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Brasília, quarta-feira,
06 de fevereiro de 2002
Cidades
intolerância
Roriz adota estratégia do silêncio

Governador reaparece para inaugurar estações do metrô em Samambaia e Águas Claras. Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados pedirá abertura de inquérito para apurar denúncias de racismo contra ele
Marcello Xavier
Da equipe do Correio


Kleber Lima
Roriz chegou mudo e saiu calado nas novas estações do metrô: inaugurações feitas sem discursos, apenas sorrisos e acenos

Sempre que é traído pela própria língua, como no discurso em que pediu uma ‘‘salva de vaias’’ para um ‘‘crioulo petista’’, em Brazlândia, o governador Joaquim Roriz (PMDB) é retirado de cena pela sua assessoria. Ele cancela compromissos públicos, encontros com lideranças comunitárias e procura um refúgio, na esperança de que o tropeço termine passando em branco. Foi assim também quando anunciou, publicamente, que um desembargador do Tribunal de Justiça iria livrá-lo da condenação por distribuição irregular de lotes para igrejas.
  As inconfidências levaram o governador a desaparecer das ruas durante quase um mês. Dessa vez, Roriz abandonou a clausura apenas cinco dias após o último desastre verbal, que acabou lhe dando o rótulo de racista. Depois de sumir do Governo Itinerante em Brazlândia, na sexta-feira, sem se despedir dos eleitores, e de suspender sua agenda pública do final de semana e da segunda-feira, ele reapareceu, ontem pela manhã, para entregar mais duas estações do metrô.
  Mas o governador que esteve em Samambaia e Águas Claras não agiu como das outras vezes em que voltou à ativa, depois dos temporais provocados por ele mesmo. Ontem, forçava um sorriso para parecer indiferente às acusações que lhe pesam de racismo e de incitação à violência, desde que chamou de ‘‘crioulo petista’’ o aposentado Marinaldo Nascimento.
  Vestindo, como de hábito, terno, camisa e gravata azuis, o governador distribuiu acenos, abraçou eleitores, beijou eleitoras, deu autógrafos e ouviu reivindicações da comunidade. Mas chegou mudo e saiu calado. Quebrou o protocolo, deixando as solenidades sem os discursos que sempre faz em todas as inaugurações. Ao redor dele, uma zona de proteção rigorosamente vigiada para manter a imprensa distante. Pelo menos sete seguranças ficaram na cola de Roriz durante os rápidos 40 minutos em que esteve no metrô.

Novo refrão
Escoltado por um carro da segurança, um da Polícia Militar e três batedores (motociclistas) da PM, coisa rara em suas aparições públicas, o governador chegou à estação de Samambaia Sul, na QR 118, às 10h48. Foi cercado por seguranças e eleitores. Além da conhecida claque que o acompanha em todos os eventos, militantes ligados ao administrador de Samambaia, Carlos Xavier, engrossaram o velho coro de ‘‘Roriz é o pai, o filho é Xavier’’. Para alento do governador, até criaram um novo refrão. ‘‘Sou crioulo, mas sou Roriz’’, gritavam as cerca de 300 pessoas que acompanharam a inauguração.
  Diretores do metrô, assessores e alguns secretários o aguardavam na entrada da estação. Roriz passou pela roleta, simbolizando o primeiro passageiro a entrar no local, e logo em seguida descerrou a placa de inauguração. Fez questão de fazer pose para fotos e para as câmeras de televisão. Mas só. Não deu uma única palavra.
  Na estação de Samambaia Sul, embarcou às 11h com destino à estação Arniqueiras, em Águas Claras. Lá, mais seguranças, assessores, policiais militares e outras dezenas de eleitores o aguardavam. A viagem entre os dois pontos durou aproximadamente dez minutos. Roriz foi no primeiro vagão, ao lado do administrador de Samambaia e de Tadeu Filippelli, seu secretário de Obras. A confusão na entrada do vagão foi tanta que os demais secretários e assessores não conseguiram se aproximar do governador.
  Em Arniqueiras, o corre-corre e os empurrões se repetiram. Roriz descerrou mais uma placa e assistiu a uma rápida apresentação de um grupo de capoeira. Depois, aproveitando o clima de confusão, o governador deu mais alguns acenos e, cercado pelos seguranças, entrou no seu Ômega sem falar com ninguém.
  ‘‘Silenciar, por que? O governador não falou com a imprensa porque a multidão não deixou’’, justificou o secretário-adjunto de Comunicação, Carlos André Duda, ao ser questionado sobre a mudez de Roriz. Nenhum integrante do alto escalão do governo quis comentar o episódio do ‘‘crioulo petista’’ e as ações na Justiça que o governador deve enfrentar.
  Questionado sobre o assunto, o secretário de Obras, Tadeu Filippelli, articulador político do governador, respondeu com ironia. ‘‘Olha, o metrô tem atendido a população, nós já passamos de 45 mil pessoas e está demonstrando que estamos superando as metas iniciais’’, disse, ignorando a pergunta. A assessoria de imprensa garantiu que Roriz não tinha mais compromissos externos para ontem.


