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Brasília, quarta-feira,
06 de fevereiro de 2002
Tema do Dia
Saúde Pública
Tratamento maligno

Os equipamentos de radioterapia do Hospital de Base do Distrito Federal estão à beira do colapso. A radiação de algumas máquinas que deve alcançar a área atingida pelo tumor no organismo atinge também as células saudáveis
Guaíra Flor
Da equipe do Correio


Quem tem câncer no Distrito Federal não padece apenas da doença. Sofre também com o descaso, a dificuldade de conseguir tratamento e a necessidade de sair de casa para tentar a cura. O Distrito Federal é uma das únicas capitais do país sem um hospital público especializado no tratamento de câncer para adultos. Por isso, em torno de 50% desses pacientes é obrigada a abandonar a cidade em busca de melhora. A outra metade espera.
  As filas para tratamento da doença no Distrito Federal são pequenas no número de pacientes, mas longas no tempo de espera. Pode-se passar até dois meses aguardando atendimento especializado. Nesse meio tempo, o tumor cresce. Muitas vezes se espalha por outros órgãos, reduzindo as chances de cura. Os maiores prejudicados são os pacientes que precisam de radioterapia (radiação nuclear capaz de destruir células cancerígenas e evitar essa multiplicação). O tratamento é recomendado para tumores de pele, útero e próstata, entre outros. Justamente os de maior incidência no DF.
  O Hospital de Base é o único da cidade com serviço gratuito de radioterapia. Mas o tratamento funciona de maneira precária. Dos quatro aparelhos do hospital, três operam com potência menor que a recomendada (leia quadro na página ao lado). Um está pifado. A máquina para tratamento de tumores profundos — como medula e próstata — passou três meses quebrada. E pode parar novamente a qualquer momento, segundo um dos oncologistas do hospital, que preferiu não se identificar. Ele garante que a vida útil do equipamento acabou. Enquanto não se comprar outro, o paciente corre o risco de ficar sem tratamento a qualquer hora. E isso equivale, em muitos casos, a uma sentença de morte.
  Quem sofre de câncer de pele, cabeça ou pescoço enfrenta outro problema. A bomba de cobalto, usada nesses casos, ficou obsoleta. Como a radiação está baixa, é preciso expor o paciente por mais tempo ao tratamento. Por isso, os efeitos colaterais (como queimaduras e enjôos) são maiores. É como se os médicos tentassem matar um elefante com tiros de chumbinho. Pode-se até conseguir resultado, mas gasta-se mais munição e os estragos são enormes.
  
Impotência
A direção do Hospital de Base pediu, no ano passado, a compra de dois novos aparelhos de radioterapia. Mas o governo não teve verba para tanto. Somente um acelerador linear custaria mais de R$ 2 milhões. ‘‘É preciso melhorar o atendimento dos nossos pacientes com câncer’’, admite Dóris Luz, diretora da unidade de radioterapia do Hospital. ‘‘Mas sempre surgem situações de emergência, como a dengue, que recebem maior atenção.’’
  A impotência diante do câncer incomoda os médicos do hospital. Com medo de represálias, oncologistas, radioterapeutas e físicos preferem o anonimato. Mas não poupam duras críticas ao tratamento do hospital. Um deles diz ser terrível saber como salvar um paciente e não conseguir fazer nada, por falta de equipamentos. Justamente por isso, ele e outros colegas aconselham os doentes a buscar tratamento fora do DF. De preferência em Goiânia ou Anápolis, onde existem instituições especializadas na doença.
  A mudança faz bem para o corpo, mas não para a mente. ‘‘O ideal é ficar em casa’’, diz Inês Gadelha, da direção do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Segundo ela, o ambiente familiar ajuda na cura. Principalmente porque o tratamento de câncer é doloroso não apenas física, mas psicologicamente. O medo da morte ainda aflige a maioria dos pacientes. E nada melhor que o carinho das pessoas mais próximas para aliviar as angústias.
  ‘‘Conforto só temos na casa da gente’’, confirma a aposentada Santíssima Bernardi, 76 anos. Ela passou um mês em Anápolis lutando contra um câncer no colo de útero. E não tem motivos para reclamar do tratamento. As máquinas de radioterapia da unidade oncológica da cidade são modernas e os médicos atenciosos. Santíssima também contava com uma psicóloga, nutricionista e assistente social. O alojamento onde ficou hospedada era um brinco. Tudo muito novo e a menos de 50 metros do hospital. O único problema era a saudade. Da família e do quarto deixado no Lago Sul.
  ‘‘Preferia ter me tratado no DF’’, reclama. ‘‘A radioterapia é muito forte e os efeitos colaterais são ruins. Seria melhor estar em casa.’’ Infelizmente, Santíssima não teve alternativa. Na época em que procurou o Hospital de Base, uma das máquinas de radioterapia estava quebrada. Tinha também os problemas de infraestrutura. ‘‘Aquilo ali é um chiqueirão de porco’’, lamenta. ‘‘As cadeiras são duras, o banheiro é sujo e as máquinas vivem dando problemas. É um absurdo a capital do país não ter um hospital de câncer decente’’.


Pequena lutadora

Antonio Siqueira

‘‘Aquele negócio me comia por dentro. Eu me sentia tão mal que achava que nunca mais ia ver ninguém da família’’. Assim, Dona Isabel Santana, 74 anos, descreve o câncer que tem no colo do útero. Ela deu a luz a 14 filhos e garante: a dor do parto é menor que a do tumor. Moradora de São Sebastião, a pequena Isabel procurou o Hospital de Base em setembro. Lá, descobriu a doença, mas não o tratamento. Assim como tantos outros moradores do DF, ela foi obrigada a fazer as malas e lutar pela cura em outro estado. Longe dos filhos, netos e bisnetos. ‘‘A máquina que poderia destruir o tumor, lá em Brasília, estava quebrada precisava’’, lamenta. Por isso, desde setembro, Isabel mora em Anápolis. Mais exatamente no abrigo da unidade oncológica da cidade, junto com outros cinco pacientes vindos do Distrito Federal. Esta semana, Isabel conclui a primeira fase do tratamento. Na próxima, muda-se para Goiânia onde começa a segunda etapa. Somente daqui a três meses, a pequena senhora volta para capital federal. ‘‘Mas minha vontade maior é de ir embora para minha cidade natal, na Bahia’’, conta. O nome do município diz tudo: Saúde.


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