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Brasília, quarta-feira,
06 de fevereiro de 2002
Saúde
ERRO MÉDICO
Passado condena Caron

O cirurgião plástico, acusado pela morte de Adcélia Martins de Souza durante lipoaspiração, tem extensa ficha na polícia. Em São Paulo, responde por crimes como desvio de verbas públicas e furto
Renato Alves
Da equipe do Correio


Nehil Hamilton
Caron espera julgamento dos processos que tramitam em São Paulo

A ficha criminal do médico Denísio Marcelo Caron é longa. Histórias escabrosas envolvendo o cirurgião plástico de 38 anos ultrapassam as salas cirúrgicas. Além das quatro mortes de pacientes em lipoaspirações feitas por ele, o profissional responde a processos por estelionato, desvio de dinheiro público, formação de quadrilha, furto, uso de documentos falsos e falsificação de documentos públicos e particulares. Todos tramitam na Justiça de São Paulo. O acusado aguarda julgamento.
  Paulista de São José do Rio Preto, Caron ficou conhecido em Brasília depois de reportagem publicada no Correio que revelou a morte da secretária da Terracap Adcélia de Souza, operada por ele no Hospital Anchieta, em Taguatinga, no dia 29 de janeiro. Outra paciente, a universitária Graziela Oliveira, 26, que também passou por lipoaspiração em 8 de janeiro, está em coma há duas semanas. Em Goiás, há seis processos e 35 sindicâncias (25 por mutilações em plásticas) contra Caron no Conselho Regional de Medicina do estado.
  Dentre os processos que estão na Justiça paulista contra Marcelo Caron, um deles trata do desvio de dinheiro do Sistema Único de Saúde (SUS) e de formação de quadrilha. Ele e 11 colegas do Hospital Dr. Mário Gatti, em Campinas, são acusados pelo Ministério Público Federal de receber por plantões que nunca fizeram, em 1997. Nesse hospital, aliás, Caron garante ter feito residência médica em cirurgia plástica.
  Caron responde também por um furto, ocorrido em 3 de janeiro de 1996 no sítio de uma ex-namorada, no município de Tuiuti, interior paulista. O médico é acusado de ter roubado um cofre com jóias e talões de cheques. O processo está suspenso por um benefício previsto em lei. O réu assinou um acordo com o Ministério Público de São Paulo em fevereiro de 1997, que o obriga a prestar contas a um juiz bimestralmente, o impede de mudar de cidade sem comunicação prévia à Justiça, entre outras sanções.
  O promotor de Justiça responsável pelos casos das pacientes brasilienses de Caron, Diaulas Ribeiro, da Promotoria de Defesa dos Usuários dos Serviços de Saúde (Pró-Vida), se surpreendeu ao saber dos processos que o médico enfrenta em São Paulo. ‘‘Acredito que estamos diante de um novo Hosmany Ramos (leia quadro acima). Vou levar essas acusações em consideração nas decisões que tomarei nos próximos dias’’, disse o promotor. Marcelo não foi encontrado ontem para dar entrevista.


SEQÜESTRADOR DE JALECO

O cirurgião plástico Hosmany Ramos, 56 anos, era um profissional bem sucedido no Rio de Janeiro dos anos 70. Assistente de Ivo Pitanguy, freqüentava as principais colunas sociais do país. Em 1981, seu nome saltou para as páginas policiais dos jornais. Foi condenado a meio século de cadeia por roubo, seqüestro e pelo assassinato de dois cúmplices. Fugas cinematográficas aumentaram sua fama — foi o primeiro a fugir do presídio de segurança máxima de Taubaté (SP). Em 1996, ganhou o benefício de regime semi-aberto. Deixou as grades e não voltou. Foi preso novamente pelo seqüestro de um empresário em Minas Gerais. Recebeu mais 30 anos de prisão.


Investigação é concluída

  Os depoimentos das últimas três testemunhas sobre a morte de Adcélia Martins de Souza no último dia 29 fecharam o ciclo de investigações da 12ªDelegacia de Polícia, em Taguatinga Centro. A mulher sofreu três paradas cardíacas causadas por hemorragia durante lipoaspiração comandada pelo médico Denísio Marcelo Caron. Os delegados ouviram os relatos da instrumentadora cirúrgica que participou da operação, Eudaciene Alves de Souza; do cardiologista que implantou um marcapasso para reanimar Adcélia logo após as paradas cardíacas, Nestor Sabatovich; e do diretor-superintendente do Hospital Anchieta, Délcio Rodrigues.
  Segundo o delegado que acompanha o caso, Paulo César Barongeno, os depoimentos tiraram dúvidas sobre o laudo do Instituto Médico Legal. ‘‘Queríamos confirmar, por exemplo, que corte causou a hemorragia interna que matou Adcélia’’, explica Barongeno. Segundo o advogado de Sabatovich, Arnaldo Mundim Júnior, o cardiologista implantou o marcapasso na paciente por meio de um corte de quatro centímetros no tórax, que não causou hemorragia. O depoimento está de acordo com o laudo do IML que atribuiu o problema a perfurações feitas por caneta de lipoaspiração.
  O relatório final indicia Marcelo Caron por homicídio culposo (sem intenção de matar). ‘‘Houve erro médico e imperícia durante a cirurgia’’, afirmou o delegado. O inquérito seguirá para a Promotoria de Defesa dos Direitos dos Usuários dos Sistemas de Saúde (Pró-Vida) do Ministério Público do DF. O promotor Diaulas Ribeiro apresentará ao Tribunal do Júri de Taguatinga denúncia contra Caron por homicídio por dolo eventual (no qual existe a consciência do risco de matar). (Daniela Guima)


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