Um processo a mais
Alberto Lima
Da equipe do Correio


  As declarações do governador Joaquim Roriz (PMDB), pedindo uma ‘‘salva de vaias’’ para um homem negro que ele chamou de ‘‘crioulo petista’’, vão lhe render mais um problema. O presidente da Comissão de Direitos da Câmara dos Deputados, Nelson Pellegrino (PT-BA), vai entrar com uma representação no Ministério Público do Distrito Federal para que a conduta de Roriz, no evento público que realizou quinta-feira passada, durante o Governo Itinerante de Brazlândia, seja apurada.
  ‘‘Foi um ato de profunda irresponsabilidade da parte desse governador. Uma demonstração de racismo e intolerância’’, entende Pellegrino, que está na Bahia e só volta a Brasília depois do Carnaval, quando irá ao procurador-geral de Justiça, Eduardo Albuquerque, tratar do assunto. ‘‘Nós queremos a abertura de um inquérito para apurar esse caso. É uma manifestação de racismo, e vinda de um governador de estado é ainda mais preocupante. Ele tem que ser punido.’’
  É a quarta vez que o governador é denunciado pelo discurso feito no novo assentamento da Vila São José, em Brazlândia. No Superior Tribunal de Justiça (STJ), uma notícia-crime já foi entregue pelo deputado distrital Wasny de Roure (PT), acusando Roriz de racismo e incitação à violência. O PT também levou ao procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, um pedido para que o governador seja denunciado à Justiça pelos mesmos motivos.
  Hoje, é o procurador distrital dos Direitos do Cidadão, Antônio Ezequiel Neto, quem envia uma representação ao STJ. Roriz também será alvo de duas ações por improbidade administrativa na Justiça Eleitoral, movidas pelos petistas e por Ezequiel, que o acusam de utilizar a máquina pública com fins eleitorais.

Campanha
Hoje, às 17h, o PT, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e entidades de defesa dos direitos humanos promovem um ato público, na praça Zumbi dos Palmares, no Conic, contra o que chamam de intolerância política do governo Roriz. ‘‘Vamos fazer uma campanha permanente contra essa violência do GDF, que ganha agora um viés racista. Juridicamente, estamos avaliando como vamos agir’’, afirma Erika Kokay, presidente da CUT.
  ‘‘Recebemos muitas ligações no nosso disque-racismo de pessoas revoltadas, exigindo providências. Essa simulação de desculpa do governador não cola. Tem gente ligando, dizendo que é crioulo, que mora em assentamento e querendo que o GDF também perdoe o seu IPTU’’, explica Lucimar Martins, coordenadora-geral do Centro de Referência do Negro (Cernegro). Depois de conversar pessoalmente com Roriz, Marinaldo Nascimento — que o governador chamou de ‘‘crioulo petista’’ — garantiu que o GDF desistiu de cobrar IPTU no assentamento Vila São José, onde ele mora.


Integração não saiu do papel

  O preço da passagem do metrô vai subir de R$ 1 para R$ 1,50 quando o sistema de integração com os ônibus estiver em funcionamento. O bilhete custava R$ 1,50, mas o governo reduziu a tarifa para evitar prejuízo para o passageiro que precisasse pegar outra condução para completar o trajeto. O secretário de Obras do Distrito Federal, Tadeu Filippelli, prometeu ontem, durante a entrega das estações de Arniqueiras e Águas Claras, concluir os estudos da integração até o final deste mês. A integração total dos dois sistemas de transporte deverá ser feita até 2003.
  Com a entrega da estação de Samambaia Sul, na QR 118, o GDF concluiu o ramal de Samambaia, composto por três terminais. Aproximadamente dois mil novos passageiros usarão o sistema. A estação estava pronta desde 1999, mas uma inundação causada por chuvas danificou equipamentos eletrônicos. Já a estação Arniqueiras, em Águas Claras, receberá uma média de mil usuários por dia. Hoje, aproximadamente 45 mil pessoas usam o metrô em Brasília.
  O secretário de Obras explicou que as novas estações serão entregues à medida que o número de passageiros aumentar e a integração estiver completa. A estação Concessionária, em Águas Claras, por exemplo, está fisicamente pronta, segundo Filippelli. Ela deve ser a próxima a entrar em atividade comercial. ‘‘Não adiantaria dar prazos hoje. À medida em que se consolidar o número de passageiros e tivermos a integração, colocaremos mais estações em funcionamento’’, disse Filippelli.
  Moradores de Samambaia ficaram satisfeitos com a nova estação. É o caso da dona-de-casa Antônia Belarmina Roque, 66 anos, que foi à inauguração. Ela disse que o metrô facilitará suas idas ao Plano Piloto. Um morador de Samambaia que hoje gasta de 60 a 90 minutos de ônibus até a Rodoviária do Plano Piloto levará apenas 31 minutos para fazer o mesmo percurso de metrô. ‘‘Samambaia recebe essa estação com alegria. Os moradores da cidade terão uma melhor qualidade de vida’’, disse o administrador regional Carlos Xavier. (M.X.)

MOVIMENTO

O metrô do Distrito Federal tem 41km de extensão

32km do metrô já estão em operação

Das 29 estações projetadas, 13 estão funcionando

45 mil passageiros utilizam o metrô, por dia

A estimativa é que o número de passageiros chegue a 80 mil

O trem anda entre 40 a 60 km/hora.
A velocidade poderá chegar a 80km, quando estiver em plena operação


SERVIÇO
As estações do metrô estão abertas das 6h às 20h, de segunda a sexta-feira. O preço da passagem é R$ 1.


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