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Brasília, quarta-feira,
06 de fevereiro de 2002
Tema do Dia
SAÚDE PÚBLICA
Radiação descontrolada

O Correio teve acesso a documentos que comprovam a crise na oncologia do Hospital de Base. Faltam higiene, máquinas adequadas, remédios... Comissão Nacional de Energia Nuclear recomendou a suspensão do tratamento na instituição

De tudo, falta um pouco. Respeito pelos pacientes, principalmente. Câncer, hoje, não é prioridade para Secretaria de Saúde do DF. Apesar de fazer parte do cotidiano de mais de 4 mil brasilienses. Médicos existem. E dos bons. Mas faltam equipamentos para eles trabalharem. Os investimentos no setor são escassos. Não passam de reparos em máquinas quebradas e compra de alguns medicamentos.
  ‘‘Nem parece que estávamos na capital do país’’, critica o pintor Aorelindo Cunha, 57, morador de São Sebastião. ‘‘Os médicos acharam um tumor na minha garganta em junho, mas só comecei o tratamento em outubro porque a biópsia não ficava pronta e a radioterapia estava quebrada.’’ Aorelindo está a três meses em Anápolis, onde faz radioterapia.
  O aposentado José Cupertino Damasceno, 79 anos, teve menos sorte que o pintor de São Sebastião. Depois de dois meses à espera de tratamento no Hospital de Base, ele morreu, vítima de um câncer na próstata. ‘‘Não dava para ele sair da cidade’’, lamenta o genro, Wilson Augusto Costa, 36 anos. ‘‘Ele sentia muitas dores e não queria ficar longe da família.
  Os pacientes não são os únicos a reclamar do atendimento do Hospital de Base. O Correio teve acesso a documentos que comprovam a crise na radioterapia e oncologia da instituição. Nele, constam problemas de todos os tipos. Falta higiene e as máquinas estão defasadas. Um parecer da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) recomendou a suspensão da radioterapia. O relatório faz parte de uma auditoria promovida pelo Ministério Público do Distrito Federal em 2000.
  Um das principais denúncias do documento é a falta de calibração das máquinas. Esse desajuste afeta a precisão do tratamento. E se a radiação atingir células saudáveis — ao invés das cancerígenas — pode provocar até mesmo novos cânceres.
  Infelizmente, a advertência da CNEN não é suficiente para fechar um hospital. No máximo proíbe-se a aquisição de novas fontes radioativas. Enquanto isso, médicos e pacientes se expõem à radiação descontrolada. Aqui e em outros estados – o DF não é a única área com problemas na radioterapia. Em Minas Gerais, por exemplo, médicos foram contaminados por agulhas de césio 137, utilizadas em braquiterapia. ‘‘Enquanto os fiscais não detiverem poder para interditar hospitais e outras instituições, situações como essa continuarão acontecendo em todo o país’’, constata Paulo Borges, presidente da Associação dos Fiscais de Radioproteção e Segurança Nuclear (Afen). Vale lembrar que o acidente com o césio 137, em Goiânia, ocorreu justamente porque jogaram uma máquina de radioterapia no ferro-velho. Prova da falta de fiscalização do setor.
  
Carro velho
Segundo a auditoria do Ministério Público, a radioterapia do HBDF atende, em média, 79 casos por mês. Menos da metade do necessário, já que a procura é de 187 pacientes a cada 30 dias. Na quimioterapia, são cerca 65 doentes, mas a demanda é três vezes maior.
  A boa notícia é que uma das máquinas de radiação quebradas voltou a funcionar em janeiro. A assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde garante que o problema foi resolvido. E promete: não há o risco dela parar novamente. Médicos e enfermeiros duvidam. Segundo eles, o acelerador linear está igual carro velho. Vive parando e só dá prejuízo. Por isso, é melhor não contar com ele por muito tempo.
  O pessoal da Unidade Oncológica de Anápolis pensa da mesma maneira. ‘‘Quando todas as máquinas do Hospital de Base funcionam, passa um tempo sem vir gente de Brasília para cá’’, explica Valdirene Lúcia Luz, assistente social da Unidade Oncológica de Anápolis. ‘‘Mas o pessoal do DF sempre volta a nos procurar, porque a máquina de radioterapia quebra de tempos em tempos.’’
  Na opinião da diretora da radioterapia do Hospital de Base, Dóris Oliveira, é normal isso acontecer. ‘‘Mesmo equipamentos novos quebram’’, argumenta. A melhor maneira de acabar com o problema seria adquirindo novos aparelhos, que funcionem paralelamente. Se um quebra, o outro continua o atendimento. Assim como em Goiânia e outros estados.
  O problema é arrumar dinheiro para essas compras. ‘‘A comunidade tem uma força muito grande e só quando ela se unir pelo combate ao câncer, o governo fará o mesmo’’, afirma Dóris. (Guaíra Flor)

DEMANDA

65 pacientes com tumor maligno são tratados na quimioterapia do Hospital de Base por mês. A demanda é três vezes maior


Mudança de hábitos

Antonio Siqueira

Só mesmo o câncer foi capaz de fazer Aorelindo da Cunha Filho, 57 anos, maneirar no vício do cigarro. Fumante desde os 10 anos, ele descobriu um tumor maligno na garganta em junho do ano passado. ‘‘Parar mesmo eu não consegui’’, afirma. ‘‘Mas agora são no máximo três cigarrinhos por dia.’’ Um progresso para quem fumava dois maços a cada 24 horas. Aorelindo tentou tratamento no Hospital de Base, mas não conseguiu. Por isso, fez as malas e se mudou para Anápolis com o filho Gilvam, 27 anos. A casa é cedida pelo hospital onde faz rádio e quimioterapia desde outubro. ‘‘O tratamento não dói, mas queima um pouco por dentro’’, conta. ‘‘Melhor que ficar em Brasília, de um lado para outro, atrás de tratamento’’


Boa companhia

Antonio Siqueira

Casimiro Nascimento, 84 anos, completou 58 anos de casado na Unidade Oncológica de Anápolis, mês passado. ‘‘Preferia estar em Brasília com meus filhos, mas não deu’’, lamenta. Desde novembro, ele não sai de Goiás. Lá, tenta destruir um tumor de próstata. No Distrito Federal, a fila para o tratamento era de um mês. O médico do Hospital de Base pediu para ele não esperar. Obediente, Casimiro fez as malas e foi buscar a cura. Junto com a inseparável esposa, Onorinda da Silva, 78 anos.


Esperança

  Se os adultos passam por dificuldades no tratamento, a garotada não tem do que reclamar. Ela tem o Hospital de Apoio, atrás do Setor Militar Urbano (SMU), só para atendê-la. Lá, conta com atenção especializada e muito carinho. ‘‘Hoje, só sai de Brasília paciente com indicação de transplante de medula ósseo ou com câncer no olho’’, diz José Jayme Bastos, vice-diretor do hospital. O câncer infantil, em geral, é tratado com quimioterapia. Radioterapia só em casos extremos de câncer de cérebro ou coluna. Como a resistência do organismo das crianças é maior que a dos adultos, elas agüentam bem o tratamento quimioterápico. O Hospital de Apoio recebe cerca de 200 novos casos de câncer por ano. (GF)


   Tratamento maligno  
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