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Brasília, terça-feira, 05 de fevereiro de 2002
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terras públicas Lotes fora da lei
Administradora de Santa Maria incluiu servidores públicos sem empresa registrada na lista de beneficiados para receber terrenos do Pró-DF.
Ministério Público Federal investiga pelo menos cem indicações suspeitas
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Ana Lúcia Moura
Da equipe do Correio
| Adauto Cruz 1.02.02 |
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| Lote na quadra CL 404: beneficiado trabalha no Departamento de Obras da Administração de Santa Maria e não tem registro na junta comercial |
Pelo menos 11 funcionários de confiança da administradora regional de Santa Maria, Maria do Socorro Lucena, foram indicados de forma irregular para receber lotes do Pró-DF, programa do Governo do Distrito Federal de distribuição de terrenos a empresários. Nenhum dos servidores tem registro de empresa na Junta Comercial do Distrito Federal — um dos critérios básicos para ser atendido pelo programa. O Ministério Público Federal investiga mais de cem outras indicações suspeitas.
Os servidores foram incluídos em outubro do ano passado em listas que somam pelo menos 800 pessoas contempladas com áreas comerciais em Santa Maria. A lista foi elaborada pessoalmente pela administradora e cinco diretores da administração, sob coordenação da Secretaria de Desenvolvimento Econômico.
Por determinação da secretaria, que controla a implantação do Pró-DF, a Administração de Santa Maria ficou encarregada de relacionar todos os empresários da cidade que estavam em áreas irregulares e deveriam ser transferidos para os lotes do Pró-DF. A administração podia autorizar a ocupação da nova área pelo empresário removido enquanto o processo era regularizado na secretaria.
A mudança foi usada para incluir os funcionários na lista, obtida pelo Correio Braziliense. Segundo o atual secretário de Desenvolvimento Econômico, Edimar Pireneus, os indicados estavam autorizados a ocupar os lotes, embora estivessem com documentos pendentes. ‘‘A ocupação da área só é autorizada depois de finalizado o processo de pedido dos lotes na secretaria, mas em Santa Maria teve de ser diferente porque havia um reordenamento territorial a ser feito. As pessoas eram indicadas e transferidas imediatamente para as áreas’’, explica.
A irregularidade com lotes do Pró-DF é a segunda denúncia recente contra Maria do Socorro. Ela é investigada pela Polícia Federal desde a semana passada por incluir a mãe, a filha, uma irmã e uma funcionária da administração em outra lista, desta vez de lotes residenciais. O procurador Luiz Francisco Souza, que iniciou uma investigação nos lotes do Pró-DF em Santa Maria, sugeriu à Polícia Federal que peça a quebra de sigilo bancário da administradora. ‘‘Há denúncias de que ela recebeu propina para incluir gente no Pró-DF’’, afirma.
Os funcionários incluídos na lista de lotes comerciais ocupam cargos comissionados na administração, vagas de confiança cedidas a pessoas que não prestaram concurso público. De acordo com a Lei Federal 8.112, que estabelece regras para os funcionários públicos, os servidores da administração não podem se beneficiar do programa. ‘‘A indicação de funcionários aos lotes do Pró-DF, concursados ou não, é ilegal e imoral. Todos os servidores indicados terão seus processos cancelados’’, afirma Edimar Pireneus.
Falsos empresários
De acordo com as regras do Pró-DF, somente empresários podem receber os lotes. Ao se inscrever no programa, eles devem apresentar projeto de implantação da empresa e o número de empregos que serão gerados. Aqueles que estiverem com o empreendimento funcionando em até dois anos podem comprar o terreno cedido com um desconto de 90%.
Nenhum dos funcionários indicados aos lotes, porém, tem empresas em Santa Maria. Laércio Bezerra de França, chefe da Seção de Conservação de Logradouros Públicos da administração, recebeu o lote G11 da CL 104 de Santa Maria. ‘‘Não sou empresário. Nunca fui. Transferi o lote para o meu cunhado, que trabalha no ramo de acabamento’’, admite.
Luiz Carlos Saraiva tampouco é empresário, mas ficou com um lote residencial na QR 307, onde nem deveriam existir terrenos do Pró-DF. ‘‘O lote é para a Central de Emergência de Santa Maria, uma entidade filantrópica. Só ficou no meu nome porque senão a área não saía’’, afirma. Segundo os critérios do programa, entidades não podem ser beneficiadas com terrenos.
