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10 de fevereiro de 2002
Pensar
O sangue e a cólera

Do russo Dostoiévski ao brasileiro Campos de Carvalho, a identificação na literatura de uma ‘‘voz raivosa’’ que tem a necessidade de quebrar protocolos, com instinto e ódio
Nelson de Oliveira
Especial para o Correio


Em literatura, mais precisamente no gênero romanesco, de tempos em tempos surge uma voz cuja necessidade de se fazer ouvir obriga-a a romper todas as barreiras morais, políticas e religiosas. Na falta de designação melhor, eu a chamo de voz raivosa. Cínica, sarcástica, colérica, ela pode ser ouvida, por exemplo, na boca dos deuses: Zeus proibindo seus pares de interferir na guerra de Tróia, e Jeová acusando o primeiro homem e a primeira mulher, antes de bani-los do Jardim do Éden. Ainda no Antigo Testamento, também pode ser ouvida na boca dos profetas por Ele autorizados a falar: Jó, Jeremias e João (este, no Apocalipse). Na literatura ocidental propriamente dita ela faz-se ouvir, vez ou outra, nas páginas de Boccaccio e Cervantes, quando, numa das cem novelas que compõem o Decamerão, Helena amaldiçoa Rinieri por tê-la aprisionado no alto de uma torre, ou quando o engenhoso Quixote afronta falsos gigantes e feiticeiros irreais. Mas, em todos esses casos, ela surge sempre reduzida à mínima intervenção, jamais se estendendo por toda a narrativa. Só no século 19 essa voz grosseira e roufenha vai tomar conta do discurso, a ponto de, num romance, dominar sobre as demais e obrigar o leitor a ouvir, de cabo a rabo, sua ladainha antipática, sua infinita enumeração de queixas, críticas e acusações.

