1° CADERNO - Opinião
1° CADERNO
Capa
Índice
Últimas
Opinião
Tema do Dia
Justiça
Saúde
Cidades
Economia
Mundo
Cultura
Esportes
A Foto do Dia
GUIA
Memória do Correio
Grita Geral
Dinheiro
Consultório Econômico
Divirta-se
Tome Nota
Tevê
COISAS DA VIDA
Matérias
SUPLEMENTOS
Direito & Justiça
COLUNAS
Crônica da Cidade
Desabafo
CAPA - PDF
Capa em PDF
ESPECIAIS
Código de Ética
SETE DIAS
Domingo
Segunda
Terça
Quarta
Quinta
Sexta
Sábado
      
Brasília, segunda-feira,
11 de março de 2002
Opinião
Brasília, campeã nacional da violência urbana

Segurança não é apenas caso de polícia. É questão de gerência e credibilidade. Em ambas, o povo brasileiro tem dado lições de competência, lamentavelmente não assimiladas por suas elites dirigentes
Reginaldo de Castro

Brasília, quem diria, é hoje a cidade mais violenta do país, acima mesmo de São Paulo e Rio de Janeiro, segundo dados colhidos junto ao Ministério da Justiça. De cidade pacata, quase interiorana, destinada a abrigar os poderes constituídos da República e o corpo diplomático internacional, transmutou-se em metrópole violenta, líder nacional em diversos quesitos que medem a criminalidade urbana.
  Os dados do governo federal, correspondentes ao primeiro semestre de 2001, disponibilizados na Internet (www.mj.gov.br/Senasp), atestam a liderança da capital federal em ações como furto de veículos, latrocínio, lesões corporais, estupro e em quesitos classificados vagamente como ‘‘outros furtos’’ e ‘‘outros roubos’’.
  Em ‘‘extorsão mediante seqüestro’’ — os chamados seqüestros relâmpagos, em que a vítima é saqueada nos caixas eletrônicos —, Brasília figura apenas atrás de São Paulo, com 0,1 caso para cada cem mil habitantes, contra 0,3. Em ‘‘roubo de veículos’’, está apenas atrás de São Paulo e Rio, embora emparelhada com ambos.
  As medições são feitas quase sempre na proporção de uma ocorrência para cada cem mil habitantes. Trata-se, pois, de números proporcionais, não absolutos. Brasília está bem à frente das demais capitais brasileiras, como Salvador, Recife, Fortaleza ou Porto Alegre, que lhe são equivalentes em densidade populacional.
  Não há nem mesmo a desculpa de não dispor de aparato policial adequado. Brasília possui o maior, mais bem pago e equipado contingente policial — civil e militar — do país, com 995,51 policiais por 100 mil habitantes, enquanto São Paulo conta com 298,24 e Rio de Janeiro 304,99. Portanto, possui o Distrito Federal um policial para cada 100 habitantes, enquanto São Paulo apenas um para cada 335, e o Rio um para cada 328.
  Se a nossa polícia é estruturalmente razoável e relativamente bem paga — e os números assim o atestam —, o que explica índices piores que os das demais capitais, onde a estrutura de segurança é mais precária e as pressões sociais mais intensas e complexas?
  A resposta é inevitável: má gerência do sistema de segurança pública da capital. Em qualquer nível de comparação, Brasília apresenta conjuntura mais favorável que Rio e São Paulo em face da segurança pública. Possui a maior renda per capita do país, e sua periferia, por mais que cresça assustadora e desordenadamente, está longe de oferecer a mesma dimensão de complexidade do quadro existente no eixo Rio-São Paulo, que há bem mais tempo convivem com esse drama. As favelas cariocas, por exemplo, dominadas pelo narcotráfico, são bem mais impermeáveis ao poder público que a periferia de Brasília.
