COISAS DA VIDA - Matérias
1° CADERNO
Capa
Índice
Últimas
Opinião
Tema do Dia
Saúde
Cidades
Segurança
Política
Cultura
Economia
Mundo
Educação
Guerra
Esportes
A Foto do Dia
GUIA
Memória do Correio
Grita Geral
Matérias
Divirta-se
Tome Nota
Tevê
COISAS DA VIDA
Almanaque
Matérias
SUPLEMENTOS
Este é Meu!
Lugares
COLUNAS
Brasília-DF
Crônica da Cidade
Dicas de Português
Mil Coisas
Passaporte
Valéria Blanc
.web
CAPA - PDF
Capa em PDF
ESPECIAIS
Código de Ética
SETE DIAS
Domingo
Segunda
Terça
Quarta
Quinta
Sexta
Sábado
      
Brasília, quarta-feira,
06 de fevereiro de 2002
Matérias
Filmes que o Brasil não viu

Obras censuradas nos tempos da ditadura continuam inéditas. Algumas delas foram proibidas para exibição por motivos curiosos. Muitos censores avaliavam longas e curtas como se fossem críticos de cinema
Denise Assis
Do no.com.br


Divulgação
Cena do filme A dama do Lotação, de Neville D’Almeida: a obra sofreu 13 minutos de corte da censura federal, o que não impediu que se tornasse um sucesso de público

Hoje o Brasil sabe muito sobre a censura nos anos de chumbo. Mas agora poderá saber melhor o que exatamente foi censurado, e mais, com que humor os censores decidiam seus cortes. Em 1972, o cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, por exemplo, não foi alvo só da tesoura, mas também da ira de sua censora. ‘‘Se não fugisse à minha alçada, seria o caso de sugerir a prisão do produtor pelo assassinato à sétima arte, pois não foi outra coisa que ele realizou ao rodar o presente filme’’, escreveu a chefe da turma da censura cinematográfica da época, em seu parecer sobre o filme À Meia-noite Encarnarei em teu Cadáver.
  Trinta anos depois, Mojica Marins é um cult e sobreviveu para conhecer melhor quem o assombrava. Esses registros estão disponíveis no Arquivo Nacional, que catalogou e higienizou filmes examinados pela Censura Federal de 1968 a 1988. O trabalho é da equipe da Coordenação de Documentações Audiovisuais e Cartográficos do Arquivo Nacional, onde está guardado o acervo.
  Até a extinção do Departamento de Censura e Diversões Públicas da Polícia Federal, em 1988, cerca de 25 mil filmes foram submetidos à censura. Os documentos mostram que o regime militar não considerava o cinema o meio mais perigoso para propaganda subversiva. O ambiente da sala escura é descrito como ‘‘estranho ao espectador’’, o que acionaria o seu ‘‘autocontrole’’, tornando-o menos ‘‘receptivo às imagens negativas que chegam ao seu subconsciente.’’
  Segundo José Ivan Calou, coordenador substituto da seção de audiovisuais do Arquivo, nem sempre os pareceres expunham o motivo da censura. ‘‘Os censores seguiam critérios técnicos. O que tornava a censura ainda mais arbitrária eram as interferências das camadas superiores.’’ Ivan ilustra o que diz com o filme Queimada, do italiano Gillo Pontecorvo, que foi liberado pelos censores, mas ao ser visto por um general no cinema foi imediatamente interditado a pedido dele. O motivo eram referências ao colonialismo na América Latina.

