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02 de fevereiro de 2002
Tema do Dia
racismo
Uma rotina de ameaças

Roriz já xingou políticos, adversários e até um juiz. Ameaçou oposicionistas, incitou a população contra oficiais de Justiça e chegou a afirmar, em público, que um desembargador amigo o favoreceria em um processo

Se nas cerimônias oficiais, na presença de autoridades, o governador Joaquim Roriz não desgruda os olhos dos discursos preparados por seus assessores, nos eventos populares a regra é oposta. Para desespero de sua assessoria, ele faz questão de não seguir nenhum protocolo. Fala o que vem à cabeça, hábito que já lhe rendeu inimigos e processos judiciais.
  Roriz gosta de desfiar ironias e até xingamentos contra os opositores políticos. Já prometeu benesses impossíveis de cumprir, ameaçou militantes, ofendeu juizes, políticos e até incitou invasores contra oficiais de Justiça que desempenhavam suas funções. Outra gafe que se repete é criticar ou dizer que não vai cumprir uma decisão judicial — para, no discurso seguinte, reiterar o respeito ao Judiciário e às suas determinações.
  Apesar de o verbo solto freqüentemente resultar em denúncias de ofensa moral, poucos são os episódios que têm conseqüências práticas contra o governador. Dos inúmeros pedidos de afastamento e ações de improbidade administrativa já apresentados contra Roriz, nenhum transitou em julgado até hoje.
  ‘‘Quando a ação em questão envolve um bem relevante, seja econômico, seja moral, o processo naturalmente tramita com maior cuidado. No caso, como são ações que envolvem um governador de Estado, há uma maior preocupação com o amplo direito de defesa e que sejam esgotados todos os recursos possíveis’’, explica o desembargador Mário Machado, presidente da Associação de Magistrados do Distrito Federal (Amagis). (Carolina Nogueira)


Língua solta

Kleber Lima 24.10.01
No Recanto das Emas, em outubro, inconfidência rendeu processo

OFENSA PESSOAL

27 de setembro de 1994
Durante a campanha eleitoral de 1994, o governador desceu o nível do discurso ao se referir à então candidata ao GDF Maria de Lourdes Abadia, hoje sua aliada e secretária de Coordenação das Administrações Regionais. ‘‘Não vou permitir que aquela piranha venha aqui pedir votos’’, disse o governador, em um carro de som, durante um comício em Santa Maria. Na época, Abadia afirmou que Roriz era despreparado. ‘‘É uma vergonha que o primeiro governador eleito do DF não saiba se posicionar em uma campanha’’, disse. O episódio levou Abadia a pedir ao Tribunal Superior Eleitoral a interferência de tropas federais na campanha eleitoral, o que acabou não acontecendo.

PRECONCEITO CONTRA PETISTAS

5 de julho de 2000
Durante a inauguração de um posto de saúde em Riacho Fundo II, o governador Joaquim Roriz fez uma série de ataques a petistas: ‘‘Não se misturem com essa gente. Não aceitem essa gente. Expulsem-os daqui’’. Em seguida, a incitação à violência: ‘‘Se tiver alguém aqui da cor vermelha, cuidado. Ele está correndo risco de vida. Se algo acontecer, não tenho culpa’’. Os ataques voltaram a se repetir no dia 21 de outubro, em solenidade no Recanto das Emas, quando Roriz disse, em discurso, que ‘‘essa gente não tem coragem de entrar onde está o povo’’. E continuou: ‘‘Vem falar aqui agora. Para falar com o governo precisa estar preparado. Se não está acostumado a apanhar, vai apanhar neste momento.’’ Por causa dessas declarações, o PT enviou uma representação à Procuradoria Geral da República e ao Ministério da Justiça. A denúncia não foi acatada pelo procurador Geraldo Brindeiro. O ministro da Justiça, José Gregori, deu um puxão de orelhas público no governador: ‘‘A bravata nunca é boa conselheira do homem público. Não vou permitir violência, parta de onde partir’’, afirmou.

