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Não quero roubar a mulher de ninguém
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Vida de cronista é caixinha (eletrônica) de surpresas. Não há santo dia em que lá não descubra algo digno de reflexão. São afagos, críticas e histórias curiosas que, de alguma maneira, refletem, a alma das minhas-duas-dúzias-de-leitores.
Setenta por cento desses e-mails são enviados por mulheres. Elas, mais sinceras e francas que os homens, estão sempre dispostas a me afagar. Ou a me apedrejar.
Nos últimos dias, dois e-mails me provocaram reflexões. Andreza F., do alto de seus 23 aninhos, me deixou sem dormir por três dias consecutivos, tal a contundência de epístola eletrônica que enviou. Ameaçou: ‘‘Sei que este e-mail vai te desagradar, as (sic) vezes ele vai beirar a crueldade, mas leia até o fim, foi escrito com esmero.’’
Mas já no parágrafo seguinte manda o prometido esmero para o espaço. Escreveu: ‘‘Mudei me (sic) para Brasilia (sic) a (sic) dois meses ja (sic) entendo as siglas e outras coisas do brasiliense. O que fiquei chocada (???) foi com a falta de acuro (sic) do Correio Braziliense. Sou graduada em Letras pela UFMG em Lingua (sic) Portuguesa e Grega, e estarei fazendo exames para o mestrado em Literatura Grega este mes (sic). Faz cinco anos que pesquiso e dedico minha vida para (sic) minha grande paixao (sic), a literatura. Porque (sic) estou te falando isso? Porque talvez voce (sic) possa aprender algo com uma contista iniciante de 23 anos. Seria muita pretencão (sic)?
Pela quantidade de erros em único parágrafo, teremos de inferir que, se depender da pretensiosa leitora, o futuro da literatura brasileira não será nada venturoso.
Outro e-mail a me provocar reflexões foi enviado por Fernanda C, leitora deste cronista há muitos carnavais. Há algum tempo escreveu-me contando estranha história, que relembra agora: ‘‘Tinha um namorado que morria de ciúme de você, só que ele sofreu um grave acidente de carro e faleceu. Passei muito tempo mal, fiquei um bom tempo sem ler as suas crônicas. Todas as vezes que abria o Correio, pulava a sua parte, pois me fazia lembrar dele.’’
Macaco velho, gato escaldado (sei que, às vezes, leitores carregam nas tintas para que o cronista escreva sobre eles), preferi achar que o e-mail da leitora era, digamos, licença poética e o ignorei.
Agora Fernanda C. volta ao tema: ‘‘Agora já estou bem, mas tem uma coisa interessante acontecendo. Estou namorando novamente e pareçe (sic) coisa do destino: ele também morre de ciúmes de você. Será que você é uma ameaça aos homens?’’
Resposta do cronista: eu, se fosse você, continuaria lendo a Crônica da Cidade e mantendo os namorados. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Juro: não quero roubar a mulher (ou o homem) de ninguém.
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