O endemoninhado
Um funcionário público medíocre e grosseiro blasfema contra tudo e todos. Aos seus próprios olhos, acha-se muito superior aos que o rodeiam, dentro e fora do local onde trabalha. Os colegas do escritório, ou despreza ou inveja, e, em ambos os casos, jamais os encara de frente: ‘‘Está claro que eu odiava todos os funcionários da nossa repartição, do primeiro ao último, e desprezava-os a todos, mas simultaneamente como que os temia. Quer desprezando, quer colocando as pessoas acima de mim, eu baixava os olhos diante de quase todos que encontrava.’’ Seu discurso não é crítico — pois na crítica sempre há o desejo de construir algo —, é tão-só rancoroso, amargo. E ele sabe disso. Só não sabe dizer se o seu mau humor é que faz do mundo um lugar absurdo e estúpido ou se, ao contrário, é a mesquinhez do mundo que o deixa de mau humor 24 horas por dia.
  Sente-se mal de saúde, muito mal de saúde. Mas não faz nada para reverter esse quadro. Na verdade, sente prazer no seu estado mórbido, por isso não tem a menor intenção de procurar um médico: ‘‘Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais.’’
  Dostoiévski publicou as Memórias do Subsolo, protagonizadas por essa voz irascível que clama no deserto, em 1864, ou seja, imediatamente depois das Recordações da Casa dos Mortos (1861) e antes de Crime e Castigo (1866). A novela é dividida em duas partes: a primeira, de caráter mais passivo, é feita do longo depoimento do narrador-personagem a um grupo de interlocutores que permanece sempre oculto; a segunda, de caráter mais dinâmico, é composta das atribulações vividas pelo narrador, anos atrás, na São Petesburgo dos humilhados e ofendidos.
  O fato de Dostoiévski ter escrito essa narrativa na cabeceira de morte de sua primeira esposa, atacada de tuberculose, numa situação de aguda necessidade financeira, casa perfeitamente com a fala azeda de seu protagonista. Também se harmoniza com tudo isso a maneira eufórica com que Nietzsche, outro mal-humorado compulsivo, recebeu as Memórias: ‘‘A voz do sangue (como denominá-la de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites’’. Pelo que contêm de anedótico, tais apontamentos também servem para criar certo clima pungente, de folhetim, em torno da obra e do autor: um tapete vermelho rumo à canonização. Clima pífio, que o narrador da novela seria o primeiro a execrar. Afinal, por ser sempre ‘‘do contra’’, aos seus ouvidos toda essa generosidade e compaixão soariam no mínimo obscenas.
  A galeria de tipos irretocáveis criada pelo gênio polifônico de Dostoiévski é imensa. Mas nem em Raskolnikov nem em Ivan Karamazov, nem em nenhum outro de seus maiores protagonistas, a voz do homem subterrâneo, acuado feito um rato, se faz ouvir com tanta intensidade como nas imprecações deste existencialista do século 19. O narrador sem nome das Memórias do Subsolo é o verdadeiro homem sem qualidades, a pura materialização da ira (pecado que mais cultiva). Ora contra a ciência ora contra a superstição, ora contra o progresso ora contra o retrocesso, não acende vela nem para Deus nem para o diabo. Sua falta de compostura e seu comportamento antiliterário, no entanto, não deixaram herdeiros à altura, apesar do exército de imitadores que surgiram depois que Dostoiévski foi sagrado o maior romancista russo.
  Tendo desaparecido da Rússia, com a morte de Dostoiévski, e, de maneira geral, do mundo ocidental, a voz raivosa ficou praticamente de escanteio, reduzida a pequenas elocuções na obra dos modernistas. Ela fez rápidas aparições no Ulisses, de Joyce, e em Berlin Alexanderplatz, de Döblin. E em vários outros romances cujos narradores, por não fazerem parte da aristocracia beletrista, cultivavam a linguagem dos becos e dos barracos, grosseira e anárquica. Curiosamente, é na obra de dois romancistas de língua portuguesa que ela vai ressurgir com todo o esplendor que apresentara nas Memórias do Subsolo. Isso, praticamente um século depois de ter arrancado de Nietzsche interjeições de euforia.
  O primeiro dos dois romancistas é o brasileiro Campos de Carvalho. Autor de breve, porém incensada obra — cinco romances, um pequeno volume de ensaios e vários contos e crônicas esparsos —, este mineiro de Uberaba fez de seus protagonistas verdadeiros homens do subsolo tupiniquim. O narrador de seu primeiro grande romance, A Lua Vem da Ásia (1956), não tem nome nem identidade certa, podendo por isso ser qualquer pessoa. Julga-se hóspede de um hotel de luxo, quando, na verdade, encontra-se é num hospício. As sessões de eletrochoque a que é submetido fazem de seu relato confissões sarcásticas, das quais nem mesmo a mãe consegue escapar: ‘‘O coração pulsa-me dentro do cérebro e me faz estalar as têmporas, e nem ao menos posso passar a mão sobre o suor que me escorre da fronte, pois tenho as mãos atadas e também os pés, como o Crucificado ou mais exatamente como Prometeu no seu rochedo. Minha mãe, que faz as vezes do abutre, devora-me com seu olhar cheio de espanto, e mal se atreve vez por outra a tocar-me com a ponta dos dedos, como se eu fosse um leproso.’’
  Também o narrador do livro seguinte, Vaca de Nariz Sutil (1961), é outro desocupado sem nome. Ex-combatente (talvez da 2ª Guerra Mundial) sustentado pelo Estado, ele passa os dias num banco de jardim, observando as pessoas e a rotina da cidade onde mora: ‘‘Fico horas e horas espiando, do banco, as portas das casas em frente: quantas fechaduras, quanto mistério! De dia abrem-se todas, têm o riso fácil das prostitutas, e é o que são: mora lá dentro quem paga mais, quem pode pagar mais, e não o mais pobre; de noite têm o ar de honestidade que tem o morto, por dentro é podridão só, é só encostar o nariz e cheirar.’’ Também lhe apetece observar as crianças e suas jovens babás, que passeiam pela praça: ‘‘As crianças são adoráveis, vejam só esta: que coxas! É um perigo ter uma criança dessas dentro de casa, dentro do quarto. Passemos em frente, dó-ré-mi-fá-sol-lá-si, cinco vezes sete trinta e cinco — a aia, também poderia baixar-lhe o vestido, que diabo! Aquela carnação só se encontra nessa idade, a culpa é de Deus, não é minha, quer me enganar que o bispo não se sente também comovido diante desta realidade? — deixai vir a mim as criancinhas. A solução é namorar a aia, fazer de conta: CARAMBA!’’ Até que é acusado de violentar uma menor de idade. Nesse momento, sua voz, irada como a do romance anterior, deixa a pilhéria de lado e assume o tom niilista por excelência: ‘‘Matei dezenas, centenas de criaturas em nome da pátria e ainda me pagavam para matá-las: fui recebido de braços abertos e me condecoraram em praça pública; agora não matei ninguém, não fiz mal a ninguém, e tenho que andar rente aos muros como se fosse um criminoso.’’
  Mas é no romance seguinte, A Chuva Imóvel (1963), o mais claustrofóbico de Campos de Carvalho, que a voz raivosa se faz ouvir plenamente. Seu narrador, apesar de guardar muitas semelhanças com os anteriores, tem nome e sobrenome: André Medeiros. O problema é que ele não sabe se é de fato André, ou Andréa, sua irmã gêmea: ‘‘Assim como está é que não é possível, ou me aceito ou não me aceito como sou, este saco de gatos nesta cova de serpentes, cada hora um e o seu oposto, tremendo de medo e brandindo a espada ao mesmo tempo, cheio de náusea e de piedade, por mim e por todos’’. André, como o protagonista de Dostoiévski, é um obscuro funcionário de escritório que detesta o que faz: ‘‘Necessito urgentemente de umas férias, definitivas como as que goza um morto: ou gostaria ao menos que me enterrassem por uns tempos, como o faquir que bateu o recorde de jejum dentro de um esquife: apenas um tubo de borracha para, entre um tédio e outro, mandar o mundo à...’’ Sua língua ferina ocupa-se ora em louvar os atributos físicos da irmã, por quem alimenta o amor incestuoso, ora em demolir a vida pequeno-burguesa, medíocre, na qual está metido até o pescoço.