  É assombroso, por exemplo, que Brasília tenha assumido a liderança nacional em furto de veículos. Enquanto em São Paulo — equivocadamente apontado como líder nacional em criminalidade urbana — há 520,5 roubos para cada cem mil veículos, em Brasília esses números vão a 571,05. Na categoria ‘‘outros furtos’’, São Paulo figura com 573,17 para cada cem mil habitantes. O Rio com modestos 278, e Brasília — pasmem! — com 1.038 para cada cem mil habitantes. Quase o dobro de São Paulo e quase o quádruplo do Rio.
  Em latrocínio — a mais violenta e qualificada modalidade de roubo —, Brasília é também campeã nacional: 1,72 caso por cem mil habitantes, contra 0,76 do Rio e 0,63 de São Paulo. Em ‘‘outros roubos’’, que pressupõem constrangimento físico às vítimas, outra goleada. Brasília tem 453,6 casos para cada cem mil habitantes, enquanto São Paulo tem 290,3 e Rio, 231,7. Quase a metade.
  Na categoria ‘‘lesões corporais’’, outra disparada. Brasília apresenta 474,72 casos por cem mil habitantes, contra 370,43 de São Paulo, e 311,26 do Rio. Também a incidência de estupro, delito de grande carga de violência e teor traumático, a capital do país está duas vezes à frente de São Paulo, que figura em segundo lugar. Brasília registra 10,30 casos para cada cem mil habitantes, enquanto São Paulo registra um pouco menos da metade: 5,12. O Rio registra 4,71.
  Outro quesito medido pelo Ministério da Justiça é o ‘‘atentado violento ao pudor’’. Aí, a liderança surpreendentemente é de Mato Grosso do Sul, com 11,3 para cada cem mil habitantes. Mas Brasília vem a seguir, com 7,8. São Paulo figura com 5,7, e Rio com 5,1.
  Em homicídio doloso, a classificação é mais amena: 6º lugar, com 16,88 casos para cada cem mil habitantes. Mas Rio e São Paulo, que lhe antecedem, estão quase empatados: Rio, com 18,79, e São Paulo, com 17,74. A liderança aí é do Espírito Santo, seguido por Rondônia e Alagoas.
  Esses dados, que passaram até aqui ao largo da percepção da mídia, mostram que algo de assombroso acontece bem diante do nariz das principais autoridades do país — e nada de extraordinário acontece. Esses números mostram que estamos diante do ovo da serpente, permitindo que se edifique uma sociedade crescentemente violenta no centro de decisões do país. O Estado brasileiro precisa fazer algo mais que constituir comissões burocráticas para reverter esse quadro.
  Não carecemos de diagnósticos, mas de providências. A recente mobilização nacional em torno da crise energética mostra que o povo brasileiro, quando devidamente acionado, é prestativo e competente. A vitória contra o apagão não é do Estado, mas da sociedade. O povo jamais se negou a atender a convocações do Estado. Basta ver os fiscais do Plano Cruzado e a mobilização do Plano Real.
  O Estado, porém, quase nunca valoriza esse patrimônio a seu alcance. Basta ver que, nas diversas reuniões para tratar das emergências da segurança pública, deixou a sociedade de fora. Reuniu apenas suas próprias instituições para descobrir por que não funcionam. A resposta é simples: o povo está do lado de fora — e, sem ele, nada feito. Sem adesão popular, nenhum plano funciona.
  Em Brasília está a síntese do problema: má gestão do sistema e desprezo pela participação social. Segurança não é apenas caso de polícia. É questão de gerência e credibilidade. Em ambas, o povo brasileiro tem dado lições de competência, lamentavelmente não assimiladas por suas elites dirigentes.

Reginaldo de Castro, ex-presidente da OAB, é advogado


   Alca inviável  
   Charge / Kacio  
   Bombas políticas no pleito  
   Sr. redator  
   Preconceito  
   A Brasília, capital, e o Entorno, estadual  

  © Copyright CorreioWeb Fale com a gente Publicidade


.