|
|
|
Quando os inimigos estão dentro de casa
|
‘‘Garoto é espancado até a morte’’, revela a manchete do Correio Braziliense. O assassino é o padrasto do menino de 5 anos. O drama comove, mas não surpreende. Talvez muita gente não saiba, mas a violência contra crianças, praticada no lar, é um acontecimento comum. Vejamos alguns episódios divulgados pela imprensa.
Em São Paulo, C.L.B., 40 anos, comerciante, foi acusado de espancar até a morte seu filho de 4 anos, que se recusava a aprender a nadar. Em Curitiba, K.M., 37 anos, matou o filho de 6 anos durante uma briga com o marido. J.S.M., 22 anos, atirou seu filho de 4 meses contra uma parede ‘‘por não agüentar o choro da criança’’(disse ele que a cabeça do menino ‘‘rachou como uma melancia’’). ‘‘Bombeiros encontram bebê que o pai matou’’. ‘‘Bebês negociados antes de nascerem’’.
‘‘D.R. esfaqueou e matou seus dois filhos de 6 e 5 anos, que assistiam à televisão, para receber o seguro de vida deles, atribuindo o crime a um assaltante’’ (USA). ‘‘S.S. colocou seus filhos de 14 meses e 3 anos em um carro e atirou-o em um lago, para agradar o namorado, que não gostava de crianças’’. ‘‘Garoto de 4 anos, espancado constantemente por sua madrasta de 17 anos, morre na Ceilândia. Vizinha diz ter ouvido várias vezes o som da cabeça do menino batendo na parede. A madrasta obrigava o menino a lavar roupa, limpar a casa, colocar lixo para fora e recolher as fezes do cachorro. Por diversas vezes, o menino pediu ajuda a familiares e vizinhos, que telefonaram para a polícia sem resultado’’. Infelizmente, casos como esses não são raros.
‘‘Pai embriagado deu um soco no olho da filha de 2 anos que havia lhe pedido um pedaço de pão e, como a garota chorava, matou-a, jogando-a contra a geladeira’’. ‘‘Pai dá dois tiros na própria filha para acabar com o namoro’’. ‘‘Menina de 1 ano e meio é espancada em Brasilinha pelo próprio pai, dois dias depois do Natal. Não foi a primeira surra. Choro sentido, entrecortado pelos gemidos, olho direito roxo, escoriações e fratura na perna esquerda, engessada’’. ‘‘M.N.L. matou dois filhos por achar que as crianças eram a encarnação de Satanás’’. ‘‘Em Magé, os pais sacrificaram o filho de 3 anos num ritual em homenagem a Exu’’.
Em Bananal, Fabiene, de 3 anos, foi morta a socos e pontapés, por dois tios, para ‘‘expulsar uma bruxa que tomava conta de seu corpo’’. Evandro, 6 anos, foi assassinado em um ritual de magia negra. Bruno, um ano e 8 meses, foi espancado por sua mãe com uma concha usada para mexer feijão, com tapas e chicotadas de ‘‘galhos do mato’’, por várias vezes, até morrer, ‘‘para aprender a não mexer nas coisas’’.
Bruno era espancado diariamente pela mãe, desde os 6 meses. Carla deu à luz no banheiro de um avião e sufocou e matou seu filho com papel higiênico. ‘‘Mãe mata filho afogando-o em um balde de água’’. ‘‘Felipe, 12 anos, ouviu dezenas de vezes sua mãe dizer que queria vê-lo morto’’. Márcio, 8 anos, foi morto a golpes de PVC, por recusar-se a fazer um dever de casa’’. ‘‘Como pai, mãe, padrasto, madrasta, pessoa da família, podem fazer isso com crianças indefesas?’’, perguntam as pessoas.
A tradição bíblica admite que os pais batam em seus filhos ‘‘29:15 — A vara e a disciplina dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar sua mãe’’. Os maustratos, os abusos físicos, os estupros, abusos sexuais e a negligência fazem parte de um triste capítulo denominado violência doméstica, que é definida como todo ato ou omissão praticado por pais, parentes ou responsáveis, contra crianças e/ou adolescentes capaz de causar dano físico, mental ou emocional. É considerada a ‘‘mãe’’ de toda as violências, por ser a maior formadora de indivíduos com comportamentos anti-sociais. É perpetrada no lar contra seres pequenos e indefesos por aqueles que tinham como obrigação protegê-los.
Embora seja a mais freqüente, a mais grave e a mais importante, pois é a principal perpetradora e perpetuadora da violência — pai violento, filho violento —, não costuma ser noticiada nos jornais e na televisão. ‘‘Ela não dá ibope’’. Crianças são surradas, estupradas, humilhadas, maltratadas, feridas, mortas pelos pais ou responsáveis, escudados pelas paredes do lar e protegidos pela omissão das testemunhas, entre as quais se encontram, não raramente, as próprias mães.
Todos se assustam, num misto de horror e curiosidade, ao tomarem conhecimento, diariamente, da incidência de crimes bárbaros, de assaltos, de estupros, de roubos, de agressões, de seqüestros, que não respeitam sequer a luz do dia. Mas, ninguém sabe, ninguém vê e, por isso mesmo, muitos poucos sentem ou se preocupam com esse tipo de violência, sórdido, silencioso, sub-reptício e desapercebido, perpetrado no que deveria ser o sagrado recôndito do lar e que fere, no âmago, a dignidade, a liberdade e a integridade física e espiritual das crianças.
As crianças vitimizadas ficarão marcadas para sempre, e uma boa parte delas irá perpetuar o ciclo da violência. A violência doméstica e a privação materna são as causas que mais contribuem para a formação de comportamentos delinqüentes e, conseqüentemente, para o aumento e a perpetuação da violência. Todo programa de combate à violência será incompleto e ineficaz se continuar priorizando medidas restritivas e punitivas, descurando das medidas preventivas, as mais importantes.
|
|