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Brasília, sábado,
02 de fevereiro de 2002
Tema do Dia
Racismo
Aposentado é eleitor do governador

Chamado de ‘‘crioulo petista’’ por Joaquim Roriz, o pernambucano de 53 anos, diz que sofreu a maior humilhação da vida. Ele vive com a mulher e dois filhos em uma barraco de madeira em Brazlândia
Luiz Roberto Magalhães
Da equipe do Correio


Acácio Pinheiro
Marinaldo recebeu, em casa, a visita de um assessor dO governador e foi levado ao Governo itinerante, onde apareceu com uma camisa pró-roriz

11h55 na quadra 45 de Brazlândia, cidade a 50 quilômetros de Brasília. Em frente a um barraco de madeira, o carro da equipe do Correio Braziliense estaciona. Não há campainha. Depois de algumas batidas na porta de ferro, duas crianças a abrem.
— Por favor, gostaria de falar com o senhor Marinaldo.
— Meu pai saiu, responde Kyara, 11 anos, estudante da 5ª série. Ao seu lado, o irmão Valdson, 9, que cursa a 2ª série, observa, curioso.
  De repente, um grito. ‘‘O pessoal do Roriz levou ele (sic) embora’’, diz um militante do PT em Brazlândia, que preferiu não ser identificado. Ele aponta para um carro branco que dobra a esquina. Dentro dele, além do motorista, estava o pernambucano criado em Goiás Marinaldo Marcelino do Nascimento. Ninguém sabia do paradeiro do motorista aposentado.
  Sempre acompanhado de assessores de Roriz, Marinaldo reapareceu no encerramento do governo Itinerante em Brazlândia. Ainda anônimo entre as centenas de pessoas, Marinaldo caminhava ao lado de um homem. O militante do PT que havia levado o Correio à casa de Marinaldo apontou rapidamente para um senhor de estatura baixa, cabelos ralos e pele escura. Ele vestia uma camisa azul pró-Roriz, e a maioria das pessoas nem sequer o notou.
  A explicação de Marinaldo para a camisa foi simples. ‘‘Prefiro desprezar tudo. Sou um amigo do governador’’, disse, antes de ser afastado da reportagem do Correio pela pessoa que o acompanhava. ‘‘Não fala nada com esse aí, não’’, sussurrou o homem. Marinaldo foi juntar-se a Roriz no palanque.
  Marinaldo, entretanto, deu entrevista para o Jornal de Brasília. Auxiliado por Weligton Moraes, secretário de Comunicação, e por Carlos André Duda, secretário-adjunto, Marinaldo conversou com o jornalista João Pitella Júnior.
  O aposentado que foi chamado de ‘‘crioulo petista’’ por Roriz mora há sete anos em Brazlândia. Ele vive com a mulher — Francisca Barroso da Cunha do Nascimento, 40 anos, telefonista de um hotel no centro de Brasília — e o casal de filhos em um barraco de madeira de três cômodos, mais cozinha e banheiro. Costuma pedalar para encurtar as distâncias em Brazlândia, pois não tem carro.
  
Sem camisa vermelha
Segundo o depoimento da mulher, Marinaldo ficou muito abalado com as ofensas dirigidas a ele. O homem de 53 anos, que vestia calça marrom e camiseta bege com detalhes verdes, ouviu um retumbante coro de vaias incitadas por Roriz. Alguns mais exaltados ainda tentaram agredi-lo. ‘‘Ele nem tem camisa vermelha do PT em casa’’, conta Francisca. ‘‘Ele tem sim camisa vermelha do Flamengo’’, ressalta a mulher.
  O que o governador não sabia é que aquele ‘‘crioulo’’ não era petista. Marinaldo e Francisca votaram em Roriz nas últimas eleições. ‘‘Aqui em casa todo mundo é Roriz. O Marinaldo adora o Roriz. Ele até fez campanha para ele nas últimas eleições. Não ganhou nada, mas fez assim mesmo’’, recorda Francisca, que nega a afirmação do governador de que Marinaldo tenha sido motorista de Roriz. ‘‘Motorista? Não. Até onde eu saiba, não’’.
  Francisca não escondeu a indignação quando o marido chegou em casa e contou o que havia acontecido. ‘‘Ele se sentiu muito humilhado porque isso é um racismo grande.’’ Ela conta que Marinaldo explicou que tudo não passou de um engano. ‘‘Ele me disse que estava perto de uma faixa do PT e o governador pensou que ele fosse do PT também.’’
  Até as 22h30 de ontem, Francisca ainda não havia conversado com o marido. ‘‘Acho que ele ainda está lá com o governador’’. Apesar de ter se indignado com as palavras de Roriz, ela não opina se Marinaldo deve ou não processá-lo: ‘‘Isso eu não sei. Fico neutra’’.


