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Brasília, quarta-feira, 06 de fevereiro de 2002
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drogas Conexão
Centro-Oeste
Região central concentra 66% da maconha e cocaína apreendidas no país. Polícia Federal interceptou
4,5 toneladas de cocaína em 2001, quatro vezes mais do que em 2000. Maconha foi a droga mais retida no DF
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Dante Accioly
Da equipe do Correio
| Ricardo Borba |
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| Agente organiza galpão da Polícia Federal no Setor Policial Sul: vigilância a traficantes prejudicou ação para conter a venda nas ruas |
Uma cidade cercada pelas drogas. Brasília está na região do país onde a Polícia Federal (PF) mais apreendeu entorpecentes durante o ano passado. Foram quase 97 toneladas de maconha e 4,5 toneladas de cocaína retidas no Centro-Oeste em 2001 — o equivalente a 66,1% do volume apreendido no Brasil. A região é rota de passagem de boa parte da erva e do pó que se consome no país.
O balanço da PF divulgado na semana passada mostra que a quantidade de cocaína apreendida no Centro-Oeste em 2001 quadruplicou em relação a 2000 — quando foi retida 1,1 tonelada de pó. As apreensões de pasta base de cocaína e pés de maconha na região também sofreram aumento. Já a quantidade de maconha caiu 21,20% em relação a 2000 — quando foram apreendidas 123 toneladas.
Os entorpecentes que passam pelo Centro-Oeste não são necessariamente consumidos por aqui. A maconha do Paraguai e a cocaína da Bolívia entram no Brasil pelas fronteiras com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul em caminhões carregados de madeira. A droga passa por Goiás, Tocantins e Distrito Federal antes de ser distribuída para consumidores das demais regiões e até de outros países.
A PF não sabe estimar a quantidade de droga que dribla a fiscalização. Mas sabe que — quando os traficantes conseguem passar pelo Centro-Oeste — o trabalho de apreensão fica mais difícil. ‘‘Somos a última fronteira. Se a droga chega aos grandes centros de distribuição, é muito mais complicado alcançá-la’’, explica Getúlio Bezerra Santos, delegado-chefe da Divisão de Prevenção e Repressão a Entorpecentes da PF.
Os números comprovam o que ele diz. Os estados consumidores do Sul são responsáveis por apenas 17% das apreensões de maconha e cocaína realizadas no país, seguidos das regiões Sudeste (11%), Nordeste (5,4%) e Norte (0,5%).
O balanço da PF mostra que nem só do preto e do branco (maconha e cocaína) vivem os traficantes que agem no Brasil. Houve um crescimento sensível no volume de crack, haxixe, merla, psicotrópicos e pés de maconha apreendidos no país no ano passado. Há mais de 130 quilos destas drogas amontoados nos galpões da instituição — contra os 85 quilos de 2000.
Para a professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Alba Zaluar, especialista em tráfico de drogas, o aumento na quantidade de drogas apreendidas não significa um maior número de traficantes. ‘‘O aumento está mais ligado ao endurecimento por parte da polícia. Uma maior quantidade de ações contra o tráfico’’.
Alba ressalta que Brasília não integra uma rota fixa do narcotráfico. ‘‘A cidade pode ser considerada um ponto de conexão, como tantas outras. É a capital do país, tem aeroporto e financiadores’’. A especialista acredita que Rondônia e o Mato Grosso são os principais pontos de distribuição da droga no Brasil.
No Distrito Federal, a apreensão de drogas em 2001 se concentrou nas ações da Polícia Civil. A maconha lidera há dois anos o ranking de apreensões realizadas pela corporação. No ano passado, foram retidos 697,81 quilos da droga — contra os 292 quilos de 2000. O aumento foi de 138%.
O delegado-adjunto da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes (DTE) I, Marcelo de Paula Araújo, acredita que a erva é a droga mais consumida no DF. Ele explica que as apreensões realizadas pela Polícia Civil ocorrem em pequenas quantidades. ‘‘Não existem apreensões em grande escala dentro do Distrito Federal porque o traficante vai pingando a droga, distribuindo aos poucos. Além da maconha que vem do Paraguai, apreendemos a produzida no Nordeste. Ela é chamada pelos traficantes de camarão’’.
‘‘Era tudo ilusão’’
A frieza dos números esconde histórias tristes sobre o submundo das drogas. É comum encontrar casos como o do estudante Felipe, um rapaz franzino que começou a se drogar aos 11 anos. ‘‘Experimentei tudo. Perdi tudo’’, resume o garoto.
