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06 de fevereiro de 2002
Matérias
Aventuras de um andarilho

O escocês Rory Stewart quer cruzar o Afeganistão a pé. A caminhada de 960km deverá durar seis semanas
David Zucchino
Do Los Angeles Times


Fotos: David Zucchino/Divulgação
Stewart, 29 anos, tem certeza de que é o primeiro turista estrangeiro a entrar no Afeganistão desde a queda do regime talibã. Ele pretende narrar sua aventura em livro

Herat (Afeganistão) — No café da manhã de terça-feira, dia 29 de janeiro, Rory Stewart comeu quatro ovos fritos e um punhado de naan, espécie de pão afegão. Depois caminhou até a mercearia local e comprou 20 comprimidos do antibiótico Cipro, dois livros em inglês e um cajado. Enfim, ele estava pronto para cruzar o Afeganistão a pé.
  Stewart, um escocês educado em Oxford, iniciava sua caminhada de aproximadamente 960km em seis semanas, através de uma das regiões mais inóspitas do planeta. Ele pretende ir de Herat, no oeste do Afeganistão, até Cabul, no leste, enfrentando gelo e neve, bandidos e pistoleiros, lobos e cães de guarda, fome e sede.
  O escocês de 29 anos tem quase certeza de que é o primeiro turista a entrar no Afeganistão depois da queda do regime talibã, no ano passado. Ele é, sem dúvida alguma, o estrangeiro mais inusitado nas redondezas, com seu corpo esquelético e o sonho de percorrer o caminho que já foi traçado por Alexandre, o Grande, e Genghis Khan.
  Sua jornada o levará a uma região abandonada por milhares de camponeses que fugiram devido a um período de seca de quatro anos. Ele terá de subir a alturas onde uma estação climática russa registrou temperaturas recordes de 40 graus abaixo de zero.
  Quando o senhor da guerra de Herat, Ismail Khan, ficou sabendo dos planos de Stewart, levantou as sobrancelhas. Então ordenou que dois de seus soldados acompanhassem o estranho escocês em, pelo menos, parte de sua jornada. Os guarda-costas se juntaram a Stewart em uma rua empoeirada de Herat na tarde de terça, dia 29, carregando velhos sacos de dormir e com rostos aflitos. ‘‘Esses dois homens devem ter feito alguns inimigos’’, diz Stewart.
  Desde que abandonou sua promissora carreira no serviço estrangeiro britânico, há dois anos, Stewart conta que caminhou por Turquia, Irã, Índia, Paquistão e Nepal. Mas o grande desafio, segundo ele, era o Afeganistão, onde sua mãe percorreu parte da mesma rota nos anos 30, desta vez com um jipe Land Rover.
  Stewart está carregando pouco peso na viagem. A única comida em sua mochila é uma embalagem amarela de rações de emergência espalhadas por aviões americanos sobre o Afeganistão. Ele diz que planeja sobreviver comendo pão e ovos fornecidos por habitantes dos vilarejos por onde passará.
  Ele não leva mapas, dizendo que não quer ser confundido com um espião. Tem algumas páginas arrancadas de um guia do Afeganistão de 1977, um dicionário da língua dari, dois pares de meias, uma única muda de roupa e um saco de dormir. Além de antibióticos, ele carrega tabletes de cloro para purificar água.   Stewart diz que seus pais ficaram horrorizados quando ele abandonou o serviço britânico e agora estão doentes de preocupação. Com um telefone via satélite emprestado em Herat, o rapaz consolou sua mãe na Escócia na segunda-feira à noite, antes de partir. ‘‘Eu ficarei bem, mamãe’’, disse. Ele prometeu voltar para casa depois da caminhada.


Família de aventureiros

O jovem Rory vem de uma linhagem de aventureiros. Seu avô viveu em Calcutá, na Índia, por meio século, seu pai foi um diplomata britânico por 50 anos, servindo em Hanói durante a Guerra do Vietnã. O próprio Rory serviu na Indonésia e na Iugoslávia. ‘‘Espero que ele não seja bombardeado pelos americanos, como o pai foi em Hanói’’, diz a mãe, Sally.
  As páginas do guia que Rory está carregando não são muito encorajadoras. Elas citam trechos do diário do imperador Babur, que fez uma jornada semelhante no inverno do ano 1506. Babur escreveu sobre a neve chegando às selas dos cavalos, um guia que se perdeu em uma tempestade e sobre a difícil tarefa de conduzir os cavalos por uma montanha abaixo, com a neve na altura dos ombros dos homens. Mas ele também falou de finalmente chegar a uma vila com ‘‘casas aconchegantes, bom pão e ovelhas gordas’’.
  Stewart disse que se inspirou a caminhar pelo mundo durante um longo e melancólico passeio na Escócia: ‘‘De repente, eu pensei que seria mágico colocar um pé à frente do outro através do mundo, olhar para trás e ver minhas pegadas se esticando ao longo do caminho’’. Ele falou do ritmo macio de caminhar, das belas paisagens, das horas tranqüilas de reflexão e paz interior.
  Naquela terça à noite, Stewart jantou na cabana do chefe da vila Shaidayee, próxima a Herat. Comeu carneiro assado, batatas e arroz na manteiga. Logo ao amanhecer, seguiu para o leste.
  Stewart queria chegar à próxima vila antes do anoitecer. Tinha 960km para percorrer em seis semanas. Segundo ele mesmo, sua média é de 43km por dia em terreno plano e 11km na neve das montanhas. Sua idéia é obter uma carta de apresentação do líder de cada vila, endereçada ao líder da próxima vila no caminho.
  Com seu cobertor afegão marrom usado como capa e seu chapéu escuro, Rory parece um monge. O jeito monótono de bater no chão com o cajado deu-lhe um ar meditativo. Um pé depois do outro. Passos, passos, passos. Antes de o sol nascer sobre os picos prateados das montanhas Bande Baba, Rory Stewart era um pequeno ponto preto no horizonte.


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