ESTUDANTE GRAVOU A FITA

  As declarações do governador Joaquim Roriz em Brazlândia foram gravadas por um estudante de jornalismo de Brasília. O rapaz estava próximo do palanque armado na Vila São José na noite de quinta-feira. No momento em que Roriz chamou o aposentado Marinaldo Nascimento de ‘‘crioulo racista’’, os assessores do governador procuraram o universitário. Perguntaram se ele tinha gravado as declarações de Roriz e disseram para que ele apagasse a registro. O estudante enganou os assessores. Mostrou outro trecho da fita, sem registro algum, e disse que não havia gravado nada do discurso do governador. Logo depois, deixou o assentamento da Vila São José.


‘‘Aqui é uma calamidade’’

Antonio Siqueira
A família de Marinaldo mora em uma casa sem água encanada e esgoto

  O ‘‘crioulo petista’’ está longe de ser um agitador político. Pacato, aposentado da empresa TCB (Transportes Coletivos de Brasília), onde trabalhava na limpeza, Marinaldo Nascimento é o tipo que hoje vive para os filhos. Sua mulher, Francisca, é telefonista no Torre Palace Hotel e sai de casa ainda de madrugada para trabalhar.
  Com isso, as funções domésticas acabam sobrando para Marinaldo, que jamais reclamou. ‘‘Ele é o homem e a mulher da casa no assunto de cuidar da família’’, contou dona Edith da Silva, vizinha de Marinaldo. ‘‘Ele sempre foi muito carinhoso com as crianças e ninguém aqui nunca teve queixa dele’’, continuou.
  Com uma renda de um salário mínimo por mês (R$ 180) e mais R$ 300 de Francisca, a família nunca viveu uma vida financeiramente tranqüila. Moram em uma casa que não tem água encanada ou esgoto, mas o simples fato de terem se livrado do aluguel que pagavam na Quadra 5 Norte de Brazlândia é motivo de comemoração. ‘‘Pelo menos isso aqui é nosso’’, diz Francisca.
  Isso não alivia as críticas. ‘‘A situação aqui está horrível demais, é uma calamidade’’, desabafa. ‘‘O Roriz já deveria ter colocado água, esgoto e asfalto aqui. Já estamos morando há sete anos e até agora nada’’, continuou.
  ‘‘O problema da água é muito desagradável’’, reforçou outro vizinho, que preferiu não ter seu nome divulgado. ‘‘O carro-pipa passa de três em três dias e, como todo mundo enche as caixas d’água, tem perigo de ter até o mosquito da dengue por aqui.’’
  Para completar, tem ainda o problema da segurança. No final do ano passado, a mulher de Marinaldo foi assaltada, às 4h30, no caminho da parada de ônibus, quando seguia para o trabalho. ‘‘Eu dobrei a esquina e dois cara me pegaram. Um colocou um revólver na minha cabeça e outro mexeu na minha bolsa e levou R$ 130 que eu iria usar para pagar a prestação da televisão e do fogão.’’
  Justamente por saber das dificuldades e conhecer o caráter de Marinaldo que outro vizinho não escondeu a revolta quando soube da atitude de Roriz. ‘‘Foi uma atitude péssima. Ele falar ‘crioulo’ e ainda por cima pedir vaia foi horrível. Ele não merecia isso não’’. (L.R.M.)


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