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Brasília, quinta-feira,
14 de março de 2002
Brasília-DF

Por Arlete Salvador
arletes@correioweb.com.br



A indiferença do eleitor

Na pesquisa espontânea do Ibope, na qual se deve indicar o candidato a presidente de memória, quase metade do eleitorado ainda não sabe em quem votar

Por mais que os analistas de intenção de voto insistam que pesquisas são apenas um retrato do momento, elas têm um impacto profundo no processo político. A governadora do Maranhão, Roseana Sarney, que o diga. No prazo de pouco mais de dez dias, ela deixou a posição de grande fenômeno eleitoral deste ano para a de grande desastre. E isso a seis meses da eleição, quando o eleitorado está mais preocupado com o destino dos personagens do Big Brother Brasil, o espetáculo de realidade virtual da Rede Globo, do que nos eventuais candidatos a presidente da República.
  Um dado revelador do humor dos eleitores está na última pesquisa do Ibope. Na consulta induzida, aquela em que as pessoas são confrontadas com uma lista de candidatos e obrigadas a escolher, o senador José Serra, do PSDB, ultrapassou Roseana Sarney. Na pesquisa espontânea, na qual deve indicar o seu candidato de memória, os que não souberam responder ou não quiseram opinar somaram 48%. Ou seja, quase metade do eleitorado ainda não tem candidato.
  Enquanto Brasília ferve com as intrigas de bastidores a favor e contra candidaturas, os eleitores seguem suas vidas indiferentes ao processo eleitoral. Muito provavelmente, só tomarão uma decisão a partir dos programas de televisão, que vão ao ar em agosto. Depois da Copa do Mundo, portanto. Os partidos e seus candidatos estão de olho nesse tempo. Administram o presente sem perder de vista que os resultados de hoje são voláteis.
  O diretor do instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, costuma lembrar que se trata de um processo dinâmico. As pesquisas influenciam o sistema político, provocam alterações de rumo e, mais tarde, são influenciadas por essas mudanças. E assim, sucessivamente. Os resultados das últimas pesquisas, realizadas logo depois da ação da Polícia Federal na empresa de Roseana em São Luís, refletem a desconfiança popular com relação à sua candidatura, principalmente porque toda propaganda na televisão a apresentava como algo novo e diferente do resto do mundo político. A comparação entre uma imagem e outra foi, até agora, devastadora.
  A partir de agora, as forças políticas na disputa tomarão outras providências, alterando o cenário. O eleitor vai reagir a elas mais tarde. Por isso é impossível fazer previsões sobre o futuro das atuais candidaturas. Tempo é a palavra mágica do momento. No PSDB, com a melhoria do desempenho do candidato Serra, a preocupação é administrar esse patrimônio por seis longos meses. ‘‘Precisaremos de uma paciência de Jó para atravessarmos todo esse tempo’’, dizia ontem um dos líderes do partido. Havia também o cuidado para não melindrar ainda mais o PFL, depois do baque sofrido pela candidatura Roseana e pelo desembarque do governo.
  No PFL, a decisão de só votar a emenda que prorroga a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) foi um sinal do tamanho do descontentamento do partido com o governo. Significou também um tempo para os pefelistas avaliarem as conseqüências dos acontecimentos desta semana, as reais condições da candidatura de Roseana e, em especial, eventuais alternativas a ela. Essas decisões, obviamente, levarão em conta pesquisas de intenção de voto, pois a maioria delas ainda não mediu o impacto da imagem do marido da governadora, Jorge Murad, assumindo a responsabilidade do dinheiro encontrado na sede da empresa sobre o eleitorado.   


DESCONFIANÇA

As ações da Globo Cabo, empresa das Organizações Globo, caíram ontem na Bolsa de Valores de São Paulo. Em parte, como resultado do anúncio de um prejuízo de R$ 700 milhões no ano passado. Mas o que deixou os investidores desconfiados foi o anúncio de que a Globo Cabo foi buscar recursos em uma instituição financeira pública, no caso o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Os investidores acreditam que, se não conseguiu aporte de capital no mercado privado, é porque está, mesmo, muito mal das pernas.


Esta coluna circula de terça a domingo



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