Arthur Dapieve
Do no.com.br
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| O Radiohead de Thom Yorke: beleza insuportável e sem concessões |
A 3 de outubro de 2000, o Radiohead lançou o CD Kid A. A 5 de junho de 2001, o quinteto inglês lançou o CD Amnesiac, gravado nas mesmas sessões que renderam Kid A. A 13 de novembro de 2001, Thom Yorke (voz, guitarra e piano), Jonny Greenwood (guitarra e piano), Ed O’Brien (guitarra), Colin Greenwood (baixo) e Phil Selway (bateria) lançaram no Primeiro Mundo o CD I Might Be Wrong — Live Recordings, registro ao vivo de sete músicas originalmente gravadas em, isso, adivinhou, Kid A e Amnesiac (e mais uma inédita, chamada True Love Waits). Quantos grupos de rock vivos no mundo poderiam ter tido tal surto criativo sem cair na mesmice, na autocomplacência, na irrelevância ou na pura e simples picaretagem? Um, o próprio Radiohead. Qual foi o último grupo de rock a incorporar o Caboclo Gravador e sair lançando um bom disco atrás do outro? Possivelmente o Clash, entre 14 de dezembro de 1979 e 12 de dezembro de 1980, quando botou na rua os clássicos London Calling (duplo em LP) e Sandinista! (triplo em LP).
Pois I Might Be Wrong, título de uma das faixas, primeiramente apresentada em Amnesiac, está sendo lançado agora no Brasil pela EMI. Os quase três meses de defasagem em relação ao aparecimento do CD lá por cima pouco representam. O Radiohead continua na vanguarda de sua própria tendência — a das bandas formadas em Oxford em 1989 e que agregam elementos eletrônicos ou jazzísticos sem deixar de fazer rock ou, mais ainda, de se pretender rock — e continua mexendo com as cabeças. A questão é: qual o sentido de lançar um álbum que retoca em cima de um palco faixas ouvidas pela primeira vez em álbuns lançados no último um ano e um mês? Excluída a priori a opção ‘‘obrigação contratual’’, impensável para quem lançou em seqüência dois álbuns de tão solene desprezo pelo tal do mercado quanto Kid A e Amnesiac, podemos cair na tentação de achar um ‘‘conceito’’ para o novo lote. Não há, contudo, conceito algum: o CD era para ter sido um single de I Might Be Wrong com faixas-bônus ao vivo que cresceu o bastante para virar um álbum curto (pouco mais de 40 minutos).
Tampouco trata-se de um álbum ao vivo, na medida em que não há a menor intenção de tentar registrar (até pela brevidade do registro) o que seja um show inteiro do Radiohead. Mas ainda assim é bom? Ouvir de novo The National Anthem ou Idioteque?! É, o pior é que é bom. Mesmo. Por três ou quatro razões básicas. Primeira, o fato de I Might Be Wrong ser um disco ao vivo realça certas características do Radiohead, sobretudo as roqueiras: diante de seu público, na impossibilidade de reproduzir fielmente todas as filigranas concebidas em estúdio, há uma ênfase no peso, no contato direto dos amplificadores com o coração dos espectadores.
Segunda, as intervenções do público — que chega a rezar a letra obsessiva de Idioteque junto com Yorke e a bater palmas no ritmo tênue de Everything in Its Right Place — quebram um pouco a frieza claustrofóbica deliberada nos discos do grupo desde Ok Computer (1997), adicionando uma outra dimensão à melancolia eletrônica daquelas músicas. Terceira, a soma das razões primeira e segunda torna I Might Be Wrong o álbum mais acessível da trilogia iniciada por dois discos complexos e intelectualizados.
Quarta razão, a música inédita, True Love Waits, é de uma beleza quase insuportável, com seu crescendo sem fim de violões, e ensina um bocado sobre a cabeça do grupo: nela, o acústico é usado como se eletrônico fosse, criando textura mais que melodia. É como se ela tivesse uma errata embutida: ‘‘Onde há violões, escute-se teclados’’. Habitual em diferentes arranjos nos shows do grupo desde que foi apresentada pela primeira vez, em Bruxelas, em dezembro de 1995, ela nunca foi capturada em estúdio. É uma letra de amor à moda elíptica de Yorke: ‘‘(...) E o amor verdadeiro espera/ Em sótãos assombrados/ E o amor verdadeiro vive/ De pirulitos e batatas fritas/ Só não se vá, não se vá/ Eu não estou vivendo/ Estou apenas matando tempo/ (...)’’ Pode uma faixa só valer um disco inteiro? Não, sobretudo com os preços praticados beirando os R$ 30,00. Mas que dá vontade de escrever esse velho clichê da crítica musical a propósito de True Love Waits, ah, dá. A música fecha I Might Be Wrong como se abrisse uma janela.
E as demais sete faixas, conhecidas de outras Quartas-Feiras de Cinzas, também são arejadas de uma forma ou de outra: a introdução de Like Spinning Plates, por exemplo, troca a eletrônica por um pianinho solene que faz pensar em Michael Nyman. No final das contas — Kid A + Amnesiac + I Might Be Wrong — fica claro que o Radiohead estava certo, certíssimo, ao peitar as convenções do rock no estúdio e ao peitar as convenções do rock nos palcos. Ao não transigir com a inclusão de suas músicas mais conhecidas, como Fake Plastic Trees ou High and Dry, não por acaso ambas pré-Kid A, no seu primeiro registro oficial ao vivo, o grupo de Thom Yorke como que repete: ‘‘Olha só, rapaziada, isso é tudo que a gente tem a dizer no momento. Por ora, a gente não vai fazer nenhuma concessão à ‘sensibilidade média’. Gostaram? Beleza. Não gostaram? Vão escutar Oasis.’’
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I Might Be Wrong — Live Recordings
Disco ao vivo da banda Radiohead. Lançamento EMI, sete faixas.
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