Por Cristovam Buarque
Muitos senhores diziam gostar de seus escravos como se fossem filhos. E muitos escravos gostavam de seus donos. Eram enganados em troca de pequenas concessões diárias. Para melhor explorar seus escravos, faziam agrados. Essa manipulação fez com que o Brasil fosse o último país a abolir a escravidão. O fim da escravidão substituiu o escravo pelo eleitor e os donos de escravos por políticos populistas. Dizem-se pais dos pobres e fazem agrados para enganar. Mas, de vez em quando, os senhores de escravos mostravam a realidade ao agarrar um escravo e amarrá-lo no pelourinho. Apesar dos agrados, desprezavam os escravos, como os populistas desprezam o povo.
O Brasil ficou surpreso com a manifestação de racismo e violência do governador do Distrito Federal, insuflando seus seguidores para agredirem uma pessoa negra que ele considerava ser da oposição. Enquanto diz gostar do povo, ameaça com violência um popular, ofendendo-o por sua raça. Com isso, envergonhou os brasilienses.
A população de Brasília não ficou surpresa porque o racismo da fala do governador está em seus atos contra os pobres que, na maioria, são descendentes da população negra brasileira. Ele fechou o Programa Saúde em Casa, prejudicando mais de um milhão de pessoas pobres. Tentou acabar com o Bolsa-Escola, que sua secretária de Educação acusou de criar muitos direitos para as empregadas domésticas. No Brasil, prejudicar pobres é quase o mesmo que prejudicar descendentes de negros. Não atender às necessidades dos pobres é uma forma de racismo. Ao relegar-se a escola pública e a saúde pública, a população negra foi a principal prejudicada.
Mas não foi só o racismo que ele repetiu. Desde seus primeiros comícios insufla seus seguidores dizendo para não permitirem a presença de ‘‘vermelhos’’. Comporta-se, assim, como um dos comandos do crime no Rio de Janeiro, que não permite a presença de pessoas vestidas de vermelho no Piscinão de Ramos.
Não faz muito, um trabalhador da Novacap foi assassinado durante manifestação, mas o crime não foi completamente apurado. Poucos meses depois, um líder sindical foi assassinado por policiais civis e nada foi feito. O governador ameaçou o deputado federal Agnelo Queiroz de linchamento. No lugar de cumprir sua obrigação de garantir a integridade física e o direito de cada cidadão, ele repete em seus comícios que não vai garantir a integridade física dos militantes da oposição, insuflando com isso seus seguidores a serem violentos contra os militantes dessa oposição.
A cada dia, militantes do PT sofrem constrangimentos e ameaças, como se vivêssemos no tempo em que o governo era comandado pelo dono da terra e das pessoas; como um latifúndio onde o dono não aceita contestação de petistas, ainda menos de petistas negros, e usa e abusa do dinheiro público como se fosse seu.
Nesse contexto é perfeitamente previsível o que deverá ocorrer durante as eleições de 2002. Depois de três anos sendo insuflados pelo governador, seus seguidores estão estimulados para agirem violentamente contra todos os opositores. Os militantes da oposição têm o direito e a obrigação de lutar por Brasília em toda parte.
O ex-ministro da Justiça José Gregori foi informado desse risco, o presidente da República não terá o direito de se dizer surpreendido com a violência que poderá ocorrer no Distrito Federal. Nem se sentir incomodado se o PT local for obrigado a pedir a presença de observadores internacionais para dar a necessária cobertura ao desempenho da liberdade ou até mesmo para garantir a vida dos militantes que fazem oposição ao governo na Capital da República.
CRISTOVAM BUARQUE, PROFESSOR DA UnB/CDS, É AUTOR DO LIVRO ADMIRÁVEL MUNDO ATUAL