Aos 17 anos, Felipe olha para o passado e tenta descobrir o motivo de tantas experiências com entorpecentes. Consumiu maconha, cocaína, crack, cola de sapateiro, tiner, LSD e merla. Entrou fundo na marginalidade. Roubava para comprar drogas. Chegou a ser preso. Perdeu a infância. ‘‘Eu passava dias fora de casa. Parecia um mendigo’’.
As drogas surgiram na porta da escola. Os traficantes tinham liberdade dentro dos colégios públicos de Taguatinga e Ceilândia, onde Felipe estudou até a 8ªsérie. Os aviões vendiam droga para a meninada antes e depois das aulas.
Aos 11 anos, Felipe conheceu a maconha. Aos 13, já era viciado em merla. Foi quando resolveu roubar pessoas na rua e surrupiar os eletrodomésticos de casa para vender.
Felipe tenta recuperar o tempo perdido no grupo Galera Legal. O projeto atende a 80 jovens que cumprem medidas socioeducativas. Todos com passagem pela polícia. Felipe ficou quatro anos sem estudar e agora cursa o supletivo. Compõe letras de hip hop e trabalha com grafite. ‘‘O que mais me atraía nas drogas era a adrenalina. Hoje sei que tudo era ilusão’’.
O nome do adolescente citado na reportagem é fictício
Colaborou: Roberto Fonseca
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Efeito Beira-Mar
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Pode parecer contraditório. Mas a temporada do traficante Luiz Fernando da Costa — o Fernandinho Beira-Mar — em Brasília ajudou a disseminar drogas como a cocaína em cidades do Distrito Federal e do Entorno. Preso há nove meses em uma cela da Polícia Federal, Beira-Mar tem obrigado a Superintendência Regional a redobrar a vigilância na carceragem do Setor Policial Sul.
É uma questão de matemática: cada policial à disposição de Beira Mar na prisão equivale a um policial a menos para inibir o tráfico na rua. Em 2001, a PF só apreendeu oito quilos de pó, instaurou apenas sete inquéritos policiais e prendeu nada mais que 12 pessoas ligadas ao negócio das drogas no DF.
Um desempenho pífio, se comparado à atuação de 2000. Naquele ano foram retidos 42,6 quilos de pó em Samambaia, Gama, Santo Antônio do Descoberto, Formosa, Brasília, Recanto das Emas, Luziânia, Vicente Pires e Valparaíso. A PF ainda instaurou 17 inquéritos e prendeu 51 pessoas ligadas ao tráfico. ‘‘Agora estamos parados com as operações externas para vigiar presos de alta periculosidade’’, diz Euclides Rodrigues da Silva Filho, superintendente regional da PF no DF.
Ele explica que a droga retida entra no DF em caminhões carregados de madeira, aparelhos eletrônicos, frutas, café e outros produtos perecíveis. Apesar do baixo volume de apreensões, a PF conseguiu prender no ano passado o traficante Juan Cláudio Ruiz. Ele é acusado de integrar uma conexão com a Europa.
A atuação dos federais na repressão à maconha também foi prejudicada. O volume de apreensões caiu de 1,2 mil quilos em 2000 para 513 quilos no ano passado — redução de 57,8%.
A atribuição da PF é interceptar os grandes carregamentos de droga para evitar que ela seja fracionada em pequenas quantidades — o que dificulta a apreensão. Com a lacuna deixada pelo governo federal em 2001, a Polícia Civil do DF também teve problemas para tirar a cocaína de circulação. O volume de apreensões caiu de 50 quilos em 2000 para 22 quilos no ano passado.(D.A)
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Pedido de transferência
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O Ministério Público Federal pediu à Justiça a transferência do traficante Fernandinho Beira-Mar e de outros três presos condenados que estão na Custódia da Superintendência da Polícia Federal de Brasília. A carceragem é famosa por histórias mirabolantes como a da cantora Gloria Trevi, que ficou grávida. Os procuradores Alexandre Camanho, Marcelo Antônio Serra Azul e Marcus Lima alegam que a permanência dos presos contraria a lei de execuções penais. E que o local não tem infra-estrutura para manter os detentos, especialmente Beira-Mar. Ele foi condenado a 21 anos pela Justiça do Rio de Janeiro e a doze anos pela Vara Criminal de Belo Horizonte. A Polícia Federal é obrigada a reforço permanente de segurança por causa de grupos traficantes que possam tentar resgatá-lo. Os outros presos são José Carlos Carlini, José Ricardo Arroyo e Salvador Dourisboure do Amaral.
(Da Redação)
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Mais merla apreendida Comércio ilegal Cartéis sob investigação Nos estados Obituário Diário de um crime Gerente do BB assassinado em assalto Ministro da Justiça é contra extradição Polícia encontra santana azul PM atinge helicóptero
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