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Brasília, domingo, 10 de fevereiro de 2002
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| Pensar |
Linhas cruzadas
Leia conto-fragmento do romance Idéias para Onde Passar o Fim do
Mundo, de João Almino, que, tendo iniciado em 1987 a Trilogia de Brasília (da qual fazem parte Samba-Enredo e As Cinco Estações do Amor, lançado em 2001), será reeditado pela Record quinze anos depois, em junho deste ano
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João Almino
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| A capa da primeira edição |
Fernanda Kaufmann é um desses ‘‘outros’’ que insistem em participar da história, mesmo que como personagem totalmente secundário.
Era sábado de carnaval, e ela só veio a saber o que acontecia no país pelas linhas cruzadas do telefone.
Esse ano, Pedro Luís, o marido, não quis brincar carnaval. Fernanda podia ir ao clube se quisesse, só não aprontasse escândalo, ele dizia. Ela pensou em ligar para Ana, casada com seu irmão Eduardo. Por fim, preferiu ficar em casa, ouvindo de longe os atabaques.
Assim, naquele sábado, assistiam ao vivo, pela TV, cenas do carnaval do Rio. No desfile da Mangueira, o Sambódromo ficou decorado com enormes figuras humanas, representando personagens da história, de Pedro Álvares Cabral a Chica da Silva, de Pedro I a Pelé, de Carmen Miranda a Getúlio Vargas. Ali estava também um cartaz rosa retratando Paulo Antônio. Era o primeiro presidente das histórias dos carnavais a merecer, no Sambódromo, um retrato que, de tão grande, só não era comparável aos que produziam o culto da personalidade no Leste Europeu, porque o presidente era preto, estava alegre e tinha sido desenhado numa veste verde e amarela.
Um pernilongo zumbiu fino e voou muito, sobre a cabeça de Pedro, pelos cantos da sala, passou até pela frente da televisão. Ninguém o percebeu. Não conseguiu, portanto, interromper as atenções de Fernanda, que continuava assistindo ao carnaval pela televisão.
Até que neste ponto da história, naquela noite de sábado de carnaval, bateu o telefone, e Fernanda o atendeu já ouvindo o vozerio de fundo, muita gente falando ao mesmo tempo e uma voz grossa de um senhor, que se destacava das demais, propondo que todos desligassem ao mesmo tempo. Era a única maneira de descruzarem as linhas.
‘‘Eu queria ouvir de novo a voz daquela gostosa. Fala de novo, fala!’’
E outra voz lhe respondia:
‘‘Quer um beijo, queridinho?’’
E então ouviam-se risos.
Cada vez um número maior de pessoas surgia na linha, disputando palavrões, propostas para eliminar o defeito telefônico e piadinhas, até que alguém que falava aos gritos foi, pouco a pouco, impondo silêncio aos demais.
‘‘Gente, me ouça, por favor! Os telefones estão controlados! O presidente acaba de ser seqüestrado!!! Acaba de ser seqüestrado!!!’’, gritava ainda mais alto.
Só Fernanda acreditou. Acreditou tão profundamente, que Pedro a encontrou chorando, com o telefone na mão.
Na rua, fora, a alegria, os ritmos invadiam todos os espaços. Dentro, a televisão ainda lembrava que o país dançava, pulava carnaval.
Paulo Antônio fora visto em público pela última vez num palanque carnavalesco. Como os guardas que sobreviveram se negaram a prestar esclarecimentos à imprensa, a única reconhecida testemunha da volta dele ao palácio fora um bêbado fantasiado de mulher.
O presidente, aliás, percebera a velhota gorda, bolsa a tiracolo, cabelos já brancos, um ar de curiosidade, sem saber, contudo, que ela era o bêbado fantasiado.
Logo viria a quarta-feira de cinzas — você sabe o que isso significa. E algum tempo depois, uma sexta-feira da paixão — mas isso já seria outra história, impossível de ser narrada aqui por causa de algo terrível que aconteceu com esta página. Paciência! Temos que aceitar os acidentes de percurso. Exatamente naquele ponto, Moscoso, o cão que estava a meus pés e que depois de minha morte continuara com Silvinha, acabava de mastigar aquela, digo, esta página da narrativa, cujo texto já não consegui ler. Não havia mais jeito. A menos que o leitor quisesse compor o romance na sua cabeça e os seqüestradores dar sua versão dos fatos, o seqüestro e as explosões que se seguiram apenas pontuariam as histórias, ao longe, marcando um tempo, como num filme de Buñuel. A lacuna, desta vez, seria inevitável.
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Eles estão certos Livre Pensar Continente em turbulência Museu correto O sangue e a cólera Eles estão certos Fazer Arte
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