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10 de fevereiro de 2002
Pensar
Museu correto

Na Bélgica, um novo centro de arte contemporânea é concebido como fator de desenvolvimento durável
Rodrigo Albea
Especial para o Correio


Vista externa da Casa dos engenheiros
Vista externa da sala Ponte
Interior da Casa dos engenheiros
Fotos: Philippe de Gobert/Divulgação
Fachada da sala Ponte

Bruxelas — No mundo dos museus, o ‘‘fenômeno’’ Guggenheim passou a encarnar o mal a se condenar com todas as forças: em colóquios e reuniões do setor na Europa, sempre há maneira de se citar a instituição. Com sede americana, tentáculos na Espanha e capítulos de folhetim espalhados pelo Brasil, o Gugenheim passou a ser a representação de uma ideologia comercial, invasora de um mundo até então ‘‘preservado’’, científico, artístico. Nem bem essa dicotomia se cristalizou, uma terceira via desponta como tangente escapatória à oposição fácil. Na Bélgica, um novo Museu de Artes Contemporâneas (MAC’s) navega entre esses dois pólos, adicionando um terceiro eixo forte na sua construção — o fator social.
  É no interior da Bélgica francófona, próximo de pólos de altíssima densidade cultural no velho continente — entre Paris, Amsterdã e Bruxelas — que se levanta social, econômica e artisticamente um novo ‘‘templo das musas’’. O que poderia ser apenas mais um ponto apagado na constelação de instituições circunvizinhas está se mostrando, com essa combinação de fatores, ‘‘um exemplo de desenvolvimento durável’’, nas palavras do seu secretário-geral, Serge Rangoni.
  O MAC’s belga só abre suas portas oficialmente em setembro, com a primeira exposição, cujo tema ainda é mantido em segredo. O prédio, no entanto, já está finalizado. Durante as obras e antes da inauguração, a equipe do museu trabalhava para não fazer desse novo equipamento cultural uma nave extra-terrestre cercada de um mundo simples. Muito simples para os padrões europeus. Aqui, fala-se de pobreza. O desemprego atinge a taxa assustadora de 40% da população — em potencial — economicamente ativa. Razão pela qual todos os vigias da nova instituição foram recrutados na vizinhança, entre desempregados sem atividade há quase dois anos.
  Com esse quadro social difícil, a região é alvo de diferentes programas sociais co-financiados pela União Européia. Após seis anos de trabalho e quase sete milhões de euros gastos, o MAC’s transformou-se em um dos protagonistas na revitalização da área. Parte desse orçamento está sendo destinado à formação dos vigias. Até agosto, antes da abertura, todos os 15 recrutados recebem um treinamento que inclui noções de história da arte e visitas a outros museus, além das normas de segurança. ‘‘Não são apenas 15 pessoas, são 15 famílias que vão se restabelecer socialmente e viver de um contato com a arte’’, afirma o diretor Laurent Busine.
  Um outro programa assegura a difusão, de maneira convivial, da arte contemporânea no bairro circunvizinho. Chez le Voisin (‘‘na casa do vizinho’’) acontece uma vez por mês, a partir do seguinte princípio: um morador convida uma dezena de amigos para vir em casa. Busine chega com uma obra e a instala provisoriamente na sala da família. Durante duas horas, ele faz uma aula-debate.
  Trata-se de um lento trabalho de multiplicação, que abrange todas as gerações. As crianças são um alvo privilegiado. É dedicada a eles a primeira sala do museu, onde meninos e meninas vão desenvolver atividades artistico-pedagógicas. Enquanto as crianças não vêm até a arte, a arte do MAC’s chega até eles em diferentes ateliês, elaborados pela responsável pedagógica, France Hanin. Alunos do secundário já editaram um jornal de 16 páginas sobre as atividades culturais da região, sob coordenação e estímulo do museu, em associação com o jornal da região.
  L’Heure de l’Art (‘‘a hora da arte’’) é um outro tipo de atividade que France Hanin propõe, em bibliotecas, centros e associações sócio-culturais. Trata-se de uma iniciação de duas horas à pesquisa de um artista contemporâneo, com alunos do primário e do colegial.
  Nesses dois anos e meio de trabalho preparatório à inauguração, crianças também foram chamadas para investigar a memória — bastante rica — do Grand Hornu, como é chamado o complexo industrial do século 19, de estilo neoclássico, local que estava praticamente condenado até os anos 70, quando as primeiras restaurações começaram. Nos arredores vivem imigrantes aposentados que trabalharam até 1954 nas minas de carvão, que abasteciam as fábricas. A 900 metros de profundidade as condições de trabalho não eram fáceis.