Minutos proibidos
Cortes feitos em filmes que ficariam famosos, como A Dama do Lotação, de Neville D’Almeida (1977), podem parecer hoje mais obscenos do que a cena que se quis esconder. No parecer que determina os 13 minutos proibidos no filme, assinado pelo diretor da DCDP, o censor Rogério Nunes, está escrito: ‘‘Cena do interior de um ônibus — cortar desde o momento em que a câmera detalha os movimentos do homem comprimindo o sexo nas nádegas de Solange, até que os dois são focalizados da cintura para cima.’’
  Apesar do corte, o filme foi um sucesso. ‘‘Com esse filme Deus me deu de volta tudo o que perdi. Só não recuperei os dez anos de privação material’’, diz Neville D’Almeida, que tem vários produtos inéditos. Um deles é Jardim de Guerra, de 1967, com roteiro dele e de Jorge Mautner.
  Os censores eram treinados para ler nas entrelinhas. E mesmo que elas não existissem, eles as encontravam. O desenho Tom & Jerry, por exemplo, ensejou longo debate. A polêmica terminou com o veredito da censora Lenir de Souza, que concluiu que a dupla não oferecia ameaças. ‘‘Seu objetivo principal é motivar a criançada a defender os mais fracos e a repelir a desonestidade.’’


Erros de gramática

  Na proibição de Guerra dos Pelados, de Silvio Back, em 71, o censor hesita quanto ao real perigo do filme, mas é firme na agressão à gramática. Roberto Antônio Coutinho escreveu tratar-se de um filme ‘‘de mensagem duvidosa e conteúdo perigoso, por conter tortura, violência e ainda talvez de fundo subversivo, sem nenhuma solução passífica (sic).’’ A paz não parecia ser sua especialidade.
  Os censores às vezes mostravam seus cacoetes de críticos de cinema. Com sotaque próprio, evidentemente. José Mojica teve o seu Quando os Deuses Adormecem liberado em 28 de janeiro de 1972 pelo censor Osmar Fialho para maiores de 18 anos e com cortes. No parecer, ele justifica a falta de qualidade: ‘‘O filme apresenta imagens negativas de miséria, favelas, bordéis, traições, cenas sexuais excitantes, que o exime da exibição aos menores de 18 anos. Por conter cenas desprimorosas para o Brasil e pela ausência de uma técnica mais perfeita (excesso de representação — falta de autenticidade), opino pela liberação sem as chancelas de boa qualidade e de livre exportação.’’
  Mais sorte teve Tenda dos Milagres, de Nelson Pereira dos Santos. Caiu nas mãos das censoras Marlene R. Celani e Isabel Maria Martins de Carvalho, que abrem o parecer classificando-o como de boa qualidade e livre para exportação, além de tecerem rasgados elogios: ‘‘Um filme que honra a indústria cinematográfica nacional, tanto pelo enredo como pela técnica e atuação dos atores.’’ E prosseguem entusiasmadas: ‘‘O filme torna-se uma obra digna de ser vista pelos nossos jovens, considerando-se entretanto, algumas cenas de cama com pequeno erotismo, assassinato por um policial sem motivo e alguns palavrões que se encaixam devidamente no contexto.’’ Levando em conta o valor das ‘‘mensagens positivas da película’’, elas decidiram pela ‘‘liberação com impropriedade para menores de 16 anos, sem cortes.’’
  Unir sexo e religião era meio caminho para a gaveta. O filme Sexta-Feira da Paixão, inscrito por Livu Norbert Spiegler no Festival de Brasília em 1971, categoria curta metragem de 35mm, sequer chegou ao destino. Foi apreendido no Aeroporto de Congonhas pela Polícia Federal e, desde então, passou a existir só para os ofícios e memorandos.
  Os censores o descreveram assim: ‘‘É deprimente como se pretende, com esse filme, aviltar a religião, denegrir a Igreja, debochar com as mais caras tradições cristãs. O autor faz, no filme, o relacionamento da Paixão de Cristo com a paixão carnal, o ato sexual praticado naquele dia reverenciado pela Igreja. E como se isso não bastasse, o texto narrado no curso do filme — durante o qual são mostradas pinturas de atos sexuais e de nus — é todo ele debochativo, insultuoso. Isto posto, opino pela interdição deste filme, seja para o VII Festival do Cinema Brasileiro, seja para o circuito normal, por ferir às coletividades e à religião.’’ Sexta-Feira da Paixão continua inédito.


   Sonho de consumo  
   Aventuras de um andarilho  
   Madonna: um exemplo até para os conservadores   
   Divórcio faz bem   
   Contracepção comprometida   
   Velhas novidades  

  © Copyright CorreioWeb Fale com a gente Publicidade


.