Outro funcionário, Raimundo Nonato Rocha, já foi sócio de duas empresas ativas em Santa Maria, mas abandonou as duas sociedades há mais de cinco anos. Ele nega ser funcionário da administração, embora esteja lotado na seção de encarregados de turma e trabalhe como motorista, recebendo um salário mensal de R$ 550. ‘‘Não sou funcionário nem fui beneficiado.’’
Jurandir Balbino Ferreira, funcionário do Departamento de Obras, já cercou o lote. Ele quer vender material de construção. ‘‘Já trabalhei com isso. Quando soube que estavam liberando os lotes, procurei o Lázaro Marques (ex-secretário) e me inscrevi no programa, mas ainda não registrei minha empresa.’’ Outros funcionários não ocuparam os lotes indicados.
Maria do Socorro, que estava de férias e só voltou ontem ao trabalho apesar das denúncias, afirma desconhecer a existência de servidores na lista do Pró-DF. ‘‘Se funcionário recebeu, eu não tenho conhecimento. Não tinha como acompanhar o tempo todo, mas a partir do momento em que eu soube que tinham denúncias, eu chamei o secretário (Lázaro Marques). Falei que o trabalho teria de ser feito direto lá’’, justifica. Ela diz não temer a quebra de sigilo bancário. ‘‘Pago R$ 500 de aluguel, estou sempre no vermelho. Quem quiser o número de minha conta e minha senha pode me procurar.’’
Oito dos funcionários beneficiados com as indicações foram ouvidos pelo Correio. Dois deles, Márcio Gonçalves Ferreira e Elizabeth de Souza Ferreira, não quiseram dar declarações. Herberth dos Reis Perdigão e Rosane da Silva Alves afirmam não ter ocupado os lotes. Os demais foram procurados na administração, mas não foram encontrados. Funcionários do gabinete da administradora disseram que eles estão de férias.
FAVORECIMENTO A PARENTES
As denúncias contra a administradora de Santa Maria, Maria do Socorro Lucena, não se resumem a inclusão de funcionários da administração na lista de lotes do Pró-DF. O procurador da República Luis Francisco de Souza pediu à Polícia Federal, no último dia 23, a abertura de inquérito contra ela por falsidade documental, ideológica e possível estelionato. Maria do Socorro é acusada de incluir a mãe, a filha, uma irmã e uma funcionária da administração em outra lista de lotes, desta vez preparada pela Secretaria de Habitação para assentar em Santa Maria invasores do Parque Guará. Segundo o Ministério Público, os parentes e a funcionária nunca moraram na invasão. Mesmo assim, receberam os lotes e estão construindo as casas.
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Pireneus revê todos os processos
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A lista de indicações de empresas que deveriam ser transferidas de áreas irregulares para os lotes do Pró-DF em Santa Maria já deu muita briga entre os empresários locais e a administração da cidade. Provocou ainda um jogo de empurra entre a administradora Maria do Socorro Lucena e o então secretário de Desenvolvimento Econômico, Lázaro Marques.
Ela afirma que o secretário participou, junto com a administração, das indicações aos terrenos. Lázaro Marques nega. Ele diz que só teve acesso aos nomes dos indicados depois de concluída a lista e autorizadas as ocupações. ‘‘Cancelei, pouco antes de sair da secretaria, mais de 200 processos onde os beneficiados eram funcionários, parentes de funcionários e até servidores do ICS (Instituto Candango de Solidariedade)’’, justifica Marques. ‘‘O secretário também fez suas indicações’’, ataca a administradora.
Lázaro Marques deixou o cargo no dia 3 de dezembro, quando foi substituído por Edimar Pireneus. As reclamações dos empresários de Santa Maria, aliadas às suspeitas de irregularidades, levaram Pireneus, a embargar no início de janeiro todas as áreas para avaliar as listas de indicações existentes até então. Algumas das listas foram publicadas no Diário Oficial do DF, em novembro do ano passado. ‘‘A situação era caótica. Tinham diferentes indicações da administração e da secretaria para um mesmo lote, por exemplo’’. Os casos estão sendo reavaliados e as áreas, aos poucos, liberadas.
