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19 de fevereiro de 2002
Mundo
VISITA À ÁSIA
Bush causa pânico no mercado japonês

Em Tóquio, o presidente dos Estados Unidos troca o termo deflação por desvalorização e derruba por alguns minutos a cotação do iene. Passado o susto do mercado financeiro, ele afirmou que acredita na recuperação econômica do Japão. O líder norte-americano chega hoje à Coréia do Sul
Das agências
Scott Applewhite/AP
Depois do deslize, Bush, sua mulher Laura (C) e o primeiro-ministro japonês, Koizumi (E) seguiram para o templo budista de Meiji

A primeira escala do presidente George W. Bush em seu giro pela Ásia começou com uma gafe. Ontem, no Japão, ele deixou em polvorosa o mercado financeiro do país quando confundiu o termo deflação(inflação negativa) com desvalorização e derrubou a cotação do iene. O incidente, mais um numa longa listas de deslizes do presidente norte-americano, aconteceu em Tóquio quando Bush, ao lado do primeiro-ministro do Japão, Yunichiro Koizumi, falava à imprensa sobre os modelos econômicos que seriam adotados para reativar a economia japonesa, a segunda maior do planeta.
  ‘‘Ele (Koizumi) falou dos créditos duvidosos (dos bancos), do problema da desvalorização e das reformas. Insistiu sobre os três com a mesma impor-tância’’, declarou um sorridente Bush aos repórteres. Seu comentário provocou pânico imediato nos mercados de câmbio, que interpretaram as declarações como uma vontade dos Estados Unidos de deixar flutuar o iene frente ao dólar.

Nervosismo
Bush conversou com o pri-meiro-ministro Koizumi, mas eles falaram de deflação e não desvalorização da moeda japonesa. O resultado foi um nervosismo nas bolsas que durou alguns minutos até que os assessores do presidente norte-americano se retratassem por ele. O estrago, porém, foi visível: dos 132,80 ienes por dólar, a cotação caiu para 132,65 por dólar. No final do dia, a moeda japonesa fechou em 132,68.
  ‘‘A cotação do dólar frente ao iene ficou em alta imediatamente depois que o presidente falou em desvalorização. Em pânico, as pessoas saíram vendendo ienes’’, explicou um cambista da Barclays Capital. ‘‘Mas logo nos demos conta de que, sem dúvida, ele queria dizer deflação’’, esclareceu.
  Não é de hoje que confusões do tipo causam embaraços aos presidentes norte-americanos e seus assessores. Em 1963, no auge da Guerra Fria, o então presidente John Kennedy até que tentou falar alemão. Diante de milhares de alemães que foram recebê-lo junto ao lado ocidental do Muro de Berlim ele disse solenemente: ‘‘Eu sou uma rosquinha com geléia’’. O que ele pretendia dizer era ‘‘eu também sou um berlinense’’. A gafe foi até recebida com simpatia. Hoje é motivo de piada e estampa de camisetas.
Deslizes à parte, a agenda de Bush correu como o previsto. O presidente norte-americano declarou que está confiante que Koizumi conseguirá implantar reformas na economia do país. E destacou que as mudanças que o governo japonês deve implantar serão importantes não somente para o Japão, como também para a Ásia e para o mundo.

Sinais positivos
O presidente dos Estados Unidos chegou a Tóquio no domingo e ainda deve visitar a Coréia do Sul e a China. É a primeira visita de Bush ao Japão, que ele vê como o principal aliado dos Estados Unidos na Ásia. Ele afirmou aos jornalistas que a aliança entre os Estados Unidos e o Japão é a ‘‘base para a paz e a prosperidade’’ no Sudeste a-siático. Bush afirmou ainda que a economia americana já deu bons sinais de estar se recuperando da recessão.
  Em relação à campanha antiterrorista, Bush agradeceu pelo apoio após os atentados de 11 de setembro. De fato, o Japão adotou, no final do ano passado, uma lei especial que permite o envio de navios de guerra ao Oceano Índico, na primeira missão militar japonesa fora do arquipélago depois do término da Segunda Guerra Mundial.
  O presidente dos Estados Unidos reiterou ao Japão a posição de seu país sobre o Iraque, o Irã e a Coréia do Norte e enfatizou que deseja resolver todos os problemas de maneira pacífica, mas que ‘‘guarda todas as opções sobre a mesa’’. Depois da entrevista coletiva, Bush seguiu para uma visita ao templo budista de Meiji, na parte antiga de Tóquio.
  Bush segue hoje para Seul, onde provavelmente não verá as manifestações contra sua visita. Ontem, a polícia agiu com violência para retirar estudantes que ocupavam a sede da Câmara de Comércio dos Estados Unidos na capital coreana. Pelo menos 46 manifestantes foram detidos no protesto.
  Durante a ocupação, que durou três horas, os estudantes quebraram uma janela do 45º andar do prédio para lançar papéis nos quais chamavam Bush de ‘‘drogado de guerra’’. ‘‘Estamos sabendo da visita de Bush à Coréia do Sul’’, lia-se em uma bandeira.


