções são as mais variadas: de gente que quer compromisso sério até quem deseja somente realizar fantasias sexuais. São homens, na maioria, e mulheres que apostam nas letrinhas impressas no jornal como chance de conseguir um amor ou até mesmo uma boa aventura.
Esse último é o caso do ajudante de reformas Roberto, 30 anos. No anúncio, ele busca mulheres loiras para realizar fantasias. Mas assume que não foi sempre assim: ‘‘Eu já publiquei anúncios para conseguir companhia mesmo. Até deu certo’’. Ele conta que saiu com várias pessoas, mas não encontrou alguém que realmente o interessasse o suficiente para namorar. Por isso, resolveu partir para a ação. ‘‘Dessa vez, eu queria mesmo era aventura. Por isso, nem deixei de sair para paquerar. O anúncio vai servir mesmo como complemento’’, explica Roberto.
A aventura que tanto parece encantar Roberto não é o que outros ‘‘colegas’’ de anúncio buscam. Paulo, músico de 37 anos, por exemplo, quer encontrar mulheres para relacionamento sério. Tanto que chegou a se casar com uma pessoa que conheceu por meio de um anúncio. A união não durou muito, mas ele continua tentando encontrar alguém. ‘‘O intuito dos meus anúncios é encontrar uma pessoa com quem eu entre em sintonia. Alguém com quem eu possa viver’’, explica. Paulo anuncia primeiro a religião — ‘‘Homem evangélico procura...’’ —, para ganhar credibilidade. Depois, diz o que quer.
Ele tem experiência nesse tipo de anúncio. Começou há oito anos e se vê em condição até de dar dicas para quem é novo no ramo: ‘‘Os melhores dias para anunciar são as quartas, quintas e sextas-feiras’’. Paulo começou a publicar anúncios no jornal porque considera Brasília uma cidade com muitas pessoas solitárias que têm medo de aproximações de estranhos. O músico até superou o receio de sofrer trotes ou ação de pessoas com más intenções.
‘‘O telefone serve como um filtro. Conversando com a pessoa, dá para perceber qual é a intenção dela’’, explica. Além disso, conta, quem não quer nada sério recusa-se a marcar encontros. Apesar de trabalhar na noite tocando em bares, Paulo diz que não mistura trabalho com paqueras. ‘‘Saio muito pouco para paquerar e também não quero perder tempo com isso. A vantagem dos anúncios é essa: agiliza e deixa as conversas objetivas’’, afirma.
Distância
A maioria dos entrevistados apontou a solidão e a distância entre as pessoas como motivos para publicar os anúncios. Muitos deles também revelaram indisposição para sair e paquerar e cansaram-se de relacionamentos superficiais. ‘‘É mais fácil conhecer pessoas dessa forma, porque cada parte envolvida sabe exatamente o que quer. Não é necessário sair por aí paquerando’’, explica Armando, 23 anos.
Segundo Ileno Izídio da Costa, professor-assistente de Psicologia Clínica na Universidade de Brasília (UnB) e terapeuta conjugal e familiar, os anúncios de jornal queimam uma etapa da paquera no jogo da sedução: ‘‘Quando uma pessoa responde ao anúncio, fica estabelecida a relação, sem qualquer esforço de quem anunciou’’. Para ele, anunciar-se em classificados é um subterfúgio para evitar o risco de receber um não na paquera, de expor os sentimentos ou de ficar submetido à avaliação física e da conversa.
De acordo com o psicólogo, todo relacionamento implica em poder. Quando quem anunciou recebe a resposta para o anúncio, automaticamente começa a relação com o poder. ‘‘A pessoa tem a chance de dizer sim ou não. Pode escolher com quem vai sair’’, explica Izídio. Segundo ele, quem encara a noitada e paquera acaba aprendendo a construir um sim a partir de vários nãos recebidos e que a relação de poder, nesse caso, é construída pouco a pouco.
Izídio explica que o anúncio serve para estimular a fantasia de quem lê e que é preciso levar em conta a possibilidade de ele não ser verdadeiro. ‘‘Apesar disso, não dá para observar, em princípio, nenhum desvio de comportamento por parte de quem resolve anunciar-se’’, explica.
No filme, Cameron não se dá muito bem. É bem verdade que consegue sexo. Dos homens do filme, é o que mais tem ‘‘namoradas’’. Mas não é feliz. Quando acredita ter encontrado alguém, é trocado e acaba o filme como começou: volta à caça dos anúncios de jornal e a não esperar nada de qualquer relação.
Ao contrário do personagem de Vivendo e Aprendendo, a cabeleireira Jéssica, 30 anos, não quer mais saber de anúncios. Recebeu tantas ligações que, durante mais de duas semanas, viveu apenas para atender o telefone. Percebeu que há muitas pessoas solitárias que realmente querem companhia, mas que também há muita gente em busca apenas de sexo ou um caso. Jéssica perdeu o encanto inicial que tinha pelos anúncios. Solteira e com dois filhos — um de 4 anos e outro de 6 —, acreditava que quem procurava os classificados tinha um objetivo: ‘‘É diferente de disque-amizade ou das boates. Nesses lugares, só há aventureiros’’.
Ela conta que nunca gostou de sair para ‘‘caçar’’ e também não gostava de ‘‘ficar’’ com as pessoas. Com receio de publicar o anúncio, reconhece que, apesar de ter recebido muitas ligações, marcou apenas um encontro. E em local público para não correr riscos. ‘‘Não vou mais anunciar. As pessoas só querem sexo mesmo’’, conclui, desapontada.
*Os nomes utilizados na reportagem foram trocados, a pedido dos entrevistados
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