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06 de fevereiro de 2002
Opinião
Notícias do mundo

O escândalo da Enron, nos Estados Unidos, é revelador da futilidade com que as classes dirigentes estão tratando das coisas sérias. Nunca, na história, um parlamento se viu envolvido em tal falcatrua — nem mesmo nos países de formação política recente
Por Mauro Santayana

O escritor norte-americano Noam Chomsk disse uma constrangedora verdade em Porto Alegre: as classes dirigentes mundiais impuseram à civilização ocidental a cultura da futilidade. Outros pensadores, com formulações teóricas mais sofisticadas, já haviam chegado a essa conclusão, em pesados estudos sociológicos — mas Chomsk resumiu tudo em uma frase.
  A vida deixou de ser o grave mistério que conduzia os homens aos mosteiros e às bibliotecas, e que reclamava a negociação de acordos de convivência com o absoluto. Tudo se banalizou, e se banalizou também o mal — conforme o forte relato feito por Hannah Arendt do processo contra Eichmann em Israel. Se a notável pensadora judia estivesse viva, não há dúvida de que estaria, hoje, reclamando um processo semelhante contra Sharon: parcela do grande povo, ao criar o seu estado territorial, perdeu algumas das virtudes que havia reunido na Diáspora.
  O escândalo da Enron, nos Estados Unidos, é revelador da futilidade com que as classes dirigentes estão tratando das coisas sérias. Nunca, na história, um parlamento se viu envolvido em tal falcatrua — nem mesmo nos países de formação política recente. Grande parcela do Congresso norte-americano — de acordo com as informações da imprensa — fez apodrecer a instituição, herdeira direta daquele excepcional parlamento que se ergueu contra a corrupção dos Stuarts, e estabeleceu, com o sangue de um monarca e o posterior martírio de muitos de seus líderes, os alicerces da democracia moderna.
  Os Estados Unidos, acossados pelo escândalo, não cuidam de resolvê-lo de acordo com os remédios de sua Constituição. Na realidade, o próprio governo, nisso amparado pela Suprema Corte, nasceu de um processo eleitoral que podemos chamar de fútil, mas a serviço de um projeto definido. A recontagem dos votos da Flórida e a decisão dos juízes de um tribunal que teve, no passado glorioso, homens como Marshall, Taney, Douglas e Brandeis como seus membros, demonstram como a legitimidade de uma eleição presidencial foi tratada de forma ligeira, quase irresponsável.
  Sitiados por uma opinião pública que, não obstante o controle da mídia pelas grandes corporações, começa a mover-se, o governo dá um salto para a frente, anunciando sua cruzada contra os infiéis do Iraque e do Irã, da Coréia do Norte e da América Latina. Inverte-se a razão: com a erosão da economia argentina em conseqüência de seu alinhamento sistemático ao governo de Washington, o FMI condiciona sua ajuda a Buenos Aires à adesão prévia à Alca.
  E o Brasil? Conforme divulgam os jornais, a Agência Nacional de Energia aprovou um empréstimo de 200 milhões de dólares à Enron, mesmo depois de conhecida a sua falência fraudulenta. Se o Congresso Nacional não quiser ser contaminado por essa sujeira internacional, deve, imediatamente, proibir (como é de seu direito e dever constitucional) ao governo brasileiro qualquer ato novo favorável à Enron e constituir imediata comissão parlamentar de inquérito sobre as atividades da empresa no Brasil. Sabia-se há muito que o governo brasileiro estava disposto a favorecer a vida da Enron na América Latina.
  No fim da semana passada, anunciava-se que o governo cogitava de obrigar a Petrobras a desfazer-se do controle do gasoduto Brasil—Bolívia mediante a venda de 2% de suas ações na empresa subsidiária que irá operá-lo, a fim de se tornar acionista da Enron — que já está falida. Essa operação terá que ser imediatamente vetada pelo Congresso. Uma organização norte-americana que se atreve a corromper o próprio governo, com que procedimentos éticos atua nos países em desenvolvimento? A essa razão se acrescenta outra para uma CPI: o governo norte-americano está debitando à corrupção no Brasil a alta taxa de juros que pagamos ao exterior. O nosso país deve uma resposta ao mundo, e o governo, aos contribuintes brasileiros.


MAURO SANTAYANA É JORNALISTA



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