‘‘Penso, logo desisto’’
O segundo autor que deixou que a voz raivosa ocupasse praticamente toda a sua obra é o português António Lobo Antunes. Com mais de uma dúzia de romances publicados, muitos deles também no Brasil, Lobo Antunes é um desses escritores monotemáticos, que reelaboram insistentemente a mesma questão, tida sempre, ao menos para si, como crucial. No seu caso, o regime salazarista e a guerra nas colônias africanas são o tema sobre o qual discorreu, de maneira virulenta, em todos os seus livros.
  A voz rancorosa se utiliza, na prosa de Lobo Antunes, de períodos longos e sinuosos, que mergulham no modo de se expressar típico do barroco, diferente do que acontece na de Dostoiévski e Campos de Carvalho. Nesta há menos conjunções, as orações são dispostas quase que uma a uma, resultando, conseqüentemente, em períodos mais curtos. O que prova que a ira não perde tempo à procura do terreno ideal para se manifestar — todos são propícios. Para narrar os dramas vividos por essa pequena fatia da Península Ibérica chamada Portugal, os trajes que o rancor achou mais apropriado envergar são os do excesso metafórico, do lirismo absoluto.
  Os três primeiros livros de Lobo Antunes, Memória de Elefante, Os Cus de Judas (ambos de 1979) e Conhecimento do Inferno (1980), segundo o autor compreendem um único romance, publicado em partes devido à impossibilidade do editor de lançar, de um estreante, uma obra de quase quinhentas páginas. Fortemente autobiográficos, o primeiro e o terceiro concentram-se mais no mundo da psiquiatria, e o segundo, na guerra colonial. Há também uma mudança no foco narrativo: o primeiro exprime-se na terceira pessoa, os outros dois, na primeira, mas todos os três têm a mesma voz angustiada e infeliz. Posso afirmar, sem exagero, que não há em toda a obra ficcional de Lobo Antunes uma só linha que não seja amarga ou desesperada. Tudo, nela, induz a melancolia, o baixo-astral. Seus personagens quando não são esquizofrênicos, são cruéis e violentos. Não há, nunca houve, no mundo, romancista mais pessimista do que este.
  Não vou extrair desses livros e alinhar, no pouco espaço que me resta, o que o narrador pensa de Portugal, dos portugueses e de si mesmo. Tampouco a idéia — a pior possível, é claro — que faz da História e da humanidade em geral. O azedume não caberia aqui. Tome-se por base o que esse psiquiatra (alter ego do autor) diz, n’Os Cus de Judas, do sentimento mais sublime que alguém pode experimentar: ‘‘A felicidade, esse estado difuso resultante da impossível convergência de paralelas de uma digestão sem azia com o egoísmo satisfeito e sem remorsos, continua a parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstrato e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloqüentes, profundos e afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me posso exprimir, no ovo, os meus desejos de protesto e de revolta.’’ Nem mesmo o sexo — único momento em que, ao menos no plano biológico, a vida faz algum sentido —, cumpre papel relevante nesse universo: ‘‘Se estiver de acordo, talvez possamos tentar fazer amor, ou seja, essa espécie de ginástica pagã que nos deixa no corpo, depois de acabado o exercício, um gosto suado de tristeza no desastre dos lençóis.’’
  Ao que parece, pouco a pouco a voz raivosa vai conquistando espaço na literatura de língua portuguesa. No Brasil, como não reconhecê-la na boca dos protagonistas anônimos de Um Copo de Cólera (1978), de Raduan Nassar? Ou na de Rísia, a narradora aguerrida de As Mulheres de Tijucopapo (1982), de Marilene Felinto? Mais recentemente, ela migrou do romance para o conto. Como não reconhecê-la na boca das dezenas de narradores, cada um mais desbocado do que o outro, dos contos de Marcelo Mirisola (O Herói Devolvido, 2000) e Marcelino Freire (Angu de Sangue, 2000)? Ou, antes, na do jornalista-andarilho de Abraçado ao Meu Rancor (1984), de João Antônio?
  Que mais autores passem a escrever com ódio, deixando-se levar pela lábia dessa voz instintiva. O radicalismo contraditório da prosa seqüestrada por ela chega a ser exasperante, pois, ao passo que essa voz critica o estado de coisas, seja este qual for — de esquerda, de direita, democrático, totalitário —, não faz distinções entre o desejável e o indesejável. Tudo para ela é extremamente condenável, inclusive sua própria virulência. Sob sua ótica, não há o bem e o mal, há apenas o mal e, mais além, o muito pior, postura que se baseia na constatação de que o próprio ser humano é uma experiência fracassada.


O escritor Nelson de Oliveira é autor de Subsolo Infinito (Companhia das Letras) e O Filho do Crucificado (Ateliê Editorial), entre outros.



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