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Brasília, quarta-feira,
06 de fevereiro de 2002
Segurança
violência
Diário de um crime

Caderno de seqüestradores detalha a rotina de Washington Olivetto no cativeiro e revela organização do grupo. Outros documentos mostram como publicitário negociava liberdade
Cristiana Fellipe
Da sucursal


São Paulo —  As investigações feitas pela polícia no sobrado onde Washington Olivetto ficou em poder de seqüestradores por 53 dias revelam a cada dia mais detalhes da rotina vigiada do publicitário. O Jornal Nacional, da TV Globo, mostrou ontem um caderno onde os criminosos relatavam todos os movimentos de Olivetto dentro do cubículo de três metros por um. As anotações foram encaminhadas para perícia e podem ajudar a esclarecer detalhes importantes dos métodos utilizados pela quadrilha liderada pelo terrorista chileno Mauricio Hernandez Narambuena.

‘‘Ele se deitou às 5h36 do dia 22 de janeiro. Em outros momentos tenta escrever, parecer desesperado. Senta e chora’’

SEQÜESTRADOR


  O caderno usado pelos sequestradores é do tipo universitário, com espiral e com um desenho na capa do personagem de desenho animado Piu Piu. Os primeiros exames sugerem, pela diferença nas caligrafias, que cinco pessoas escreveram. Dois deles são identificados pelos nomes Julio e Cristian. Todas as anotações eram feitas em espanhol. ‘‘Ele se deitou às 5h36 do dia 22 de janeiro. Em outros momentos tenta escrever, parecer desesperado. Senta e chora’’, diz um dos trechos.
  As anotações começaram a ser feitas desde o primeiro dia de cativeiro. Relatam os horário exatos em que Oliveto fazia cada gesto, como quando fazia as refeições, as músicas que eram colocadas para ele ouvir, e os intervalos que dormia. As informações são absolutamente precisas. ‘‘Ele levantou da cadeira às 12h33 minutos’’, afirma um dos sentinelas.
  Em outras páginas, os criminosos falam da intimidade do publicitário: ‘‘Ele defecou às...’’, e também tratam dos momentos em que Olivetto comeu, urinou, leu jornal. Algumas vezes, na troca de plantão, escreviam simplesmente: ‘‘não há novidades.’’
  As passagens de carros da polícia pela rua Kansas também foram registradas, o que aconteceu várias vezes nos 53 dias de seqüestros. Uma página revela que Olivetto foi seqüestrado no dia 11 de dezembro com 80 quilos e que, em 29 de janeiro, pesava 72. A última anotação dos seqüestradores foi às 8h58 da manhã do último dia do seqüestro.
  
‘‘Entenda que as coisas têm seu ritmo. Que por sua e nossa segurança, têm que ser feitas com precaução’’.

SEQÜESTRADOR


Outros documentos apreendidos pela polícia revelam como se dava a comunicação entre Olivetto e os criminosos. Numa carta, o publicitário chama os sequestradores de ‘‘senhores’’ e se prontifica a negociar sua própria libertação. ‘‘Se a coisa não sair por aqui vai se arrastar mesmo. Venham me ouvir e vamos resolver’’.

‘‘Se a coisa não sair por aqui vai se arrastar mesmo. Venham me ouvir e vamos resolver.’’

OLIVETTO


  Os seqüestradores respondem em português errado. ‘‘Entenda que as coisas têm seu ritmo. Que por sua e nossa segurança, têm que ser feitas com precaução’’.
A letra de Olivetto mostra o desespero. ‘‘Estou prestes a ter um infarto. Não quero morrer. Esta carta tem que me salvar’’. Para a mulher ele escreve. ‘‘Minha cabeça está perdendo o discernimento entre ficção e realidade.’’
  No dia que foi libertado, sem saber que parte da quadrilha havia sido presa, o publicitário faz um apelo: ‘‘Existe alguma coisa que eu possa ajudar. Hoje dois de fevereiro é dia de Iemanjá. Que Iemanjá abençoe a todos nós e que leve a todos no rumo certo’’. À noite Olivetto voltou para casa
  Para perícia é importante a caligrafia. O exame grafotécnico pode demonstrar quem foi a pessoa que escreveu ou quais foram as pessoas que escreveram nesse caderno. Foram feitas muitas anotações sobre o estado de saúde do refém, semelhantes a procedimentos médicos. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, será investigada a possibilidade de haver profissionais ligados à área de saúde envolvidos no sequestro.
  As anotações apontam que os sequestradores eram muito organizados e cuidadosos. Eram pessoas atentas, observadoras e estavam recebendo orientações no que estavam fazendo. O diário mostra que Oliveto seguiu à risca todas as ordens dos sequestradores.
Na casa do cativeiro, os peritos do IC passaram 13 horas coletando também, poeira, restos de unhas, fios de cabelos, batom, fitas de vídeo, sabonete, aparelhos de barbear, CDs de forró, MPB e músicas em castelhano. Esses objetos serão analisados. Os peritos devem comparar as impressões digitais, caligrafia, analisar o DNA de unhas e cabelos para verificar se havia mais gente envolvida.

‘‘ Hoje dois de fevereiro é dia de Iemanjá. Que Iemanjá abençoe a todos nós e que leve a todos no rumo certo”

OLIVETTO, no dia que foi libertado


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