SUSTO

Na abertura dos mercados asiáticos, o iene valia

132,80
por dólar

Depois da declaração de Bush a moeda caiu para

132,65
por dólar

No final do dia, a moeda japonesa fechou em

132,68
por dólar



AS GAFES DO PRESIDENTE

O presidente norte-americano é famoso pelas escorregadas gramaticais, pelo estilo rude e informal e pelo pouco conhecimento de geopolítica. Antes dos ataques de 11 de setembro, Bush pensava que Talibã era um grupo de rock.

Junho de 1999
Em um debate transmitido pela TV, Bush disse que seu país deveria manter boas relações com os ‘‘grecianos’’, referindo-se aos gregos

11 de setembro de 2000
Em plena campanha para a presidência Bush esqueceu o microfone e disse a um de seus assessores que o repórter Adam Clay, do New York Times, era um ‘‘babaca de primeira’’

21 de abril de 2001
‘‘Não respondo a perguntas em francês, inglês ou mexicano’’, disse durante a conferência da Alca em Quebec

29 de janeiro de 2001
‘‘Não estou preocupado em manter os poderes do Executivo apenas para mim, mas também para meus predecessores’’

14 de junho de 2001
Em visita à Suécia, declarou: ‘‘A África é uma nação que sofre doenças inacreditáveis’’


Censura à informação científica
Da Redação
Com agências


  A paranóia dos Estados Unidos com segurança, depois dos atentados de 11 de setembro, chegou à comunidade científica do país. O governo norte-americano não apenas está censurando a difusão de informações técnicas que possam ser utilizadas para fabricar armas de destruição maciça, como pediu a sociedades científicas que limitem a publicação de detalhes de pesquisas em seus relatórios e publicações.
  Até há pouco tempo, não era difícil encontrar na Internet ou então comprar diretamente de agências governamentais material sobre o antigo programa bacteriológico norte-americano, referente aos anos 40, 50 e 60 — arquivos que ensinavam a fabricar armas biológicas caseiras e até sofisticadas. Só no último mês, porém, o governo retirou de circulação mais de 6.600 documentos técnicos, principalmente relacionados à produção de armas químicas e biológicas. É uma operação sem precedentes, considerando-se que boa parte das informações agora confidenciais já era de domínio público.
  Os documentos proibidos incluem, por exemplo, estudos sobre como envenenar a água, i-dentificar a variedade mais letal da varíola ou calcular a devastação de uma explosão nuclear. Já não está mais na web, também, a lista das usinas nucleares dos Estados Unidos, possíveis alvos de ataques terroristas.
  ‘‘Estamos tentando fixar normas para evitar que terroristas utilizem contra nós as informação produzida no país’’, disse o secretário de Segurança Interna, Tom Ridge. Nas próximas semanas, além disso, deve ser anunciada uma nova política de segurança de informações, que resultará na censura de mais pesquisas ainda. Ele afirmou que o governo está consultando os cientistas para a elaboração das novas normas.
  A censura, porém, está sendo duramente criticada pela comunidade científica, que acusa o governo de obstruir avanços em áreas que nada têm a ver com programas de guerra bacteriológica. Os cientistas argumentam que a medida vai destruir os fundamentos da Ciência norte-americana, porque impedirá a livre troca de informações entre os diversos laboratórios. ‘‘Deve haver uma relação de risco/benefício’’, acredita Robert Rich, presidente da Federação Americana de Sociedades de Biologia Experimental, que falou ao jornal The New York Times. ‘‘O risco de impedir novos avanços tecnológicos é muito maior do que deixar a informação cair em mãos erradas’’.
  A Sociedade Americana de Microbiologia, que congrega o maior número de pesquisadores em germes do mundo, foi uma das entidades que recebeu o pedido da Casa Branca para limitar a divulgação de informações ‘‘potencialmente perigosas’’ em suas publicações. Uma das propostas do governo é que seja eliminada uma seção de artigos que divulga detalhes experimentais de pesquisas para que outros laboratórios possam replicar os resultados.
  ‘‘O terrorismo se alimenta do medo e o medo se nutre de ignorância’’, protestou Abigail Salyers, presidente da sociedade. Ironicamente, o FBI (polícia federal) pediu à mesma entidade ajuda para solucionar os casos de ataque por antraz que assustaram o país e mataram cinco pessoas no último trimestre do ano passado. os agentes acreditam que o autor é um cientista norte-americano. Já naquela época, o governo havia retirados dos sites de seus departamentos boa parte das informações sobre armas e vulnerabilidades do país.


Ecoterroristas na mira dos EUA

O governo norte-americano também está de olho nos ecoterroristas, aqueles que atacam produtores de peles de animais, colocam fogo em laboratórios científicos e invadem matadouros. O Congresso está estudando novas leis que vão considerar tais crimes como delitos federais e tornar mais rígidas as punições, enquanto o FBI (polícia federal) treina agentes para combater os ecoterroristas. Na maior parte os crime cometidos em defesa de animais ou do meio ambiente são executados por pequenas células de indivíduos associados a entidades como a Frente para Libertação Animal (ALF) e a Frente de Libertação da Terra (ELF). (Da Redação)


   Apelo conjunto ao FMI  
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