Favorecimento
A confusão nas indicações aos lotes começou no início do segundo semestre do ano passado, quando a Companhia Imobiliária do Distrito Federal (Terracap) colocou quase 800 lotes à disposição do Pró-DF em Santa Maria. O governador Joaquim Roriz determinou então que os empresários e comerciantes que ocupavam, há quase 10 anos, lotes irregulares na cidade fossem transferidos para os lotes do Pró-DF.
Uma comissão de cinco funcionários da administração foi nomeada para fazer as indicações das novas áreas, orientados pela administradora e Lázaro Marques. Nessa fase do processo, em outubro de 2001, os funcionários da administração foram incluídos na lista e autorizados a ocupar os lotes.
Denúncias de outros favorecimentos surgiram e protestos de comerciantes foram feitos na administração. ‘‘Incluíram na lista parentes de funcionários, gente que nunca teve empresa na cidade e até cabos eleitorais’’, denuncia o presidente da Associação Comercial de Santa Maria, Antônio Benjamim de Morais, conhecido como Samuka.
‘‘Estou sempre no vermelho’’
Maria do Socorro Lucena, administradora de Santa Maria, afirma desconhecer as irregularidades na lista de lotes do Pró-DF.
‘‘Pago R$ 500 de aluguel, estou sempre no vermelho. Quem quiser o número de minha conta e minha senha pode me procurar.’’
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Denúncias ao programa
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Terreno para ex-marido
Em outubro de 2001, a Associação de Comerciantes de Santa Maria acusa a administradora da cidade, Maria do Socorro Lucena, de incluir o ex-marido Jair Rodrigues Trindade Júnior na lista de empresários beneficiados com lotes do Pró-DF. Dono de uma clínica em Santa Maria, ele foi indicado para ocupar dois lotes na avenida comercial 115. A autorização, no entanto, só valia para empresários que estavam em terrenos irregulares. Após as denúncias, Jair Rodrigues abriu mão dos lotes.
Análise apressada dos processos
Em dezembro de 2001, o advogado Franklin de Oliveira, presidente do Sindigêneros — sindicato que reúne mercearias, açougues, padarias e similares — denuncia irregularidades no processo de seleção de empresas para o Pró-DF. Entre novembro de 1999 e novembro de 2000, ele participou do conselho encarregado de aprovar os pedidos de ingresso de empresas no Pro-DF. De acordo com o advogado, houve sessões, como a de concessão de lotes para o Setor Complementar de Indústria e Abastecimento (SCIA), em que foram analisados, de uma só vez, 120 processos.
Grampo de telefones
A divulgação de conversas telefônicas entre o chefe de gabinete do secretário de Desenvolvimento Econômico, Lázaro Marques, e um ex-assessor do mesmo secretário lançaram em julho de 2000 suspeitas sobre o Pró-DF. As conversas tratam de andamento de processos do programa na secretaria mencionando propinas para a liberação de lotes. Pelos diálogos registrados, o presidente da Associação dos Revendedores Autônomos de Automóveis do DF (Agenciauto), Cléber Pires, recebeu R$ 5 mil dos donos de agências de veículos interessados em conseguir lotes. As conversas também citam o Grupo Pão de Açúcar, que recebeu do Pró-DF duas áreas em lugares nobres da cidade em tempo recorde. Uma sindicância instalada pela própria secretaria inocentou Lázaro Marques das denúncias. As fitas, no entanto, são objeto de ações civis em tramitação no Tribunal de Justiça do DF.
O médico de Roriz
O Centro Brasileiro de Cirurgia de Olhos, clínica oftalmológica com sede em Goiânia, assinou em fevereiro de 2000 um contrato com o GDF para construir uma filial brasiliense em um lote de 12 mil m² na quadra 613/614 Sul. A clínica, que tem como clientes o governador Joaquim Roriz, conseguiu um excepcional desconto para se instalar em Brasília. Os proprietários tiveram a oportunidade de pagar um quinto do valor do terreno, oferecido por R$ 2,7 milhões em média em licitações da Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap). O caso é investigado pelo promotor Zacarias Mustafa, da Promotoria da Ordem Tributária.
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