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Brasília, sábado,
16 de março de 2002
Política
SUCESSÃO
Porta-voz do Planalto nega escuta oficial na Lunus

Depois de um dia inteiro de especulações, a versão sobre o grampo com autorização judicial foi desmentida. Para pefelistas e petistas, porém, pode ter sido lançado o que os políticos chamam de ‘‘balão de ensaio’’
Anamaria Rossi, Denise Rothenburg e Eumano Silva
Da equipe do Correio


Wanderlei Pozzembom 21.5.99
Fernando Henrique: versão de Jefferson desmentida. Mas o presidente teve uma misteriosa conversa com Gilmar Mendes e o general Cardoso

‘‘É muito comum a Polícia Federal grampear durante meses telefones de suspeitos. Quando aparece nas conversas alguma coisa forte, eles lavam o grampo com uma autorização judicial’’, disse ao Correio um experiente advogado criminalista. ‘‘Já vi isso acontecer um monte de vezes’’, diz o advogado. Para a cúpula do PFL, era isso que o governo poderia estar buscando começar a fazer a partir da conversa do presidente Fernando Henrique Cardoso com os deputados Roberto Jefferson (PTB-RJ) e José Carlos Martinez (PTB-PR).
  Na verdade, produzia-se o que na gíria política brasiliense costuma-se chamar de ‘‘balão de ensaio’’, na opinião dos pefelistas. O presidente usava como interlocutor Roberto Jefferson, um deputado considerado como de baixa credibilidade. Se a história fossem bem recebida, insistia-se nela. Em caso contrário, ela seria negada. Como acabou ocorrendo.
  O procurador responsável pelo caso Sudam no Tocantins, Mário Lúcio Avelar, contribuir para que a versão não prosperasse. ‘‘Não pedi quebra de sigilo algum’’, afirmou ele. Como o procurador responsável pelo caso, qualquer pedido nesse sentido, a princípio partiria dele.
  Publicamente, os pefelistas evitaram morder a isca. Nada comentaram sobre o caso. Enquanto isso, os advogados de Roseana Sarney aguardavam as manifestações oficiais do governo. O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro já tinha uma estratégia pronta caso houvesse a confirmação da história. ‘‘Pouco importa que essa autorização exista. A lei que prevê escuta telefônica permite que ela seja feita por 15 dias, fundamentadamente. Em casos excepcionais, por mais 15 dias. Não existe nenhuma hipótese legal para que se conceda autorização de escuta por seis meses’’. Assim, Almeida Castro julgava que poderia ter, com a confirmação da história, um pretexto para anular todo o processo e a apreensão dos documentos encontrados na empresa Lunus, de propriedade de Roseana e de seu marido, Jorge Murad.
  Enquanto o PFL e os advogados de Roseana especulavam sobre o caso, o presidente Fernando Henrique Cardoso mantinha absoluto silêncio, que só seria quebrado no início da noite. Durante o dia, no Palácio do Alvorada, Fernando Henrique recebeu o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso e o advogado geral da União, Gilmar Mendes. Não há detalhes sobre a conversa.

A polícia não foi
Antes que o porta-voz da Presidência, Alexandre Parola, negasse a história do grampo na Lunus, outras negativas surgiram em outras áreas do governo. A chefe de Comunicação Social da Polícia Federal, Viviane da Rosa, disse desconhecer a escuta feita pela corporação na empresa Lunus, de propriedade da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, e do marido Jorge Murad. ‘‘Não se faz grampo quando não há autorização judicial. Não temos conhecimento da autorização judicial ou mesmo da escuta. Isso não foi feito pela Polícia Federal’’, disse Viviane.
  O ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, também negou. ‘‘Roberto Jefferson deve estar confuso. O presidente não falou do grampo específico da Lunus’’, disse o ministro. ‘‘Agora, é inimaginável que alguém fale com o presidente da República, saia do Palácio e depois procure a imprensa’’, concluiu, irritado.
  Para o deputado Walter Pinheiro (PT-SP), há ainda muito o que se explicar sobre toda essa história. ‘‘Por que o presidente teria essa conversa com Roberto Jefferson, que é do PTB, um partido que nem está coligado com o PSDB?’’, pergunta.
  O deputado diz que o episódio Lunus está recheado de dúvidas desde o início. Pergunta, por exemplo, por que a Lunus não foi investigada e invadida pela Polícia Federal antes de Roseana Sarney tornar-se uma ameaça ao candidato tucano José Serra. ‘‘Porque não interessava, naquele momento, para o governo, destruir um aliado’’, afirma. ‘‘O código de ética da corrupção diz que quando é aliado a PF não entra?’’, provoca.


