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Brasília, domingo,
10 de fevereiro de 2002
Crônica da Cidade

Por Rogério Menezes
rogerio@correioweb.com.br


Cartas para o cronista podem ser enviadas para SIG, Quadra 2, Lote 340, CEP 70.610-901.


Memórias de um carnaval (II)

O evento mais (para usar expressão de jornalista da época) apoteótico do primeiro carnaval de Brasília foi a eleição da Rainha do Carnaval, cujo ‘‘escrutínio’’ ocorreu nos estúdios da TV Brasília. A vencedora, além de comandar a folia brasiliense, ganhou passagem aérea, com direito a acompanhante, para o Rio de Janeiro, claro. Era para lá que, em 1961, todos os candangos queriam fugir.
  Concorriam ao título, cinco ‘‘gentis senhorinhas’’: a) Miriam Marques, 23 anos, mineira. Profissão: cantora da Rádio Nacional e da boate Candangos. Representava o Sport Club Planalto. b) Célia Regina, 18 anos, carioca. Profissão: não especificada; descrita como ‘‘foliona animadíssima’’. Candidatava-se pelo Rabelo Futebol Clube. c) Walkiria Rodney, 21 anos, carioca. Profissão: também cantora e ‘‘rainha dos estudantes do Rio de Janeiro’’. Disputava o título pelo G.E. Brasiliense. d) Riode Sarandy, 19 anos, carioca. Profissão: não definida; apresentada como ‘‘carnavalesca no bom sentido. Fazendo pontinhas em teatro de tevê, tem revelado seus pendores artísticos’’. Candidata do C.C. Nacional. e) Salete Belo, 18 anos, paraibana. Profissão: bancária. Representava o C.R. Guará.
  A votação era direta. O público e os ‘‘cabos eleitorais’’ das concorrentes decidiam a eleição. Depois de ‘‘renhido embate’’, Miriam Marques foi eleita a primeira rainha do carnaval de Brasília, com 8506 votos. Salete Belo ficou em segundo, com 3688 sufrágios, como se preferia chamar à época.
  A festa de coroação foi realizada no sábado que antecedia o carnaval, 11 de fevereiro. Adivinhe onde, caro leitor? No restaurante da Estação Rodoviária. Acredite se quiser: lá era o chique do chique naqueles tempos de antanho.
  A vencedora, a caminho do baile, desfilou pela novíssima urbe em carro aberto, sob aplausos dos gatos pingados que resistiram à tentação de não irem para o Rio de Janeiro. Assim o Correio Braziliense anunciava o ágape: ‘‘Fogos e clarins anunciarão a passagem de Sua Majestade, que deverá receber verdadeira consagração do público folião da cidade’’.
  A festa de coroação animada pela orquestra de Gerson Cavalcanti teria sido inesquecível. Tão inesquecível quanto o ocorrido no dia seguinte. Com o mesmo vestido de baile do dia anterior, a Sua Majestade, Miriam Marques, teve a primeira decepção do seu fugaz reinado: foi barrada, com toda a pompa e circunstância, no baile dominical do elitista Iate Clube.
  Não teve choro nem vela. Arrasada e decepcionada (ninguém conseguiu convencer os zelosos porteiros a deixarem aquela beldade entrar), Miriam Marques, a primeira rainha do carnaval do Distrito Federal voltou para casa com cara de tacho.


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