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10 de fevereiro de 2002
Márcio Cotrim

cotrim@correioweb.com.br


‘‘Meu nome é Manuel Sovaco de Gambá’’

  Ninguém escolhe o seu nome. Decidido à revelia do principal interessado, ele pode infernizar toda uma existência. Sim, pois nome é coisa tão vital para o ser humano como o ar que ele respira. Assim como exalta, inspira amores e vira lenda, pode arruinar um destino. Cria mais complexos que uma lustrosa careca ou uma barriga ignóbil.
  A chacota começa cedo, na escola. Na chamada, o suplício. O pobre aluno exposto ao ridículo de dizer presente para escárnio dos colegas, sempre implacáveis, e até do professor. Eis o menino à mercê da zombaria de amigos e inimigos, de conhecidos e desconhecidos, todos esbaldando-se com o grotesco nome que ele carrega.

Há quem colecione nomes curiosos, os impróprios nomes próprios. Gente que se dá ao trabalho de percorrer o almanaque do Banco do Brasil, de institutos de previdência, resultados de concursos, a lista dos servidores das Forças Armadas e desarmadas, que enfia a cara no robusto catálogo telefônico de São Paulo, fuça obituários e árvores genealógicas, o diabo.
  Esse pessoal cultiva o sádico prazer de mostrar a coleção aos amigos. Sua leitura em voz alta provoca cenas chaplinianas. Certa vez, estava eu presente a um recital desses quando uma senhora de consideráveis banhas, ao escutar os primeiros nomes, foi acometida de engasgos e soluços e, de tanto sacudir-se no sofá, desabou no chão da sala em impressionantes espasmos. É que ela ouvia nomes inacreditáveis mas rigorosamente verdadeiros — e documentados.
  Soube, por exemplo, que anda por aí uma trôpega dona-de-casa, pois se chama Maria Vieira Zig Zag. E que ela pode muito bem cruzar na rua com D. Última Obra do Casal Freitas.

Milhares de cidadãos honestos carregam a mesma cruz. Imagine o surrealista encontro dos seguintes indivíduos: João com Cara José, José Casou de Calças Curtas e José da Mesma Data, que tal? E que dizer do infortúnio que azucrina o quotidiano destes brasileiros: Maria da Segunda Distração, Carabino Tiro Certo, Raimundo Farrapo Moreno e a distinta senhora Olga Rebola?
  No meio da multidão tupiniquim ainda se encontram, certamente zonzos, os senhores Doisaum Inesquecível de Castro, Forte Pepino, Antônio Macedo Xixi, L’Origan de Coty, José Maria de Madeira Agradável, Cláudio Cueca e Joaquim Pinto Molhadinho.

  Por falar em Pinto, eis um punhado deles, talvez da mesma parentada: João Pinto Órfão, Luíza de Meo Pinto, Manuel Pinto Máximo, Orlando Serrando Pinto, Armando Pinto Rosa, Alfredo Belo Pinto e os provectos Caio Pinto, Décio Pinto e Serafim do Pinto!
  Muito estranhos: o pai, Armando Ciladas, o filho, Desarmando Ciladas, moto-contínuo doméstico. E mais: Mário Telêmetro Engenhoca, Naftalina Dodeles, Sete Rolos de Arame Farpado, Menas de Queiroz Botão, José Sem Mais Nada, Náusea Pereira, Maria Puchak Dói (polonesa casada com japonês) e a delicada Galinha Maria.
  Fôlego, amiga: eis Vitória de Carne e Osso, Iva Tuta Egas Beldroegas, Dinossauro Carlos da Silva, Colapso Cardíaco Magalhães, Mariazinha Pegueite, Ana Atchim, Restos Mortais de Catarina, Piranha do São Francisco, Danilo Cadê Onegócio, Graciosa Country Club, Júlia Dancing Days da Silva, Ivo Ivanovitch Kudá, Francisco Zebedeu Sanguessuga, Idílio Melado e um muito especial: Epafródito do Mel Azedo!

E estes outros contribuintes do Fisco nacional: Adão Plenamente - talvez amigo de Eva Milhomens -, Rodo Metálico. Naída Navinda Navolta Pereira, Hidráulica de Oliveira. Agora, três mimosas criaturas de Deus: Cólica de Jesus, Arruína de Jesus e Vitimado por Deus. Ah, sim, e o candidato a vereador Alcides Blá Blá Blá, que nem com essa inata vocação conseguiu eleger-se em Barra do Piraí.
  Passando pelo sonoro nomezinho de Aglacê Blaê Gabiru, chegamos aos ternos e silvestres Olímpio Pio e Paulo da Silva Alpiste. E aí, surpresa: aparece a senhora Mijaki Kirikiki! Refeitos do susto, vamos em frente, aos nomes paradoxais: Felicidade Azzar, Pacífico Armando Guerra, Karl Marx do Amor Divino, Lúcifer Maria da Conceição, Sebastião Amargo Doce e José Manso Bravo. Em compensação, conhecemos o coerente senhor Pacífico Pacato Cordeiro Manso.
  O travesso Rolando Pedreira, companheiro certo de seu xará Rolando pela Escada Abaixo. E ainda Chevrolet da Silva Ford, Dolores Machuca Carrapato, Maria Você-me-Mata, Sete Chagas de Jesus e Salve a Pátria, e os médicos - ambos ginecologistas! — Mário Vagina e João Carlos Varalonga.
  Finalmente, por hoje - por hoje! -, os quatro irmãos lembrados por Ari Cunha: Liberté, Égalité e Fraternité, e um peralta caçulinha: Nero Quase Jesus. Aqui del rey!

‘‘Sandoval não é nome. É destino’’.
(Luís Fernando Veríssimo)


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