QUINTAL OFICIAL

24 de julho de 2001
Em visita a uma invasão de quatro mil pessoas, que há vinte dias ocupavam um terreno na QNR 2 da Ceilândia, o governador Joaquim Roriz ofereceu o quintal de sua casa para abrigar os invasores, como garantia de que arrumaria lotes para todos. ‘‘Já dei lote a mais de 140 mil famílias. Agora chegou a vez de vocês!’’. Roriz disse ainda que, se fosse necessário, criaria uma nova cidade para abrigá-los ou, na pior das hipóteses, acolheria a todos no quintal de sua casa. Apesar das promessas, o problema dos invasores ligados ao Movimento dos Inquilinos da Ceilândia continua sem solução. No dia 26 de janeiro, eles foram expulsos dos jardins da Câmara Legislativa, onde passaram 90 dias acampados. Três dias mais tarde, os invasores mudaram de ponto. Ontem, acabaram retirados das margens da EPIA, na altura da entrada da Água Mineral, e prometem voltar à Câmara.

SENADORES BANDIDOS

12 de agosto de 2001
Durante a inauguração do Complexo Viário de Santa Maria, Roriz atacou dois colegas de partido, os senadores Valmir Amaral (PMDB-DF) e Wellington Roberto (PMDB-PB), por terem assinado um pedido de investigação das contas do metrô na Comissão de Fiscalização e Controle do Senado. ‘‘Aquilo (o pedido de investigação) é coisa de dois bandidos (...)’’, disse. Três dias depois, Roriz se retratou, em entrevista publicada no Jornal de Brasília. ‘‘O que houve foi um desabafo. Tenho o maior respeito pelo Senado Federal’’, desculpou-se. O senador Valmir Amaral move uma ação por danos morais contra o governador, em andamento no TJDFT.

DECISÃO DESRESPEITADA

17 de setembro de 2001
O governador incitou invasores contra duas oficiais de Justiça que tentavam fazer cumprir a ordem de reintegração de posse na área particular conhecida como Condomínio Itapuã II, em Sobradinho. ‘‘Não acato essa decisão do desembargador (João Mariosa). É uma grande injustiça o que estão fazendo com o meu povo (...) Os barracos serão reerguidos, o meu povo aqui ficará e, caso seja preciso, eu desapropriarei a terra’’, disse Roriz. As duas foram expulsas do local vaiadas e empurradas pelos invasores. A oficial de Justiça Nair Marcelino da Silva reproduziu a experiência em um relatório que foi enviado ao Ministério Público. No dia 6 de dezembro, promotores Antônio Ezequiel Neto, da Procuradoria de Defesa dos Direitos do Cidadão, e Zacharias Mustafa Neto, da Promotoria de Defesa da Ordem Tributária, apresentaram denúncia contra o governador por crime de responsabilidade. O pedido de impeachment está no Senado Federal, na fila para ser analisado.

JUIZ INCOMPETENTE

23 de setembro de 2001
Roriz atacou publicamente o juiz substituto da 3ªVara de Fazenda Pública do Tribunal de Justiça do DF, Carlos Frederico Maroja de Medeiros, que o condenou à perda dos direitos políticos por ter doado irregularmente 49 lotes para igrejas em 1993 e 1994. ‘‘Fui julgado por um substituto. Vamos ver no tribunal (segunda instância), onde tem homens competentes’’, disse. A declaração provocou reação negativa entre os magistrados locais. No dia 27 de setembro, o governador pediu desculpas aos juízes e desembargadores do TJDFT, por meio de um ofício enviado à sede da Associação dos Magistrados do Distrito Federal (Amagis). Na nota, Roriz afirma que ‘‘houve interpretações distorcidas veiculadas na imprensa local’’ a respeito do que havia dito.

AMIGO DESEMBARGADOR

24 de outubro de 2001
Durante a cerimônia de instalação do governo itinerante no Recanto das Emas, o governador declarou, em discurso, que um desembargador do TJDFT teria antecipado a ele que o beneficiaria em uma sentença. ‘‘Estava eu numa festa onde tinha oito desembargadores. Homens da melhor qualidade jurídica e de personalidade forte. Homens honrados. Um deles, na mesa de oito, me dizia ‘governador, a minha maior ansiedade hoje é aguardar o documento que está lhe processando porque você deu igreja. Eu serei relator, mas não vejo a hora de rasgar e mandar para o arquivo aquela porcaria’’’, disse ele. O processo a que Roriz se referiu é a ação de improbidade administrativa por causa da doação de lotes a igrejas, que impôs a ele a perda dos direitos políticos por cinco anos. A presidência do TJDFT apresentou denúncia à Procuradoria Geral da República, alegando que Roriz atingiu a honra de todos os magistrados do Tribunal. O procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, acatou a representação e denunciou Roriz ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Roriz já apresentou sua defesa e o processo está, agora, aguardando parecer da Procuradoria Geral.


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