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06 de fevereiro de 2002
Educação
ENSINO
É preciso investir em qualidade

Pesquisa da Unesco aponta melhoria no acesso às escolas de nível fundamental em 19 países da América Latina. Brasil está bem colocado em número de matrículas, mas é campeão em repetências e tem índices muito ruins em analfabetismo
Da Redação
Carlos Moura
André repetiu duas vezes, está na 5ªsérie e promete que agora vai estudar com mais afinco

As estatísticas educacionais da América Latina evoluíram bastante na última década. De acordo com estudo da Unesco — órgão das Organizações das Nações Unidas (ONU) para Educação e Cultura — divulgado ontem, o continente latino-americano conseguiu matricular 97% das crianças em idade escolar, de 7 a 14 anos, no ensino fundamental. Por outro lado, a pesquisa, que tem como base dados de 1998 e 1999, revela que os altos índices de repetência e evasão escolar ainda vão exigir um grande esforço dos países, incluindo o Brasil, para alcançar um nível razoável de qualidade educacional.
  O estudo, que analisou somente os 19 países do continente onde se fala português ou espanhol, traz boas e péssimas notícias para o Brasil. Nosso país conseguiu colocar 100% das crianças em idade escolar no ensino fundamental, segundo o relatório. Tal taxa só foi alcançada por nações com maior tradição em educação que o Brasil, como a Argentina e o Uruguai.
  A análise sobre os percentuais de repetência entretanto, coloca os brasileiros em último lugar. No ensino fundamental, o índice nacional (24%) é quase 10% maior que o do segundo, a Guatemala (15%), país que, em geral, possui os piores indicadores. No ensino médio, o Brasil também encabeça a lista dos piores. A cada ano, 18% dos alunos desse nível de ensino reprovam. Na Colômbia e no Paraguai, a taxa é de apenas 4%.
  André Felipe de Souza, ilustra bem a realidade educacional brasileira. O morador de Sobradinho tem 13 anos e cursa a quinta série do ensino fundamental — a idade correta seria 11 anos. ‘‘Repeti duas vezes. Foi culpa das faltas e da Matemática’’, explica. O estudante trabalha como engraxate para ajudar no sustento da família, formada pela mãe, empregada doméstica, e três irmãos. Mas André promete que agora vai se dedicar mais aos estudos. ‘‘Não quero mais dar desgosto para a minha mãe’’, diz.
  A taxa de analfabetismo brasileira continua figurando entre as piores do continente: 15% entre os homens e 16% entre as mulheres. Só estamos na frente da Nicarágua, El Salvador, Guatemala, Honduras e República Dominicana. O Uruguai é o melhor nesse quesito no continente.
  No ensino superior, o Brasil também não vai bem. Enquanto na Argentina, 47% da população na idade universitária, de 18 a 24 anos, está cursando algum curso superior, no Brasil são apenas 14% — só ganhamos de Honduras e Nicarágua, que possuem 12%.
  Para a coordenadora de Educação da Unesco no Brasil, Maria Dulce Borges, os números da pesquisa revelam que os países têm um longo caminho até alcançar um patamar de excelência no ensino. ‘‘Os indicadores, no geral, são altamente positivos. Mas, a qualidade ainda deixa muito a desejar. Esse é o grande desafio do continente’’, afirma.


Levantamento
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A importância da pré-escola

As 77 milhões de crianças com idade entre 7 e 14 anos matriculadas no ensino fundamental são uma claro sinal de esforço na América Latina. Quatro países — Argentina, Bolívia, Brasil e Uruguai — alcançar o índice de 100%. O pior patamar é o do México, com 75% de meninos e meninas em sala de aula. ‘‘O continente teve que priorizar esse nível de ensino e obteve, conseqüentemente, bons resultados’’, diz Maria Dulce Borges. Segundo ela, o investimento feito pelas nações ainda vai render bons frutos a longo prazo.
  O relatório da Unesco também aponta que nações que investem em educação desde o berço das crianças acabam alcançando os melhores resultados. Quem incentiva a pré-escola, como Cuba, onde 96% das crianças de 0 a seis anos estudam, tem índices mais positivos em todos os níveis de ensino posteriores. No Brasil, apenas 42% dos meninos e meninas nessa faixa etária estão matriculados — 72% desse total em escolas particulares, recorde do continente.
  Além da repetência, outro problema sério do continente é a evasão escolar. Na Argentina, 94% dos alunos que começam a cursar a primeira série chegam até a quinta série. Já em El Salvador, apenas 40% completam o mesmo caminho. ‘‘Só poderemos comemorar esse dados quando tivermos certeza que esses alunos cumpriram todo o período do ensino fundamental em sala de aula’’, afirma Carlos Jamil Cury, conselheiro do Conselho Nacional de Educação (CNE).


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