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Brasília, terça-feira,
26 de fevereiro de 2002
Cultura
dança
Passista de sapatilhas

Nas décadas de 30 e 40, a bailarina Eros Volúsia incorporou ao balé clássico movimentos do bailado brasileiro. Hoje, aos 87 anos, a pioneira na pesquisa em dança no país será homenageada com coreografia e com a criação do Centro de Documentação e Pesquisa da UnB, que leva seu nome
Alethea Muniz
Da equipe do Correio


Nehil Hamilton
Eros Volúsia trouxe de presente para a UnB as sandálias douradas que dançou em Hollywood




Eros na capa da Life em 1941

Eros Volúsia Machado caminha devagar, com certa dificuldade, mas não pensa duas vezes antes de reproduzir os passos de Cascavelando, inspirados no rastejar dos répteis. Nem de mostrar os braços de Tico-Tico no Fubá, coreografia que fez para a música de Zequinha de Abreu e dançou no filme hollywoodiano Rio Rita, de 1942. ‘‘A Carmem Miranda dizia: ‘Vou imitar as suas mãos’. E eu respondia ‘pode copiar’, porque só se copia o que é bom’’, conta.
  Aos 87 anos, Eros é uma das figuras mais importantes da dança brasileira. Começou no balé clássico aos 4 anos, estreou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1937, e passou a criar as próprias coreografias com elementos das danças populares brasileiras. Dançou samba de sapatilhas, caprichou na ginga dos quadris. Levou para o Rio de Janeiro o frevo, o maracatu e o caboclinho de Pernambuco. Também os movimentos dos terreiros baianos. ‘‘Todo lugar que tinha dança, eu ia espiar.’’
  Espiou tanto que passou a ser considerada a criadora do bailado brasileiro, a Isadora Duncan deste país, embora a história ainda lhe deva o lugar que merece. Pela ousadia (usava trajes de baiana com barriga de fora e dançava em cassinos), não raro era confundida com as vedetes dos anos 30 e 40. ‘‘A Eros chega para a gente como uma bailarina exótica, mas ela era pesquisadora, no sentido que se tem hoje. Ela achava que o país tinha que ter uma dança própria’’, afirma a professora Soraia Maria Silva, do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB).
  Soraia reuniu tanto material quando possível sobre a carreira da bailarina carioca, filha dos poetas Rodolfo (1885-1923) e Gilka Machado (1893-1980). Livros, fotografias, vídeos, certificados. Arquivo que passa a integrar o acervo do Centro de Documentação e Pesquisa em Dança Eros Volúsia, da UnB, que será fundado hoje, às 11h, no auditório da Finatec. A intenção é reunir vasto material sobre dança, catalogado e disponibilizado para consultas na Biblioteca Central da universidade.
  Na cerimônia de abertura, haverá reconstituição da coreografia Tico-Tico no Fubá, dançada por Soraia e pelas estudantes de artes cênicas Ana Vaz, Maíra, Maria Neves e Themis Lobato. ‘‘A Eros tem uma brasilidade enorme. Buscou tudo na fonte’’, diz Maria, enquanto tira a indumentária com colares de pedras, saia longa, salto. Os figurinos são semelhantes aos do longa-metragem norte-americano.

