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Brasília, quarta-feira,
06 de fevereiro de 2002
Cultura
Arquitetura
Niemeyer reluz em Paris

Exposição de fotos, desenhos e maquetes em homenagem ao criador de Brasília atrai multidão ao Museu Jeu de Paume. Ao mesmo tempo, o traço inovador do francês Jean Nouvel ocupa o Centro Georges Pompidou
Paulo Paniago
Enviado especial


Denise Andrade/Divulgação
Maquete da Catedral de Brasília na exposição do museu Jeu de Paume: Oscar Niemeyer é coqueluche na França, atraindo para exposição anônimos e autoridades francesas

Tina Côelho 27.8.96

Paris — É segunda-feira, mas quem se importa? O prédio com cara de que um dia foi um palácio inaugura exposição do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, 95 anos, que não compareceu por conta da longa viagem. Niemeyer é uma coqueluche na abertura da mostra no Jeu de Paume, um belo museu no Jardin des Tuilleries, bem perto do rio Sena. Chique também é o Jeu de Paume, guardado por leões de pedra e tudo. Na segunda, só entrou quem tinha convite, e não foi pouca gente.
  A arquitetura niemeyeriana está desde ontem à disposição do público geral, por iniciativa da BrasilConnects. Vai concorrer com o arquiteto francês Jean Nouvel, cuja exposição a algumas quadras dali, no Centro Georges Pompidou, fica em cartaz até o dia 4 de março, com visitas de 1,2 mil pessoas durante a semana e 1,8 mil no fim de semana. Ele é o mais cotado para construir a filial do Guggenheim no Rio de Janeiro.
  Niemeyer, como deixa bem clara a frase enorme que chama a atenção logo na parede da entrada, não liga para retas e quer saber das curvas livres e sensuais que marcam o trabalho. Ali estão os desenhos e maquetes para provar. E, sim, é possível mesmo reconhecer que há traços de semelhança entre alguns projetos. O arquiteto é o primeiro a reconhecer, juntando no mesmo desenho as linhas dos projetos para Caracas (1954), o Museu de Arte Contemporânea em Niterói (1995) e o Museu de Curitiba (2001, ainda não concluído), para que o público veja logo. Aliás, se olhar com cuidado, o espectador familiarizado com o projeto da Universidade de Brasília vai também reconhecer o traço do minhocão na Universidade de Constantine, na Algéria.
  ‘‘Quando ele molda em concreto, Niemeyer consegue levar o Brasil a um outro patamar de cálculos de engenharia’’, exalta Cecília Scharlach, curadora associada (o outro é Daniel Abadie) e amiga pessoal do arquiteto, que gosta de falar que uma solução aparentemente simples, como a casa Rotschild, consumiu 34 esboços. Mesmo assim, Cecília garante: ‘‘Ele desenha como quem respira.’’
  Talvez por isso Niemeyer tenha tanta consciência da própria obra a ponto de querer valorizá-la ao máximo. Num dos projetos não realizados, por exemplo, o do aeroporto de Brasília (inspirado no traçado redondo utilizado no aeroporto Charles de Gaulle), ele defende a importância de se construir um bom aeroporto para cidade cujas linhas lhe pertencem: ‘‘Será, sem dúvida, a porta de entrada da cidade e a primeira impressão que fica para os visitantes desta capital’’, registrou no papel o arquiteto.
  O público que comparece maciçamente com casacos pesados contra o frio parisiense mistura gente muito conhecida como Jacques Lang (ex-ministro da Cultura e atual ministro da Educação) e Michel Duffour (secretário de Estado do Patrimônio e da Descentralização Cultural), e outros menos conhecidos, como o arquiteto Jean-Jacques Ahnoun, que traduz bem o sentimento de todos ali, enquanto enrola o bigode: ‘‘Soberbo.’’ Qual a opção? Concordar com ele. Soberbo, esse arquiteto amante de curvas sensuais.

truques tecnológicos
Jean Nouvel montou seu show midiático de larga escala no Centro Pompidou. Na entrada, foto enorme, em preto-e-branco, põe em contraste a severidade da cabeça raspada a zero e de um sorriso entre maroto e sedutor. O arquiteto francês (nascido em Fumel, em 1945) cultiva aura de inovador (não há maquetes na mostra, mas sobram os truques tecnológicos, como vídeos em pequeno formato com filmes a respeito da arquitetura de Nouvel ou computadores para que o visitante conheça melhor alguns projetos).
  O teórico Paul Virilio diz no catálogo que Nouvel quer inscrever a estática das construções que desenha numa ‘‘cinemática‘‘. É fato, o tal Nouvel, que mora em Paris, mas esta semana está no Japão acompanhando um projeto, gosta de movimento, tanto que a torre Agbar (142 metros) que está sendo erguida em Barcelona é cheia de espelhos que se movem. Na foto em grande escala que anuncia a exposição do lado de fora do Centro Pompidou, a torre está pronta.
  É difícil não se comover diante da exposição bem montada, cheia de recursos, como a sala enorme que projeta fotografias de seus projetos nas paredes. Talvez seja necessário ser parisiense como Matilde Sobon para notar que mesmo curadores calejados como os do Pompidou cochilam em serviço. É ela quem lembra que ‘‘esqueceram de avisar ao lado de cada projeto qual foi realizado e qual permanece no desenho.’’
  Se você se encanta com o Museu da Evolução Humana, por exemplo, construído dentro de uma caverna, não adianta bater perna atrás dele na vida real, porque ele não existe. Já a Ópera de Lyon, com assinatura de Nouvel, está lá, foi construída entre 1986 e 1993. Ponto para Matilde Sobon, portanto.


O jornalista viajou a convite da BrasilConnects



SERVIÇO
OSCAR NIEMEYER
Exposição de fotos, desenhos, filme e maquetes em homenagem ao arquiteto Oscar Niemeyer (foto). Até 31 de março, no Jeu de Paume (Place de la Concorde).

JEAN NOUVEL
Exposição de desenhos, fotos, projeções a respeito do trabalho do arquiteto Jean Nouvel. Até 4 de março, no Centro Georges Pompidou



   Temática nazista no Festival de Berlim  

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