Telemar: de novo na PF

  O afastamento do delegado Deuler Rocha do inquérito que investiga a privatização da Telebrás, ocorrida em 1998, não deverá tirar do foco das investigações Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor da Área Internacional do Banco do Brasil e amigo do pré-candidato do PSDB à sucessão presidencial, senador José Serra. O Ministério Público Federal devolveu ontem à Polícia Federal os autos da investigação, com uma requisição para que sejam tomados os depoimentos de Oliveira e de dois acionistas da Telemar — o dono do Banco Opportunitty, Daniel Dantas, e o empresário Carlos Jereissati, do grupo La Fonte.
  O Ministério Público pediu a abertura do inquérito no ano passado para apurar se Oliveira cometeu crime na privatização, quando ajudou a montar o consórcio vencedor com recursos da Previ, o fundo de pensão dos empregados do Banco do Brasil. O ex-diretor do Banco do Brasil foi acusado pelo ex-senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) de ter recebido R$ 90 milhões por sua atuação nos bastidores da privatização.
  A saída de Rocha do inquérito decorreu da troca da equipe da Delegacia de Combate ao Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Delecoie) pelo superintendente da PF no Rio, Marcelo Itagiba, ex-assessor de Serra no Ministério da Saúde. A PF alega que a troca de delegados foi ‘‘ato de rotina’’. Especializado em inquéritos sobre escândalos financeiros, como o do caso Marka, Rocha foi surpreendido pela mudança.
  O delegado Marcelo Itagiba disse que não é ‘‘amigo nem inimigo de Serra’’. Segundo ele, sua relação com o ex-ministro era ‘‘profissional’’. ‘‘Não freqüento a casa dele e ele não freqüenta a minha.’’ Itagiba disse também que não conhece Ricardo Sérgio Oliveira. O delegado enviou ofício ao Ministério Público Federal, pedindo que fiscalize com rigor as investigações sobre a privatização da Telemar. Para não ter de comentar o caso com a imprensa, Serra deixou pela porta dos fundos o Club São Paulo onde teve reunião com empresários italianos, em São Paulo.


Arapongas e urnas eletrônicas
Luiz Alberto Weber
Da equipe do Correio


Nehil Hamilton 17.12.00
Centro de pesquisas da Abin foi contratado pelo TSE para garantir segurança dos dados eleitorais

O suposto envolvimento de agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) na operação que culminou com a invasão do escritório da governadora Roseana Sarney, em São Luís, pode acender mais um foco de incêndio entre o PFL e o governo. O motivo é a presença de um órgão ligado à Abin no coração das eleições deste ano: a transmissão e a contagem dos votos dos eleitores.
  Contratado no ano passado pelo Tribunal Superior Eleitoral para desenvolver um programa que garanta a segurança da transmissão de dados entre os Tribunais Regionais Eleitorais (TRE) e o TSE, o Centro de Pesquisas em Segurança das Comunicações (Cepesc) faz parte da Abin e tem entre seus técnicos antigos arapongas.
  O Cepesc foi contratado em 1996, porque não havia no Brasil empresa capaz de desenvolver um programa de computador que criptografasse (embaralhasse dados) confiável. Na época, o governo americano só autorizava a venda para o exterior de chaves de criptografia fáceis de serem quebradas (isto é: que permitiam a adulteração dos votos).
  Diante da necessidade de segurança, o único órgão ou empresa a deter a tecnologia de criação de chaves de criptografia no Brasil era o Cepesc, que criou um código secreto avançado para o TSE. O Cepesc é uma ilha de tecnologia e capacidade pouco conhecida. Muitos de seus técnicos são engenheiros e matemáticos com doutorado no exterior. Parte da comunicação secreta entre o Itamaraty e embaixadas brasileiras no exterior é feita por equipamentos desenvolvidos pelo Cepesc. A rigor, a Abin é o único órgão do governo a possuir a chave que dá acesso a todo o sistema do TSE.
  O envolvimento de agentes que atuam na órbita do Abin no processo eleitoral foi divulgada pelo Correio nesta semana. O presidente Fernando Henrique Cardoso soube que agentes de inteligência estiveram no Maranhão e no Ceará levantando informações sobre a governadora Roseana Sarney, seu marido Jorge Murad e o empresário Carlos Jereissati. O empresário é irmão do governador cearense, Tasso Jereissati.
  Os agentes, espiões que trabalharam regularmente nos quadros do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), chegaram a prestar serviços para a Agência Brasileira de Informações (Abin), sucessora do SNI. Mas, segundo explicou ao presidente o general Alberto Cardoso, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência e responsável pela Abin, ‘‘nenhum agente da ativa esteve envolvido nessas ações’’.
  Softwares de computador destinados a uso em eleições e arapongas fazem uma combinação que já deu problemas no passado. Em 1982, na primeira totalização eletrônica de urnas no Rio de Janeiro, o candidato ao governo do Rio Leonel Brizola só não perdeu a eleição ganha nas urnas porque a imprensa somou manualmente os boletins do TRE, já a empresa contratada para fazer o somatório final dos mapas produzidos manualmente pelas juntas eleitorais, a Procunsult, havia alterado o resultado dando a vitória a Moreira Franco. A Proconsult tinha entres seus funcionários vários agentes graduados do antigo SNI.


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