Sheila Messerschmidt
Da equipe do Correio
| Fotos: Carlos Vieira |
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| Marinaldo em sua casa: baldes servem para pegar água no reservatório da rua, onde falta infra-estrutura |
O aposentado Marinaldo Marcelino do Nascimento tornou-se refém com seu próprio consentimento. Desde sexta-feira, dia 1º, quando foram divulgados pela imprensa trechos do discurso no qual o governador Joaquim Roriz (PMDB) o chamava de ‘‘crioulo petista’’, o morador de Brazlândia tem passado poucas horas na casa em que vive com sua família. Marinaldo segue uma rotina de cuidados, comandada por assessores políticos ligados a Roriz, e tem sua casa vigiada por líderes comunitários e militantes aliados do governador.
‘‘É um vaivém de carros o dia todo. Isso aqui nunca foi assim’’, comenta o vizinho João da Silva, 40 anos. Ele brinca que Marinaldo já está sendo chamado pelos moradores da Quadra 42 do Assentamento Vila São José de ‘‘prefeito Marinaldo’’, tamanho o assédio dos jornalistas e dos homens de confiança do Palácio do Buriti.
O filho de 9 anos, Ivaldison, confirma. ‘‘Antes o pai sempre almoçava em casa. Agora, sai de manhã e só volta à noite’’, diz. Apesar das insinuações da vizinhança, o aposentado não é filiado a qualquer partido e nem mesmo o PMDB de Roriz reconhece a sua ‘‘densidade política’’ na área. ‘‘Ele não é liderança. Não tem bagagem pra isso, nem representa nada pra nós’’, avisa o presidente do partido em Brazlândia, Euler Rufino da Silveira.
Durante três dias, a equipe do Correio esperou por Marinaldo em sua casa. Conseguiu encontrá-lo apenas na última quarta-feira, nas primeiras horas da manhã. Às 7h10, carregando dois baldes, Marinaldo saiu de casa para cumprir uma tarefa mais que comum no assentamento: buscar água potável nos reservatórios que ficam na rua e são abastecidos por carros-pipa em dias alternados.
Arredio, ele conversou por alguns minutos e reclamou do assédio da imprensa. Dos novos ‘‘amigos’’, no entanto, ele não se queixa. Seus acompanhantes surgiram depois que Roriz pediu uma ‘‘salva de vaias’’ para o aposentado.
Isso aconteceu durante uma visita do governador à comunidade, no penúltimo dia do governo itinerante em Brazlândia. Marinaldo acompanhava um grupo de moradores que reclamava da cobrança de IPTU no loteamento, onde não há asfalto, esgoto ou água encanada. ‘‘Ali está um crioulo petista, que eu quero que vocês dão (sic) uma salva de vaias nele’’, gritou Roriz, apontando Marinaldo, que trajava uma camisa vermelha — apesar de não ser petista.
Operação abafa
A repercussão do caso obrigou a ‘‘tropa de choque’’ do Palácio do Buriti a montar uma operação abafa. Assessores políticos locais e líderes comunitários têm pajeado Marinaldo com afinco, ao ponto de buscarem o aposentado em casa todas as manhãs e só retornarem com ele à noite. ‘‘Tenho saído para me distrair’’, explica. Ele não dá detalhes dos locais para onde é levado.
Um Renault Clio branco, de propriedade da Quality Aluguel de Automóveis, placa JGE-0049, passa na casa de Marinaldo para apanhá-lo por volta das 8h30. No veículo, ao lado de Marinaldo, sempre estão um motorista e um assessor especial do governador. É Juarez Oliveira, homem de confiança do secretário de Desenvolvimento Econômico Edimar Pireneus (PMDB).
Juarez tem encontrado o aposentado diariamente, desde o discurso do governador. Apesar de serem vistos juntos, o servidor do GDF nega veementemente qualquer contato com Marinaldo. ‘‘Eu não tenho nada a ver com isso’’, afirma Juarez. Um dos pontos de parada do Clio branco, no entanto, é em frente à casa 36, conjunto C, Quadra 2, no Setor Sul de Brazlândia. A casa é de Juarez.
Brazlândia é reduto eleitoral de Pireneus, um dos articuladores da operação para apagar o incêndio provocado por Roriz. Deu certo. Pelo menos no que diz respeito à reação de Marinaldo. ‘‘Eu perdoei o governador. Todo mundo erra’’, garantiu o aposentado, com voz mansa. Ele diz não ter recebido nada em troca do perdão. ‘‘Ao contrário do que estão falando, não ganhei nada. O governo não molhou minha mão’’, completou.
Por via das dúvidas, a equipe de comunicação do Palácio do Buriti promoveu um encontro de Marinaldo com o governador, no dia seguinte ao discurso, e gravou tudo em vídeo. As cenas mostram abraços, apertos de mão e as palavras do aposentado, vestido com uma camisa do governo itinerante, favoráveis a Roriz.
Salário mínimo
marinaldo é conhecido no loteamento onde mora por dar ‘‘receitas’’ de cura para quem o procura. Vizinhos contam que ele prescreve uma espécie de garrafada — uma beberagem composta por produtos naturais — para males diversos. Apesar de manter uma imagem de Jesus Cristo sobre a estante da sala, o aposentado se diz umbandista ‘‘com orgulho’’.
Aos 61 anos, Marinaldo recebe como aposentado da empresa estatal de ônibus TCB um salário mínimo. ‘‘Se quiserem fazer algo por mim, que aumentem meu salário’’, reivindicou ele.
Marinaldo deixou de pagar aluguel há sete anos, quando mudou-se para o assentamento. Natural de Goianésia (GO), ele é um pioneiro na região: vive em Brazlândia ‘‘desde que se catava carrapato por esses matos’’, como lembra o amigo Cícero Theodoro dos Santos, 64 anos.
Há 13 anos longe da função de servente na TCB, Marinaldo dedica-se à vida familiar. Os vizinhos contam que o aposentado praticamente não saía de casa antes do episódio em que foi chamado por Roriz de ‘‘crioulo petista’’.
Enquanto a mulher, Francisca, trabalha como telefonista num hotel do Plano Piloto, Marinaldo é encarregado de cuidar dos dois filhos, Kyara, 13, e Ivaldison, 9. Sua rotina compreende ainda uma lista de pacatas tarefas: alimentar 18 galinhas, uma dúzia de canários e dois vira-latas — Dog e Piranha. Além disso, ele tem que cuidar das plantas do quintal.
A casa onde mora tem telefone e luz elétrica. Água, somente no balde. ‘‘Não tenho dinheiro para comprar uma bomba’’, justifica Marinaldo. Alguns moradores compram o equipamento que leva água dos reservatórios da rua para a caixa d’água por R$ 100.
O conforto que Marinaldo tem em casa não passa de uma televisão de 20 polegadas, aparelho de som, geladeira e máquina de lavar roupas. A construção é de madeirite, coberta com telhas de amianto. De alvenaria, por enquanto, apenas o muro na frente e nas laterais do lote. Uma pilha de tijolos no quintal denuncia a intenção de concluir a obra.
Colaborou Alberto Lima
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