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Cala-te, boca
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‘‘Ali está um crioulo petista, que eu quero que vocês dão uma salva de vaias nele.’’ A frase foi dita pelo governador do Distrito Federal. A CBN a divulgou em rede nacional. Os grandes jornais a estamparam. Depois do ‘dão’, escreveram (sic). Os leitores ficaram em estado de choque.
Jorraram cartas e e-mails. Alguns criticavam a intolerância. Outros indignavam-se com a manifestação de racismo. A maioria reclamava do desrespeito à língua. Houve até quem não entendesse o porquê do sic intrometido na fala de Sua Excelência.
‘‘A coluna’’, intimou Marcelo Caetano, ‘‘não pode ignorar tantos desaforos. Tem obrigação de manifestar-se.’’ Falou e disse. No jornal, leitor tem mais poder que o chefe. Mandou? Está mandado.
Pilatos
O sic veio do latim. Quer dizer assim, desse jeitinho. Nós o usamos para fazermos as vezes de Pilatos. As três letrinhas vêm depois de uma palavra com grafia incorreta, desatualizada ou com sentido inadequado ao contexto. Aparece sempre entre parênteses. Com ela, damos este recado ao leitor: o texto original é bem assim. Sem tirar nem pôr. Não tenho nada com isso.
Xô, preconceito
Há palavras que estão no dicionário. São gramaticalmente corretas. Durante anos foram usadas sem provocar reclamações. Mas os tempos mudaram. Os conceitos também. Agora, sabe-se que elas ofendem, magoam ou reforçam preconceitos. É o caso de judiar. O vocábulo lembra judeu. Sem querer, o falante faz a associação. Melhor usar maltratar. Bicha, sapatão entram na lista dos politicamente incorretos. Homossexual, travesti ou lésbica são mais adequados. Preto, crioulo, escurinho não escapam. São formas disfarçadas de racismo. Por que não usar negro?
Salva de vaias
‘‘Salva de vaias?’’, estranha a leitora Guacira Bastos. Ela estava no Fórum Social de Porto Alegre quando ouviu a CBN. Não acreditou nos próprios ouvidos. Mas os ouvidos às vezes enganam. Culpa do uso. Normalmente recorremos a ‘salva de’ para homenagear, aplaudir: O presidente foi recebido com uma salva de 21 tiros. O apresentador pediu uma salva de palmas para o calouro.
Salva significa repetição ou grande número — de sons, ruídos, palavras, ditos. Daí a salva de vaias.
Coisas do sujeito
‘‘Eu quero que vocês dão uma salva de vaias’’, disse o governador. O ouvido doeeeeeeeeeeeeeeeeeee. Culpa do subjuntivo. Esse modo é pra lá de especial. Ególatra, pertence à família de sujeito, subjetivo. Exprime desejo, pedido, súplica, suposição, dúvida. Quem fala não tem certeza de ser atendido. A razão é simples. O falante faz a parte dele. O outro vai levar em conta? Sabe-se lá.
Em geral, o subjuntivo apresente um fato dependente de outro. Por isso aparece em oração subordinada introduzida por que.
Veja:
Quero que ele saia cedo.
Receio que ele faça bobagem.
Temo que os seqüestradores fujam.
Mais exemplos
Suponho que os chilenos sejam os seqüestradores.
*Exijo que todos façam a sua parte.
*Espero que Maria tire boas notas no concurso.
*Duvido que Paulo saiba a lição.
Salva de vaias
Ao falar em salva de vaias, Roriz manifestou um desejo. Recorreu ao verbo querer. Aí, não havia saída. Tinha que dar vez ao subjuntivo:
*Quero que vocês dêem uma salva de vaias a ele.
Queria tanto...
Há frases que manifestam desejo. São optativas. A gente torce para que alguma coisa aconteça. Aí, o subjuntivo pede passagem. Poderoso, dispensa a oração principal. Aparece sozinho:
Seja feliz.
Deus te guie.
Passe bem.
Durma com Deus.
Faça boa viagem.
Mais uma
O governador deu mais um tropecinho. Dessa vez, na regência do verbo dar e no emprego do pronome relativo. A construção correta seria: Ali está um crioulo petista a quem eu quero que vocês dêem uma salva de vaias.
Mas essa é outra história.
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