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Mistérios do samba
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É carnaval. Abram alas, que o samba quer passar. E passa. Na alegre Pindorama, começou com Donga. Pelo telefone abriu o caminho. Cartola, Pixinguinha, Monsueto de Menezes, Noel Rosa, Clementina de Jesus seguiram-no. Hoje existe uma certeza: ‘‘Quem não gosta de samba / Bom sujeito não é / É ruim da cabeça / Ou doente do pé’’.
E uma dúvida. Onde a palavra nasceu? Há uma unanimidade.
A dissílaba veio da África. E um talvez. Provavelmente do quimbundo, língua da família do banto, falada em Angola.
SEM MONOTONIA
Há o samba da gema. E variações pra dar e vender. Samba-canção, samba-choro, samba-enredo, samba-exaltação, samba-lenço, samba-roda são algumas. Todas têm um denominador comum. Aceitam dois plurais. Um: flexionam-se os dois termos (sambas-canções, sambas-choros, sambas-enredos, sambas-exaltações, sambas-lenços, sambas-rodas). O outro: só o primeiro ganha s. Aí, subentende-se a expressão ‘que servem de’: sambas-(que servem de) canção, sambas-(que servem de) choro, sambas-(que servem de) enredo, sambas-(que servem de) exaltação), sambas- (que servem de) roda.
DEU FRUTOS
Era o maior rolo. Ninguém sabia onde as escolas iriam desfilar. Todos os anos a novela se repetia. Em 1994, o governador do Rio tomou uma decisão. Chamou Oscar Niemeyer: ‘‘Vamos construir um local definitivo para as escolas se apresentarem’’. Dito e feito. Aí, pintou o problema. Que nome dar à novidade? Pensa daqui, palpita dali, Darcy Ribeiro pôs um ponto final no quebra-cabeça. Seria sambódromo.
Brincalhão, o professor buscou no grego o elemento -dromos. Significa corrida ou lugar de corrida. Daí hipódromo (local para corridas de cavalos). Por analogia, sambódromo seria o local para desfile do samba. Ele criou moda. Veio o fumódromo. Antes de morrer, pediu que a Universidade de Brasília criasse o beijódromo. O projeto está em estudos.
MANDA QUEM PODE
Nos dias de folia, o cetro e a coroa mudam de mãos. O gordo e alegre Rei Momo comanda os festejos carnavalescos. Como rei, tem majestade. E faz uma exigência. Majestade e todos os filhotes dela derivados escrevem-se com j. É o caso de majestoso e majestático,
Acredite: manda quem pode. Obedece quem tem juízo.
DE DANTES E QUIXOTES
De carnaval, nasce carnavalesco. De gigante, gigantesco. De Dante, dantesco. De Quixote, quixotesco. Reparou? O sufixo -esco forma adjetivos de substantivos. E dá um recado. Quer dizer semelhança, referência. Carnavalesco refere-se a carnaval. Quixotesco assemelha-se a D. Quixote, o cavaleiro da triste figura. Dantesco, a Dante. E por aí vai.
ALGO A MAIS
O desfile das escolas de samba do Rio recebeu novo ingrediente. Os holofotes iluminarão a pista, não as arquibancadas. ‘‘A Sapucaí’’, diz Joãosinho Trinta, ‘‘já tinha acento. Agora ganha mais emoção.’’
Sapucaí tem acento porque o i é pra lá de exibido. Sem o agudinho, ele se confundiria com o a. Viraria ditongo. É o caso de sai, recai, sobressai. Para ele escapar da vala comum, a língua faz três exigências. Uma: o i tem de ser antecedido de vogal. Dois: tem de formar sílaba sozinho ou com s. Três: não pode ser seguido de nh.
Veja exemplos: A-ca-ra-í, ca-í, sa-í, a-ça-í, sa-í-da, e-go-ís-ta. Mas ra-i-nha, cam-pa-i-nha, ba-i-nha.
O u morreu de inveja do i. Bateu pé e levou. A regra vale para ele: ba-ús, sa-ú-de, sa-ú-va.
OUTRA CARA
Às vezes, o -esco muda de cara. Vira -isco. Mas mantém o significado. É o caso de mourisco, referente ou semelhante a mouro.
QUE DOOOOOOOOR...
Na coluna passada, o mau emprego do subjuntivo deu otite nos ouvintes. A dor foi tanta que se estendeu. Escrevemos, então, ‘‘doeeeeeeeeeeeeeeeeeee’’. Explica-se. No desespero, o u caiu fora. Hoje, trazemo-lo de volta: doeeeeeeeeeeeeeu.
MARCA REGISTRADA
A expressão ‘‘arrepiar os pêlos mais íntimos’’ é marca registrada da coluna. Às vezes, ela aparece em cartas de leitores. É tempero acrescentado ao texto original. Os signatários não respondem pelo paladar.
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