  Meninos e meninas foram entrevistar antigos mineiros, como parte do estudo da primeira obra da coleção do MAC’s — não à toa, uma encomenda de 1997 ao francês Christian Boltanski. Artista reconhecido internacionalmente por suas instalações que acumulam pequenos dados biográficos de anônimos, sua obra é uma parede de caixas de latão com nomes e fotos de gente do local. ‘‘Gosto de intervir em lugares carregados de memória, como o Grand Hornu. Sinto os museus como lugares totalmente falsos. Na maioria deles, ninguém dormiu ali de verdade, nem viveu, nem trabalhou’’, diz Boltanski, em uma das preciosas publicações que o museu edita regularmente sobre suas atividades.
  A escolha de um artista conceitual como Boltanski demonstra um desejo de não cair no gosto fácil para compor o acervo. ‘‘Não vamos reunir peças da mitologia da arte contemporânea, como fazem tantas instituições européias. A universalidade à qual aspira o MAC’s é fundada na capacidade dos artistas em evocar a diversidade do mundo na singularidade da sua criação’’, justifica Laurent Busine.
  A partir dessa premissa, ele constituiu o eixo curatorial em torno de três pilares: arquitetura, memória e poética. Nesse último elemento está o espaço aberto às outras artes, cênicas inclusive. Dentre os projetos realizados antes da abertura do prédio está uma peça de teatro — Le Cirque Célibataire (‘‘o circo solteiro’’), a partir de textos de artistas como Marcel Duchamp, Louise Bourgeois e Robert Filliou. O roteiro, costurado por Didier Payen e Isabelle Marcelin, dá uma visão lúdica das artes plásticas contemporâneas. E transformou-se, também, em um dos elementos de comunicação do museu, nas cidades vizinhas e outras regiões do país.
  Outro projeto reforça essa opção de marketing com fundamento artístico. Durante as obras, foram gravadas vozes, depoimentos, sons, barulhos. A partir desse material, Richard Kalisz fez uma ‘‘composição sonora’’ em dois CDs, intitulada Voix de Chantier (‘‘vozes do canteiro de obras’’). Com essas duas ações a equipe deixa claro que não é composta de assistentes sociais, mas de administradores dinâmicos e conscientes de que também é necessário atrair o público — até o interior da Bélgica — buscando novas formas de fazer passar sua mensagem. Em dezembro, o museu mostrava na tevê inserções publicitárias sobre obras da coleção — ‘‘Um minuto para a Arte’’ — num outro projeto para se fazer visto e falado.
  O MAC’s explica, assim, a sua existência em uma área já quase saturada de museus: ancorado-se no local e direcionado-se ao internacional, entre o social, econômico e artístico, apoiando-se no passado para elaborar seu presente e futuro. Esse último eixo se concretiza de maneira mais forte na arquitetura de Pierre Hebbelinck.
  Assim como o museu vai ao encontro da população local, em um trabalho educativo de longo termo, a arquitetura privilegia o que a natureza local tem para oferecer. Uma luz cinza, invernal, domina o ambiente. O teto intercalado de vidro e concreto deixa os fracos raios de sol se espraiarem tranqüilamente nas paredes ainda vazias da ‘‘sala quadrada’’, por exemplo.
  O vidro prioriza a luz natural, e deixa também se estabelecer o diálogo entre o contemporâneo e o patrimônio histórico — o Grand Hornu é um dos raros complexos industriais do século 19, construído sobre as bases da filosofia dos familistérios, a estar preservado — e direcionado para o futuro, agora, com o novo museu. Numa tangente da antiga construção, Hebbelinck criou a parte moderna do prédio do MAC’s, com salas de tamanho variável. ‘‘Não era necessário santificar o que já existia, mas aproveitar suas belezas e potencialidades’’, explica.
  Mas a concretude da arquitetura não apaga as inquietudes conceituais do diretor Laurent Busine. Ele se pergunta, aproveitando da situação singular de dirigir um museu com paredes vazias, por alguns meses ainda: ‘‘Hoje o MAC’s existe e não existe. Seriam então as pedras e tijolos que fazem de um museu um museu? Quando acreditamos abraçar um museu, ele nos escapa.’’


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