Sandálias douradas
‘‘O sentido dessa homenagem é resgatar a história da Eros. Vamos dar as mãos para o passado e agora ela vai encontrar o seu lugar’’, afirma Soraia. A professora só lamenta a falta de patrocínio para adquirir os documentos originais para o Centro — cerca de R$ 10 mil. Por enquanto, só há cópias. E uma preciosidade que Eros trouxe no último sábado, ao desembarcar em Brasília: as sandálias douradas que usou para gravar em Hollywood. ‘‘Esse salto foi idéia minha’’, conta Volúsia. ‘‘Eu sempre criei meus figurinos.’’
  As sandálias se assemelham às que ontem estavam em seus pés, também douradas. E os colares que usa lembram aqueles dos figurinos. A vaidade não se perdeu com a idade e a tranqüilidade é algo que paira em seus olhos. A bailarina vive no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, com o sobrinho Amaury Menezes. Nunca casou-se. ‘‘Segui os conselhos da minha mãe. Ela dizia que se eu me casasse, viraria escrava.’’ Teve pretendentes, e o coração balançou por alguns deles. ‘‘Mas queriam que eu parasse de dançar. Fiquei com a dança.’’
  Eros Volúsia foi capa da revista Life (1941) e chegou fazer conferência nos Arquivos Internacionais da Dança, em Paris, em 1948. No Brasil, participou dos filmes Romance Proibido (1944), O Samba da Vida (1937) e Caminho do Céu (1942). Um incidente marcou sua vida, afastando-a por algum tempo do palco. O navio que trazia a bagagem (figurinos, especialmente) de viagem aos Estados Unidos foi destruído durante a 2ª Guerra Mundial.
  ‘‘Ela veio de avião, mas teve um colapso. Ficou muito nervosa porque perdeu todo o acervo’’, conta Menezes. Depois disso, Eros dedicou-se à escola de dança que levava o seu nome, hoje extinta. Formou tantas alunas que perdeu as contas. A passagem dos anos não a faz melancólica. Quando se pergunta qual o momento mais marcante da carreira, Eros responde: ‘‘É estar aqui hoje’’. E olha para os banners com fotografias suas, das quais se lembra de algumas, outras lhe fogem à memória. Memória que será preservada em Brasília.


SERVIÇO
HOMENAGEM À EROS VOLÚSIA
Fundação do Centro de Documentação e Pesquisa em Dança, hoje, às 11h, no Auditório da Finatec (campus da UnB). Com reconstituição da coreografia Tico-Tico no Fubá, homenagem à bailarina Eros Volúsia e vivência do músico e artista plástico Amaury Menezes. Entrada franca.



Artigo
Criadora do balé brasileiro
Soraia Maria Silva
Especial para o Correio


Sempre precursora, Eros Volúsia se alimentava na mesma fonte inspiradora dos grandes mestres da dança moderna internacional, como Isadora Duncan, Rudolf Laban e Mary Wigman. Como eles, desenvolveu uma linguagem muito própria, também expressionista, um expressionismo bem brasileiro.
  Volúsia é o nosso grande salto qualitativo, aquela que inaugurou a atitude de ‘‘dançarino pesquisador’’. Um fato importante para os brasilienses, sabe-se que em 1958, o primeiro espetáculo de dança realizado em Brasília (10 de outubro) foi com Eros Volúsia (no Brasília Palace Hotel).
  Eros Volúsia, ao criar sua estética do ‘‘balé brasileiro’’, com uma nova metodologia na dança procurou averiguar a formação do conhecimento artístico, além das linguagens já estabelecidas (o balé clássico), no seu processo de união e de integração do homem com informações primordiais de sua natureza primitiva. A bailarina acreditava ser tarefa da arte, não só o domínio das linguagens codificadas em que essa se propõe expressar, mas também da pré-linguagem, na qual a unidade perceptiva do artista atualiza, na obra realizada, a consciência coletiva e o conhecimento intuitivo. Sua dança apresentava uma preocupação estética de desenvolvimento do conhecimento/movimento nos seus novos meios/mensagens.
Com sua extrema sensibilidade criativa, a bailarina percebeu o poder de se cultivar uma memória ética/estética, quando através de suas danças recria ritmos populares como o frevo, o samba e a congada sob formas híbridas com outras técnicas de dança, como a clássica ou a expressionista (ela foi a primeira bailarina que ousou sambar com as sapatilhas de ponta). Essa atitude da bailarina pode ser considerada uma atitude de compreensão de uma grande possibilidade de desenvolvimento da linguagem artística na modernidade, ou seja a expressão híbrida.
  Dessa profusão de imagens poéticas, de um Brasil mestiço, Eros recria no movimento dos seus olhos, de suas mãos, de seus quadris e de sua boca em eterno sorriso a cadência da dança híbrida, alegre, universal e brasileira.  


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